O que vocês não sabem sobre “Não vi Basílio, mas vi Romero”

Foto: Rodrigo Gazzanel / Futura Press

Se eu disser que meu namorado, Paulo Pacheco, e eu fizemos cartazes pensando em aparecer na transmissão da final do Campeonato Paulista, estaria mentindo.

Depois dos 3x0 no jogo de ida contra a Ponte Preta, tudo o que nós queríamos era nos divertir. Pensamos juntos as frases enquanto estávamos na fila da tarde de autógrafos do livro “Derby: 100 Anos — Corinthians x Palmeiras”, escrito pelos mestres Celso Unzelte e Paulo Vinícius Coelho, no sábado, dia que antecedeu o segundo jogo da final.

No dia seguinte, soubemos que acertamos na escolha da frase “Não vi Basílio, mas vi Romero” quando nos deparamos com outros corintianos do setor sul pedindo para tirar fotos com ela.

Posamos para alguns fotógrafos antes do início da partida e observamos que o repórter Renato Peters tinha lido a faixa, mas não esboçou nenhuma reação. Eis que depois descobrimos que foi ele mesmo que puxou o assunto com Cleber Machado por volta dos 31’ do primeiro tempo.

Em dado momento, um câmera acenou de longe e pediu que levantássemos os cartazes. Mal eu sabia onde isso iria dar. Só soubemos do alcance bem depois, quando entramos em nossas redes sociais e nos deparamos com nossa foto em portais e em várias páginas humorísticas de futebol.

Em Itaquera eram mais de 46 mil pessoas dentro daquele estádio. Eu jamais pensaria que iriam focalizar dois torcedores com faixas divertidas e que isso se alastraria tanto na internet. Nem mesmo quando o câmera pediu, porque nós não sabíamos que ele estava trabalhando na transmissão. Definitivamente, foi uma surpresa.

Mas antes que este texto fique narcisista demais, eu queria falar do lado que mais me deixou feliz nesta história toda — e não é a “fama”.

Muito além de um viral

A primeira vez que eu pisei num estádio de futebol foi em 2006 (embora minha identificação com o clube venha desde 1999, ainda com 8 anos), em uma partida do Campeonato Brasileiro entre Corinthians e Botafogo, no Pacaembu. De lá para cá, cada vez mais compareço aos jogos do Timão aqui em São Paulo.

Após mais de dez anos nessa vida apaixonante que é ver meu time de coração no estádio (é um caminho sem volta), eu vivi algumas fases. Neste primeiro jogo, fui com meu irmão, mas depois que comecei a trabalhar passei a ir sozinha. Os olhares eram tortos, de indiferença, como se aquela situação fosse absurda. Incomum? Talvez. Sem dúvida, a mulher tinha o seu espaço no estádio, mas é fato que anos atrás o número de torcedoras era bem menor.

Eu não sei falar muito bem quando essa visão mudou, afinal, ir aos jogos sozinha, gritar, xingar, sugerir que o passe fosse pra fulano, etc, sempre foi natural pra mim e pouco me importava se achavam aquilo estranho. Eu só queria empurrar o Corinthians e cantar até ficar rouca.

Com o passar do tempo, na faculdade, eu já era bem aceita para falar da rodada do final de semana. Depois de saberem que eu realmente gosto de viver isso, as pessoas até achavam legar ver uma mulher tão apaixonada pelo time.

Quando cheguei em casa no domingo, já tarde após o longo trajeto de Itaquera até Diadema, mas ainda na adrenalina, fiz uma pesquisa no Twitter para saber o que estavam falando das faixas.

Jornalistas, homens e mulheres comentando positivamente a situação, achando engraçado, sem julgamento de valor. Sem acharem estranho que era uma mulher que estava com ela. Sem chamar esta mulher de burra, sem falar que mulher “não entende nada de futebol mesmo”.

Este momento é um divisor de águas, pelo menos pra mim. Saber que vou ficar, de certa forma, na história do Corinthians me deixa inacreditavelmente emocionada — eram mais de 46 mil pessoas ali… Daqui a 40 anos, isso ainda vai ser história, mas marcante mesmo foi o fato de que, pelo menos neste caso, o machismo no meio do futebol foi deixado de lado.

Essa é minha maior vitória. Eu já disse isso em outros textos aqui e em outros lugares, mas repito: sempre luto, a medida do possível, pelo espaço da mulher no futebol — dentro e fora de campo; que bom que a mentalidade está mudando. Que bom que estou aqui para viver isso.

Que bom que eu tenho um namorado que compreende a tal ponto minha paixão, que compra essa loucura comigo. Que me acompanha nos jogos quando pode. E que quando não pode não vê problema nenhum em eu ir sozinha.

Eu já vivi muita coisa nessa jornada — e viverei ainda mais — mas este pós-jogo vai ficar pra sempre na minha memória. Salve, Corinthians. Eternamente dentro dos nossos corações.

Foto: Bruno Teixeira Rolo