
Diabetes e saúde dos idosos no Brasil segundo a PNS - 2013*
Antonia Jaine da Silva Pereira - Economista/Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDEM/UFRN)
Angela Thaís Araújo de Almeida - Atuária/Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDEM/UFRN)
*Este trabalho foi desenvolvido como atividade do módulo de mortalidade da disciplina Componentes da Dinâmica Demográfica (CDD-2019.2) do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDEM/UFRN).
O processo de transição demográfica em curso em vários países do mundo tem ocorrido de forma muito mais acelerada no Brasil, assim como em outros países latino-americanos e asiáticos, em relação aos países desenvolvidos, trazendo como principal consequência o envelhecimento populacional (BRITO, 2007). Em paralelo ocorre também a transição epidemiológica, que aponta para o deslocamento gradativo da mortalidade em direção a idades mais avançadas, estando cada vez mais associada a morbidades e fragilidades na velhice (HORIUCHI, 1999).
Essas transições trouxeram mudanças quanto a incidência e prevalência de doenças e alavancaram os índices de óbitos por doenças crônicas não transmissíveis. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde da Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) (2019) as doenças crônicas são a principal causa de mortalidade e incapacidade prematura nas Américas, e afetam tanto o desenvolvimento social e econômico quanto a qualidade de vida de milhões de pessoas. São também doenças cuja incidência eleva-se com a idade, de modo que os idosos são os mais acometidos (BARRETO; CARREIRA; MARCON, 2015).
O diabetes figura, além da hipertensão, como uma das principais doenças crônicas em termos de prevalência entre os idosos, perdurando ao longo da vida e exigindo cuidados e medicação contínuos e exames periódicos. Dado os vários possíveis agravos, o diabetes, assim como as demais doenças crônicas, traz graves problemas para os sistemas de saúde pública, especialmente em se tratando do idoso (BARRETO; CARREIRA; MARCON, 2015).
Nesse contexto ganham destaque as implicações, seja do aumento da proporção de idosos na população, seja do crescente protagonismo desse segmento etário quanto a morbimortalidade por doenças crônicas, dentre elas o diabetes, sobre a área de saúde, para a qual pode ser importante considerar as variações regionais quando do desenvolvimento de políticas em atenção aos sistemas de saúde, para os quais se prevê desafios crescentes em função do envelhecimento populacional (CHRISTENSEN et al., 2009; BARRETO; CARREIRA; MARCON, 2015; SARTORELLI; FRANCO, 2003).
Posto isso, o objetivo do trabalho é analisar a prevalência de diabetes entre os idosos no Brasil e suas implicações sobre o estado de saúde e desenvolvimento de outras complicações, atentando para os diferenciais regionais e entre os sexos. A principal fonte de informações são os microdados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2013 (PNS-2013).
Contextualização sobre diabetes e algumas estatísticas internacionais
Segundo as projeções da Organização Mundial da Saúde até o ano de 2025 o Brasil figurará entre os dez primeiros países do mundo com um maior contingente populacional de idosos, como reflexo do processo de transição demográfica cujas principais características foram a queda nas taxas de mortalidade e fecundidade e o aumento na expectativa de vida. Entra em evidência ao lado deste envelhecimento a mudança no padrão epidemiológico, que acaba por acarretar uma procura significativa por serviços de saúde (RODRIGUES et al., 2008).
Jopp, Boerner e Rott (2016) argumentam que os idosos costumam experimentar problemas de saúde acompanhados por necessidades especiais, e essas dificuldades trazem grande impacto sobre o sistema de saúde, em termos de custo produzido. É nesse sentido que o envelhecimento populacional e as taxas de mortalidade, morbidade e incapacidades entre os idosos serão um desafio para a sociedade moderna no que diz respeito ao seu desenvolvimento sustentável, já que o aumento da expectativa de vida faz com que esse segmento populacional, que é o mais suscetível a doenças e incapacidades, cresça rapidamente (CHRISTENSEN et al., 2009).
Junto à transição e ao novo comportamento epidemiológico há, no Brasil, o predomínio das doenças crônicas não transmissíveis como uma das principais causas de morte. Este tipo de doença responde por grande parte da carga de doenças no país, e a tendência é que sua prevalência aumente junto ao envelhecimento populacional, dado que são doenças que acometem com maior frequência os idosos (BARRETO; CARREIRA; MARCON, 2015; RODRIGUES et al., 2008; CHRISTENSEN et al., 2009).
Entre essas doenças encontra-se o diabetes, que segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) está associada à queda da produção de insulina pelo o organismo, substância que serve para regular a quantidade de glicose no sangue e que promove a entrada de glicose para as células do organismo. Um dos principais agravantes trazidos por essa situação é o acúmulo de glicose no sangue, a chamada hiperglicemia (SBD, 2019).
Essa doença pode ser classificada em três tipos, o diabetes Tipo 1, Tipo 2 e a diabetes gestacional, estando a principal diferença relacionada à influência que cada um traz sobre o organismo. No tipo I o sistema imunológico ataca de forma equivocada as células beta, o que leva a uma diminuição na quantidade de insulina liberada no organismo, provocando o acúmulo de glicose no sangue. O tipo 1 de diabetes tem predominância entre as idades mais jovens, aparecendo principalmente na infância e adolescência. O tipo 2, por sua vez, ocorre quando o organismo não consegue utilizar corretamente a insulina produzida ou não produz o suficiente para o controle da glicemia, sendo o tipo mais comum e que atinge com mais frequência os adultos. Há ainda a diabetes gestacional, que ocorre entre as mulheres durante o período de gravidez e está associada a transformações hormonais que o organismo sofre para proteger o bebê. A placenta é uma enorme fonte de hormônios, por conta disso ela consegue inibir a ação da insulina e, portanto, a absorção da glicose no organismo (SBD, 2019).
É importante mencionar que trata-se de uma doença que se apresenta de forma silenciosa, e muitas vezes seu diagnóstico somente é feito quando ocorre alguma complicação, que abrange doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, doença renal, problemas nos pés e membros inferiores, nos olhos, na pele, dentre outras (SARTORELLI; FRANCO, 2003; SBD, 2019).

