Os desafios de tornar um grande produto acessível e o que tenho aprendido com isso

Quando comecei a estudar sobre acessibilidade na web, pensei em fazer alguns cursos e, talvez, com alguma certificação e conduzindo algumas entrevistas com usuários, eu estaria perto de me tornar um especialista. Mas a verdade é que esse sonho não é tão fácil. Na verdade, toda a ideia de apenas um especialista resolvendo magicamente todos os problemas é ilusória. Vamos entender o porquê.

Um produto ou conteúdo da web é feito por pessoas: redatores, criadores de conteúdo, designers, gerentes de produto e assim por diante. Às vezes, esse número fica muito grande. Então, vamos pegar meu contexto como exemplo: atualmente, trabalho para a maior plataforma de educação online do Brasil, a Descomplica. É importante que cada redator de marketing saiba como se comunicar, como falar com o público para garantir a inclusão e a diversidade em nosso discurso. É importante que cada funcionário do suporte ao cliente saiba como lidar e instruir as pessoas com deficiência quando elas têm um problema.

Além disso, os professores precisarão lembrar constantemente que não podem contar com pistas que dependem apenas da visão, da audição ou de algum alto grau de conhecimento ao ministrar suas aulas. A equipe pedagógica precisa criar materiais de apoio em PDF com as imagens descritas. Os espaços físicos devem ser projetados para pessoas de todos os tipos. Esses são apenas alguns exemplos, mas você entendeu o meu ponto.

Agora, considere a quantidade de legado de produto e conteúdo necessária para se trabalhar. Além disso, o número de pessoas que trabalham com ele todos os dias. Como uma ou meia dúzia de pessoas podem tornar tudo isso acessível? A verdade é que a única maneira de fazer a mudança de verdade é capacitar todos os colaboradores para que tenham autonomia para pesquisar, aprender, testar e melhorar. Produtos e conteúdos são um organismo vivo — precisamos nos alimentar e cuidar deles e não podemos fazer isso sozinhos.

Depois que as equipes receberem treinamento e conhecerem a realidade das pessoas com e sem deficiência que enfrentam dificuldades todos os dias, eles saberão o que fazer ou, pelo menos, que direção tomar. É importante ter um líder para instruir e ajudar, mas não pense que se pode fazer isso sozinho. As pessoas precisam estar todas juntas pela mesma causa. Bons líderes sabem que sempre aprenderão com as pessoas ao seu redor.

Uma pessoa que está constantemente ouvindo sobre o assunto, estudando-o e rodeada de pessoas que respiram o mesmo propósito, normalmente estará propensa a aplicar as novas técnicas na rotina de trabalho. Ela estará atento a artigos, conteúdos e o que outras pessoas estão fazendo e dizendo sobre. Isso criará naturalmente a cultura que sempre desejamos ter em primeiro lugar, na qual nos esforçamos para criar com uma mentalidade mais diversa e inclusiva.

Aprender com os cursos, ler artigos, ser receptivo a informações não dará a uma pessoa a varinha mágica do Harry Potter. Claro que é importante e também trivial estudar o máximo possível, mas apenas a “vida real” ensinará o que é necessário saber. Cada produto, seja real ou virtual, requer um monte de pequenos detalhes para que funcione da melhor forma. E não há manual de instruções — é possível testar contrastes de cores com ferramentas online, mas se essa cor funciona ou não, é algo a ser descoberto assim que for testado por um número considerável de usuários daltônicos e pessoas com deficiências visuais.

O mesmo acontece com a navegação do teclado. Como saber se funciona? Faz sentido para o usuário e se o produto está respeitando a WCAG? Bem, para ter certeza disso, muita pesquisa precisará ser feita. E essa é a melhor parte do trabalho.

Estudei o melhor que pude para melhorar meu trabalho e ajudar meus colegas a saber o que fazer. Agora sou o responsável pelo Programa de Acessibilidade da Descomplica junto com uma excelente designer e amiga pessoal, Paula Brito, e o trabalho a ser feito é enorme até para nós duas. Algumas de nossas funções neste programa são instruir e ajudar da melhor forma possível, mapear as áreas envolvidas, as medidas a serem tomadas e ministrar workshops e treinamentos para as equipes.

Estamos muito orgulhosos do que fizemos até agora e estamos ansiosos para ver o dia em que teremos tudo acessível. Mas também sabemos que esse caminho não será curto e a jornada não será fácil. Ainda há muito a aprender com nossos alunos e, como eu disse antes, essa é a melhor parte.

Writer. Product Designer, UX/UI & Web Accessibility at Descomplica.

Writer. Product Designer, UX/UI & Web Accessibility at Descomplica.