A face do medo



Diuturnamente, não tenho uma cara bonita e simpática, bem longe disso. Normalmente, pareço aquele sujeito que está a três frases de transformar o seu dia em algo bem desagradável, um camarada ao qual você não deseja perturbar. Posso dizer que é uma característica que não me desagrada, pois me ajuda a evitar contato com muita gente indesejável. Mas nesse dia…


07:15 da manhã de um sábado que prometia calor, ainda pouco movimento nas ruas. O ônibus estava praticamente vazio. Dou o sinal de parada e levanto-me. Ao me dirigir para a porta de saída, vejo uma figura de touca e vestido amarelo sentada no fundo do ônibus. Ao me encarar, vi seu corpo se encolher e suas feições formarem uma expressão de terror, como se eu fosse atacá-la.

Era uma travesti jovem e negra de uns 19 anos e pude ver que não havia se habituado a dureza do mundo com relação a sua orientação sexual, ainda mostrava o reflexo da surpresa de quem não compreende o motivo da brutalidade para consigo apenas por ser o que era, mas entendia que qualquer pessoa poderia ser um agente da violência. Foi assim que interpretei o seu olhar aterrorizado e, automaticamente, senti empatia por aquele ser humano, tão igual a mim quanto outro qualquer.
Removi meus óculos de sol e sorri afetuosamente para ela. Sua face de medo se desfez e ela desviou o olhar, ainda temerosa, até que eu descesse.

Que mundo triste este que criamos, a ponto de fazer pessoas se sentirem caçadas e ameaçadas a todo momento…