Quer avaliar seu risco de desenvolver diabetes tipo 2? A International Diabetes Federation (IDF) desenvolveu um teste para isso! O teste está disponível em: https://www.idf.org/type-2-diabetes-risk-assessment/
Segundo Sartorelli e Franco (2003) estima-se que em 2025 cerca de 64 milhões de pessoas nas Américas apresentarão diagnóstico de diabetes. Quanto a mortalidade, acrescentam que as mortes por esta causa têm sido negligenciadas, pois na maioria das vezes os indivíduos morrem por complicações crônicas da doença, que são informadas no atestado de óbito como a causa da morte, embora esta decorra também do diabetes. Segundo o atlas do IDF de 2015, houveram no Brasil em 2015 mais de 130.700 mortes relacionadas ao diabetes, correspondendo a mais da metade da mortalidade por esta causa na região da América do Sul e Central (IDF, 2015).
Dados levantados pela International Diabetes Federation (IDF) apontam que em 2017, entre as idades de 20 e 79 anos, morreram no mundo cerca de 4 milhões de pessoas por causa de diabetes, o que em termos percentuais representa cerca de 10,7% da mortalidade mundial por qualquer causa, superando os óbitos relacionados a enfermidades infecciosas (IDF, 2017).
Com relação ao diabetes entre os idosos, estima-se que cerca de 122,8 milhões de pessoas com mais de 65 anos vivem com essa doença pelo mundo em 2017. Já o número de mortes apresentado para o respectivo ano chegou a 3,2 milhões, para idosos acima de 60 anos (IDF, 2017). Em seu último atlas sobre diabetes, a IDF listou os 10 países que tem o maior número de idosos diabéticos (Tabela 1). Nessa listagem, o Brasil ocupa a quinta colocação com mais de 4 milhões de diabéticos com idade acima de 65, enquanto a China encontra-se em primeiro lugar, com mais de 34 milhões.
Tabela 1: Os dez países com maior número de diabéticos com mais de 65 anos — 2017

Além do impacto na mortalidade, há o grande peso dessa morbidade sobre a qualidade de vida e os sistemas de saúde. Segundo Sartorelli e Franco (2003, p. 32), trata-se de uma grande carga econômica e social, cujos “[…] custos estão relacionados principalmente com uma alta frequência de complicações agudas e crônicas, que são causas de hospitalização, incapacitações, perda de produtividade de vida e morte prematura”.
A Tabela 2 mostra a quantidade de pessoas que vieram a óbito por conta dessa doença e os gastos com tratamento nas grandes regiões do mundo em 2017. As informações não se referem exclusivamente aos idosos, mas dão um indicativo da mortalidade causada e do quão oneroso o diabetes pode ser, ainda mais associado a fragilidades da velhice (JOPP; BOERNER; ROTT, 2016). Observa-se que o maior número de mortes por diabetes é registrado nas regiões do Pacífico ocidental e Sudeste asiático, onde 2,4 milhões morreram por esta causa. Em seguida está a Europa, com mais de 470 mil óbitos.
Tabela 2: Número de mortes por diabetes e valor das despesas de saúde com diabéticos — 2017

