O amor é seresta com teclado Casio

Pra Bukowski o amor é um cão dos diabos. Pra mim é um grande Brega embriagado. Nenhum movimento musical, por assim dizer, descreveu de forma tão icônica, passional e crua esse sentimento que morde e assopra os corações desavisados. Nunca o amor foi tão bem cantado como numa seresta em boteco na tarde do domingo. Nesse caso leia-se Brega em seus diversos subgêneros, Lambabrega, Arroxa e derivados.

O sujeito começa com uma dose de cachaça e como Wanderley Andrade no Melô do Ladrão, conhece sua amada e não quer pensar em mais nada: “Eu quero logo ser julgado/ e em seguida condenado/ a ficar preso no teu coração/ pois minha felicidade/ é ficar atrás das grades/ sem direito e sem perdão/ e no teu corpo de donzela/ que vai ser a minha cela/ eu jamais irei pedir paixão/ não quero a chave da cadeia/ eu preciso é do amor/ eu não quero a liberdade não”.

Quem está apaixonado não mede esforços, faz o que é precisa pra ver seu xodó. O cara faz como Carlos Santos em Remador, que atravessa as águas do mar pra ver seu amor: “Remador, remador/ apressa esse barco no mar/ eu quero ver meu amor/ que mora no lado de lá”. Quem não se esforça pra estar perto de quem gosta?

O relacionamento pega fogo! O sexo, mais que juntar os corpos, junta as personalidades e às vezes os atritos são inevitáveis. Porém, a paixão ainda está lá queimando. Duas ou três doses de cana já foram goela abaixo, e a agulha da vitrola passa por Surra de Amor, de José Orlando: “Por que não manda logo me prender/ numa gaiola bem pertinho de você/ Aí pode fazer o que bem quer/ pancada de amor não dóis/ seja lá o que deus quiser/ me deu uma surra, uma surra de amor”.

Passado o fervo, as relações vão esfriando, o amor não é mais o mesmo, começa o desgaste e a separação. O sujeito já está com meia garrafa de brejeira na mente, e dessa vez é Roberto Vilar quem conta a história: “Eu não sei/ se você foi pro Irã e morreu na guerra/ ou será que você se esconde de mim”. Pior ainda quando tudo termina no estilo Pablo do arroxa: “Estou indo embora/ a mala já tá lá fora/ vou te deixar…”

A ressaca chega dói na cabeça e na caixa dos peitos do cabra. Acha que vai morrer e que nunca mais vai encontrar ninguém. Aqui ele já cai em desesperança e começa a escutar coisas pesadas demais, como Evaldo Braga: “Sinto a cruz que carrego bastante pesada/ já não existe esperança/ no amor que morre/ a solidão, amargura/ desprezo e mais nada/ vou amargando a sorte que a vida me deu”.

Por essas e outras que há descrença nas relações duradouras. As pessoas não querem mais passar por todo processo, estão cansados de ouvir seresta de teclado Casio, a cachaça não desce mais. Mas eu reservo a última citação não para uma música, mas um filme, que não deixa de ter a veia brega-sentimental. É Lisbela e o Pisioneiro, uma fala que o Tenente Guedes Lima, pai da protagonista apaixonada, grita quando a filha foge com sua paixão: “Vá e seja feliz…se puder”.

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