Rumo ao Interior: Knausgård, Kozelek & Auster

Escrever é um processo solitário. Preencher uma folha em branco é iniciar uma jornada que começará, e invariavelmente terminará, por uma mesma pessoa em um determinado período de tempo.

Karl Ove Knausgård

Portanto quando se lê o primeiro volume da série Minha Luta, do escritor dinamarquês Karl Ove Knausgård, vemos que há ali não só um relato autobiográfico da vida do autor mas também uma expressão pulsante da solidão do escritor. Encará-la é viajar diretamente ao interior do outro: seus medos, suas virtudes, seus erros, tomando ali forma e ritmo. Por que então devemos também participar dessa leitura?

Knausgård se impõem na tarefa de destrinchar em suas páginas o “além” do autobiográfico, talvez o mais próximo de um relato a priori de eventos de sua vida. Esse processo de recuperar de sua memória trechos de sua adolescência e vida adulta traz à tona momentos detalhadamente descritos, diálogos precisos que hora expressam o mundano ora o melancólico.

Esses momentos narrativos de suas páginas nos levam diretamente à sua mecânica e provável função narrativa-filosófica. O ato em si de lembrar e redigir o livro o faz encarar a sua memória, o seu tempo interior. Minha Luta é justamente isso: um homem encarando o impacto do tempo em sua vida, em sua memória, em seu ser. Para Knausgård, refazer seus passos é dar uma volta em direção ao seu eu interior para dali entender a sua função no mundo.

Narrativas assim fazem parte de uma linha de autores que buscam em suas memórias e no “mundano” a forma como o tempo os afeta e molda. Caminho um pouco diferente ao de escritores que tentaram interpretar o tempo em diferentes formas em sua escrita (em mente Gabriel García Márquez, e para mim o meu exemplo preferido de “o tempo que não passa”, em seu Ninguém Escreve ao Coronel).

Em paralelo, na música, temos alguém como Mark Kozelek com o Sun Kil Moon. Benji é um álbum pontuado de composições que descrevem momentos de sua vida, desde quando ele foi assistir ao filme do Led Zeppelin (“I Watched The Film The Song Remains The Same”) ou como ele beijou uma garota ao som de “Dogs”do Pink Floyd. Seus fãs chegam ao ponto de destrinchar sua letras buscando detalhes históricos e referências dos locais aonde as narrativas se passam.

Paul Auster

O próprio escritor norte-americano Paul Auster disse em entrevistas que sua vida é “desinteressante”. Isso não o impediu de escrever relatos semi biográficos nos livros Winter Journal e Report from the Interior. Conscientemente, o próprio autor diz que fugiu da categorizar os livros como “memórias” ainda mais que ele mesmo admite que é impossível lembrar direito de diálogos que teve quando tinha cinco anos de idade. Mas para quê escrever então?

Em Winter Journal há uma decisão consciente de falar do impacto da passagem do tempo em seu corpo. Em como ele desperta um dia e entende que entrou no “inverno de sua vida” e que dali pra frente o seu tempo na terra se torna escasso.

Knausgård, Kozelek e Auster escrevem (e compõem) a partir dessa jornada solitária para tentarem entender suas próprias memórias. Para eles, pensamentos e ideias podem ser esquecidos mas não deixam de existir, precisando serem redescobertos e revisados. Para nós, essas leituras por entre memórias tão pessoais são como encarar espelhos de experiências que nos servem para entender melhor um pouco do nosso lugar no mundo.