Quanto ao gasto com diabetes, este alcança o valor de U$ 726.700 milhões em todo o mundo, sendo a América do Norte e Caribe a região onde mais se gasta, ao empregar mais da metade desse montante. Outra região com montante de gastos elevado é a Europa, com despesas de U$ 166.000 milhões na saúde dos diabéticos.
Prevalência entre idosos no Brasil
Segundo a PNS de 2013, a prevalência de diabetes a cada 100 habitantes maiores de 18 anos no Brasil varia entre 4,38 na região Norte e 7,48 na região Sudeste (Figura 1). Além de fatores genéticos, essa variação pode ser atribuída a fatores modificáveis como dieta, obesidade e sedentarismo (SARTORELLI; FRANCO, 2003). Dividindo entre indivíduos com 59 anos ou menos e aqueles com 60 anos ou mais, é possível observar o quão maior é a prevalência de diabetes entre esses últimos.
Vê-se que a região Norte apresenta a menor prevalência em ambos os casos. A cada 100 pessoas com 59 anos ou menos (adultas), aproximadamente 3 (2,77%) tiveram diagnóstico médico de diabetes. Entre aquelas com idade maior que 60 (idosos) esse número foi muito maior, o equivalente a 14,43 a cada 100.
Figura 1: Prevalência de diabetes segundo região e grupo de idade — Brasil — 2013

O Sudeste, após divisão pelos grupos de idade, passa a apresentar a segunda maior prevalência tanto entre adultos (4,20%), quanto entre os idosos (19,47%) em relação às demais regiões. A maior prevalência de diabetes entre pessoas com menos de 60 anos coube a região Sul (4,30%), o que chama atenção dado que a mesma possui a segunda menor prevalência de diabetes entre os idosos. Já a maior prevalência acima de 60 anos está no Centro-Oeste, onde pouco mais de 20% dos idosos possui diagnóstico de diabetes. No Nordeste, a prevalência para os idosos também foi relativamente alta, indicando diagnóstico de diabetes para 17,40% dos mesmos.
Em se tratando especificamente dos idosos, a Figura 2 mostra a distribuição entre os subgrupos de idade de 60 a 64 anos, 65 a 74 e 75 ou mais, além da distribuição segundo o sexo, mostrando a prevalência de diabetes dentro de cada grupo específico.
Figura 2: Prevalência de diabetes em idosos, por sexo, região e grupo de idade — Brasil — 2013

Em linhas gerais, vê-se taxas maiores para as mulheres, mas principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste. As taxas de prevalência para as idosas situam-se em torno de 20%, e são levemente crescentes com a idade, com exceção das regiões Sul e Norte. Na primeira o grupo de idade intermediário se sobressai em relação aos outros dois, enquanto no Norte a taxa de prevalência de diabetes aumenta muito conforme a idade. Nesta região, o diagnóstico de diabetes alcança 30% das idosas acima dos 75 anos.
Sabe-se que ao contrário da mortalidade, que é mais alta para homens do que para mulheres em todas as idades, as limitações funcionais e dificuldades nas atividades diárias são mais prevalentes entre as mulheres, pois tendem a relatar mais sintomas, e a ter mais doenças não fatais e sintomas físicos e psicológicos, além de maior longevidade(CHRISTENSEN et al., 2009).
Observando as taxas de prevalência para o sexo masculino, vê-se muito mais variações entre as regiões e entre os grupos de idade. Nas regiões Norte e Nordeste a prevalência de diabetes é maior no primeiro grupo de idade, já no Sudeste e Sul o diabetes é mais prevalente no grupo intermediário, e somente no Centro-Oeste se vê uma prevalência maior para o grupo de idade mais avançada.
Quanto às regiões, com exceção da destacada taxa de prevalência mencionada para o Norte, visualiza-se taxas de prevalência um pouco maiores para as regiões Centro-Oeste e Sudeste. O que já foi visto na Figura 1.
Uma observação importante feita por Christensen et al. (2009) é a de que apesar da melhoria das trajetórias de saúde depender em muito da saúde das pessoas idosas, um ponto de partida para esse progresso é a melhoria de estilo de vida no início da vida, ao evitar tabagismo, obesidade, sedentarismo, dietas precárias e excesso de bebida.
Limitações decorrentes e avaliação da saúde
Sobre a limitação das atividades habituais em decorrência de ter diabetes (Figura 3), em todas as regiões e independente do sexo são maioria aqueles que indicaram não haver limitações. Em geral, a frequência diminui conforme aumenta o grau de limitação. Para os homens foram levemente maiores os percentuais referentes a pouca limitação, com destaque para as regiões Norte e Centro-Oeste, ao passo que para as mulheres os percentuais associados a limitação moderada, intensa ou muita intensa foram maiores em relação ao sexo masculino, principalmente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Figura 3: Grau de limitação das atividades habituais em idosos devido a diabetes ou complicações, segundo sexo e região — Brasil — 2013

