O Fim da Locadora

A videolocadora do lado de casa fechou. Não foi nenhuma surpresa ainda mais que em sua reta final se convertera para uma loja de conveniência, deixando o aluguel de filmes para o segundo plano, priorizando a venda de picolés, refrigerantes e acessórios de celulares para a frente da loja.

Fachada abandonada da “World of Video” em São Paulo

Fugir desse destino se tornou impossível para todas as videolocadoras ao redor do mundo. Talvez essa geração seja a última que sentiu como era competir pelo aluguel de certos filmes nas estantes das locadoras. Ter que ligar para o atendente que te reconhecia pelo nome para checar se “aquele cliente” já tinha devolvido o filme que você queria. Ou pra quem pegou a época do VHS: ficar tão nervoso para assistir um filme, tirá-lo da caixa e já colocá-lo no aparelho para então descobrir que ele não tinha sido totalmente rebobinado.

Visitar uma videolocadora de bairro era encontrar algumas figuras “padrão” do local. Primeiro, o gerente que dava os ares de superioridade, quase sempre sabia além do calendário de lançamentos das distribuidoras, conseguia rastrear versões de fitas fora de circulação por meio contatos telefônicos, sabiam fofocas de bastidores que vinham do além. Depois, os atendentes, divididos nos que sabiam mais dos lançamentos e os que sabiam mais do catálogo da loja. Os que sabiam mais afundo do catálogo costumavam ser os que mais traziam algo para você. Se você gostou desse filme, tente ver o filme que inspirou esse diretor. Se você quer estudar cinema, veja esses filmes aqui.

Encerramento de uma videolocadora no bairro de San Telmo, Buenos Aires

Ouvir uma opinião ou sugestão era importante porque, afinal, essa pessoa passava ao menos 8 horas diárias dentro da loja, organizando e mexendo na ordem das milhares de fitas distribuídas pelas estantes. Havia ali a lição do benefício da dúvida que você aprendia na raça: quanto mais segurança no discurso do atendente, mais você podia confiar de entregar o seu dinheiro e o seu tempo no filme que levava.

Esse mecânica funcionava também nas lojas de discos quando você queria entender algo daquela banda que tanto queria ouvir mas nunca tinha tido coragem de perguntar. Quando existia um atendente talentoso, em geral sua função era de conectar mil pontos de referência e discografias para te dar uma resposta certeira. Kansas? Um mistura de Yes com Eagles. Gostou de Metallica? Que tal ouvir Motörhead?

Vivemos um momento em que as pessoas tendem a sair menos de casa para consumir cinema. Tecnologia e economia lideram as diversas explicações para esse fenômeno. O que não é discutido é como cada vez mais a “extinção” dessa função do atendente ou especialista leva embora consigo esse calor da conversa ao vivo, essa humildade de você deixar-se levar pela experiência do outro, da excitação do acerto e da frustração do erro.

Sim, temos outras formas de compensar isso com sites, vlogs, podcasts, mas mesmo assim o senso de comunidade vindo da videolocadora vai embora para nunca mais voltar. O futuro pode já estar aqui e traz consigo toda a sua praticidade mas também é inversamente frio e chato.