“Cafe Avellino, Cianci Street, Paterson, NJ” — George Tice (http://bit.ly/2cioW5Y)

A Vigésima Quinta Hora

Se parássemos para redigir todos os itens de nosso fluxo de consciência diário (desde a lista de compras do supermercado até qual série que você assistirá na Netflix de noite), provavelmente uma fatia destes narrariam ideias futuras ou referentes a um futuro próximo.

Não que toda a humanidade seja dotada de talentos premonitórios. Somos todos vítimas de um mesmo exercício de devaneios diários que nos trazem momentos de prazer (“como seria bom ir àquele show”) ou de angústia (“não vou conseguir dinheiro para ir àquele show”).

Estamos constantemente presos nessas pílulas de ilusões que vão e voltam. No fim das contas elas nos jogam de volta ao que realmente temos para o momento: o presente. E nada mais.

Deve ser por isso que o longa metragem A Última Noite de Spike Lee foi tão efetivo ao narrar o estado de angústia coletiva da Nova Iorque pós 11 de Setembro.

Já em seus créditos iniciais, temos uma montagem de imagens do ground zero do World Trade Center, mostrando enormes canhões de luz que rasgam a paisagem da cidade nos exatos locais onde ficavam as torres. Os rastros de luz se posicionam como enormes espectros na paisagem da cidade: assustadores, imponentes e fantasmagóricos.

Na história, acompanhamos o último dia de liberdade de Monty Brogan, que indiciado por tráfico de drogas, aproveita uma última noitada com os amigos antes de encarar uma sentença de sete anos de prisão.

“Foda-se”: Monty (Edward Norton) esbraveja contra toda a cidade em uma das cenas icônicas do filme.

Duas sequências se destacam na história: na primeira, Monty vai ao banheiro do bar do seu pai e lê um “foda-se” escrito no espelho. Irritado, inicia um longo monólogo onde o personagem vomita toda a sua angústia e raiva nas pessoas com quem convive e em todas as personagens de diferentes etnias e grupos da cidade de Nova Iorque.

Na segunda e mais importante sequência, dirigindo-se para a prisão o pai de Monty começa a descrever o que poderia ser feito para o filho. Bola-se um plano: eles poderiam fugir para o interior, adotar uma nova identidade, alugar uma casa em um local distante, criar uma família.

Assistimos a essas imagens esperançosos de um futuro melhor para Monty, até sermos brutalmente jogados de volta à realidade: nada irá mudar, afinal, já está decidido que Monty irá pra prisão. O presente se impõem com frieza.

Nosso desejo pelo controle é tão poderoso, e a nossa sensação de estarmos no controle é tão gratificante, que as pessoas tendem a agir como elas pudessem controlar o incontrolável. — Daniel Gilbert, “Stumbling on Happiness”

Talvez aí esteja o brilhantismo de A Última Noite: os personagens vivem a angústia de suas escolhas, a impossibilidade de corrigirem o passado (Monty poderia ter “pulado fora” sem ser incriminado) ou de ajustarem o futuro ao seu bel prazer (o devaneio de liberdade na sequência da estrada). Somos vítimas do agora e da melancolia do dia-a-dia (os feixes de luz que iluminam o memorial do World Trade Center).

E dessa melancolia também podemos buscar alento. Na música, no mesmo ano, Bruce Springsteen lançava o álbum The Rising. A dualidade entre angústia e tristeza nunca conseguiu ser tão bem interpretada como na faixa Waitin’ On A Sunny Day (composta antes do 11/9, mas incluída no álbum).

Ela pode ser interpretada como a história de um casal que se esquiva da tristeza mas também como uma composição sobre o vazio, o buraco que se abre na ausência de algo ou alguém. Com uma melodia propositadamente animada, Springsteen parece criar um tom agridoce com a letra, deixando a faixa crescer até se encerrar abruptamente com um sino que ressoa solitário.

Talvez o desafio de “controlar o incontrolável”, lidando com nossas pílulas de ilusões, nos façam ao menos deixar o presente menos pesado mesmo que seja necessário pedirmos mais uma hora extra em nossos dias (afinal, o título original de A Última Noite é The 25th Hour, traduzido literalmente do inglês para ‘A vigésima quinta hora’).