Entre as regiões, o Norte e o Centro-Oeste foram as que apresentaram grau levemente maior de limitação, mesmo estando associado a classificações diferentes dependendo do sexo. Cabe lembrar que para o sexo feminino na região Norte foi verificada uma alta taxa de prevalência de diabetes no grupo de idades mais avançadas (Figura 2), talvez por isso apresente um percentual maior para a limitação intensa.
Em síntese, a maior parte dos idosos diabéticos não sente que essa doença limite suas atividades habituais. Contudo, a partir das Figuras 4 e 5 abaixo é possível observar que a avaliação do estado de saúde destes é mais negativa em relação aos idosos que não têm diabetes, o que pode dever-se às possíveis complicações decorrentes do diabetes e a ampla necessidade de cuidados e acompanhamento médico (SARTORELLI; FRANCO, 2003), embora não limitem as atividades do dia a dia.
Figura 4: Avaliação geral da saúde de idosos com diagnóstico médico de diabetes, segundo sexo e região — Brasil — 2013

Na Figura 4 acima, que mostra o estado geral de saúde na avaliação dos idosos diabéticos, é possível ver que o percentual referente a avaliação do estado de saúde como ‘regular’ se destaca em todas as regiões, para ambos os sexos, situando-se acima de 50%, com exceção da região Norte. Para o sexo masculino, a segunda maior proporção é saúde ‘boa’ em todas as regiões, mas para as idosas, ao menos nas regiões Norte e Nordeste, vem em seguida a avaliação como ‘ruim’.
Na Figura 5 constam as mesmas informações da figura anterior, porém referentes aos idosos que não tem diabetes, e a comparação entre as duas visa mostrar o diferencial entre a avaliação dos idosos quanto a sua saúde quando há e quando não há o diagnóstico de diabetes.
Figura 5: Avaliação geral da saúde de idosos sem diagnóstico médico de diabetes, segundo sexo e região — Brasil — 2013

Embora para as idosas o maior percentual (cerca de 40%) seja atribuída a saúde ‘regular’, assim como foi entre as idosas com diabetes, este percentual foi bem menor, além de que a segunda avaliação mais frequente foi para uma saúde ‘boa’. Em síntese, pode-se dizer que na ausência de diabetes cerca de 80% dos idosos, independente da região ou do sexo, considera sua saúde ‘boa’ ou ‘regular’.
Ao analisar as tendências em saúde nos países desenvolvidos, Christensen et al. (2009) observam, com base tanto na morbidade autorreferida quanto em registros médicos, que a prevalência de doenças na população idosa aumentou ao longo do tempo. Contudo, os avanços em diagnóstico e tratamento podem estar levando ao adiamento das limitações funcionais, o que aponta para o aumento da qualidade de vida na velhice.
Complicações decorrentes
Como visto anteriormente, embora o diabetes não limite muito as atividades habituais, os idosos com este diagnóstico não avaliam bem sua saúde em relação aqueles que disseram não ter diabetes, o que pode dever-se às complicações da doença. A Figura 6 mostra taxas referentes a relação entre o número de idosos (em cada região e sexo) que relataram a complicação e o total de idosos com diabetes, e por ela entende-se que as mulheres não só apresentam maior prevalência de diabetes e avaliam pior sua saúde, como também são maioria entre os idosos que informaram ter tido alguma outra complicação em decorrência dessa morbidade.
Vê-se que a complicação mais frequentemente relatada refere-se a problemas na vista, principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste, e com frequência muito maior entre as mulheres. Por exemplo, entre as idosas com diagnóstico de diabetes no Sudeste, mais de 10% disse ter tido problema na vista em decorrência dessa doença, e no Nordeste, 5,41%. Entre os homens, esses percentuais foram 5,63% e 2,23% respectivamente. Esse problema traz um sério impacto sobre a qualidade de vida das pessoas que têm diabetes e está associado a deterioração do bem-estar físico, contribuindo para uma avaliação mais negativa do estado de saúde (IDF,2017).
Figura 6: Idosos que tiveram complicações decorrente de diabetes, segundo sexo e região — Brasil — 2013

