Socorro

Minha avó, Socorro. Fotos reproduzidas dos álbuns de família

O melhor lugar do mundo é o colo de minha avó, Socorro. Ali, onde ser leve ou pesado, pequeno ou grande deixava de fazer sentido. Ali, onde o ouvido escutava coisas sobre um tempo que minha voz quase não fala, mas que meu coração não esquece e guarda (pra sempre).

O melhor lugar do mundo é ali. Continua sendo. Ali, no cafuné naquele colo quase sempre cansado de tantos afazeres. Ali, no banhar sobre a pia do quintal enquanto ela escovava minhas costas e areava meus pés, sujos de andarem descalços por todos os lugares. [Nem conto quantos espinhos ela tirou dos pés danados de pular e brincar a infância]. Como era bom. Como era boa minha avó!

Aqui, longe, num lugar que não é mais o dela — nem o nosso — lembranças são que o me resta. Do café com borra, daquele cuscuz conservado quentinho numa sacola sobre um dos pratos de esmalte que cobriam as panelas que cozinhavam o almoço. Das talhadas de abóbora, batata doce ou macaxeira no fim de tarde, da rapadura raspada com farinha no pano de prato, da castanha de caju assada e quebrada na hora, da paçoca feita com a amêndoa do pequi — só ela sabia fazer aquilo! –, da comida temperada com azeite de coco (babaçu), do fogareiro sempre aceso pra assar milho, daquele ninar murmurado e constante…

O melhor que já visitei neste mundo é ali, onde eu era apenas ‘Jassim’ — apelido de infância e, para ela, meu nome da vida inteira. Jadson era complicado demais para a simplicidade dela.

Agora, só, sinto tanto. Saudades de nós.

Confio à senhora, vó, os melhores instantes de mim. Receba aí, no céu, meu amor e meu abraço!

‘Somente o tempo, o tempo só
 Dirá se irei luz ou permanecerei pó
 Se encontrarei Deus ou permanecerei só
 Se ainda hei de abraçar minha vó…’

*11 de outubro é o dia dela.