Segundo o IDF (2017), pessoas que possuem diabetes têm probabilidade entre 2 e 3 vezes maior de desenvolver problemas cardiovasculares, que figuram como uma importante causa de morte e de incapacidades entre diabéticos. Problema circulatório foi a segunda complicação mais relatada, alcançando 4,74% das idosas com diabetes no Sudeste, e 2,4% no Nordeste.
Uma terceira complicação mencionada envolve os problemas nos rins, que figurou como o segundo maior percentual entre os idosos diabéticos do sexo masculino na região Sudeste, ao ser relatada por 2,63% destes. Os problemas nos rins foram equiparáveis aos problemas cardiovasculares entre as idosas no Nordeste, atingindo 2,90% das idosas diabéticas nesta região. Por serem doenças altamente relacionadas, dados agrupados de vários países revelam que 80% dos casos de doença renal terminal devem-se a diabetes e/ou hipertensão, de modo que a incidência desta doença chega a ser 10 vezes maior em pessoas diabéticas (IDF, 2017).
Devem-se muito a este ponto, o das complicações, as implicações sobre o sistema de saúde (IDF, 2017). Sartorelli e Franco (2003, p. 30) colocam que:
Pelo fato do diabetes estar associado a maiores taxas de hospitalizações, a maiores necessidades de cuidados médicos, a maior incidência de doenças […] pode-se prever a carga que isso representará para os sistemas de saúde dos países latinoamericanos, a grande maioria ainda com grandes dificuldades no controle de doenças infecciosas.
Barreto; Carreira e Marcon (2015, p. 326) também mencionam a necessidade de atenção à qualidade de vida do idoso a partir de uma perspectiva integrada, e bem observam que o “[…] prolongamento da vida, de fato, é uma aspiração de qualquer sociedade […]. No entanto, só pode ser considerado como uma real conquista na medida em que se agregue qualidade aos anos adicionais de vida.”
Considerações finais
O objetivo do trabalho foi analisar a prevalência de diabetes entre os idosos no Brasil, com atenção aos diferenciais regionais e por sexo. Em uma contextualização inicial, foi ressaltado o diabetes, dentre as doenças crônicas, e a tendência crescente de prevalência no Brasil associada ao envelhecimento da população. Em se tratando dos idosos, essa morbidade demanda atenção especial dadas as diversas possíveis complicações associadas às fragilidades da velhice. Foram mostrados ainda dados que revelam o quanto essa doença influi sobre o número de mortes e montante de gastos em tratamento em todo o mundo.
Os principais resultados obtidos pela PNS mostram que o diabetes é cerca de 5 vezes mais prevalente entre os idosos, em relação às pessoas com idade inferior a 60 anos. Viu-se ainda que as maiores taxas de prevalência de diabetes foram registradas nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, além da maior prevalência entre mulheres e do leve aumento da taxa em função da idade.
Ademais, embora o diabetes não limite muito as atividades habituais, os idosos com este diagnóstico não avaliam bem sua saúde em relação aqueles que disseram não ter diabetes, o que pode dever-se às complicações da doença. Outro resultado importante é que as mulheres não só apresentam maior prevalência de diabetes e avaliam pior sua saúde, como também são maioria entre os idosos que tiveram complicações em decorrência do diabetes.
O foco foram os diferenciais regionais e por sexo quanto a prevalência de diabetes e seus efeitos sobre a qualidade de saúde dos idosos. Além de abordar tais diferenciais, análises em uma perspectiva temporal poderiam buscar identificar tendências, tanto em relação a prevalência de doenças quanto em relação a qualidade de vida da população idosa crescente. Investigações em torno da saúde dos idosos podem ser de grande importância para embasar adaptações no sistema de saúde frente aos desafios no novo contexto demográfico de envelhecimento populacional, para avançar também quanto a expectativa de vida saudável.
Referências bibliográficas
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BRITO, F. A transição demográfica no Brasil: as possibilidades e os desafios para a economia e a sociedade. Texto para discussão nº 318. Belo Horizonte. Cedeplar/UFMG, 2007.
CHRISTENSEN, K.; DOBLHAMMER, G.; RAU, R.; VAUPEL, J. W. Ageing populations: the challenges ahead. Lancet. 2009;374(9696):1196–1208. doi:10.1016/S0140–6736(09)61460–4.
SARTORELLI, D, S.; FRANCO, L. J. Tendências do diabetes mellitus no Brasil: o papel da transição nutricional. Cad. Saúde Pública [online]. 2003, vol.19, suppl.1, pp.S29-S36. ISSN 0102–311X.
HORIUCHI, S. Epidemiologic transitions in human history. In: UNITED NATIONS. Health and mortality issues of global concern: proceedings of the Sumposium on Health and Mortality, New York, p. 54–71, 1999.
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