A pureza da resposta das crianças

Os relatos de Zianna e Malala são um corte profundo e sangrado na nossa carne, expõem nossas entranhas putrefatas e embaçam nosso espelho social. Ouvi-las, causa um misto de vergonha e dor, de compaixão e revolta. Esses duas meninas mulheres, cada uma a seu tempo e ao seu juízo, nos revelam como seres irracionais e nos chamam a razão do equilíbrio.

Vítima da absurda guerra no Paquistão, Malala Yoursafzai, fez seu debut nesse nosso mundo de tantas barbaridades consentidas da pior maneira que se pode esperar para uma criança de 15 anos. Um soldado Taliban lhe desferiu três tiros à queima roupa, um dos tiros transpassou seu rosto, sua língua e foi até seu ombro. Não obstante a dor e a tortura, menos de um ano após, ela, num discuso na ONU, disse: ´eles pensaram que uma bala nos silenciaria, mas eles estavam errados`…´a fraqueza, o medo e o desespero morreram, quando a força, o poder e a coragem nasceram.` Ela falava na primeira pessoa do plural!

A sua capacidade de se expressar sem ódio, de exprimir aquilo que escondemos nos nossos obscuros porões pessoais, de conclamar todos à união, seus algozes incluídos, não poderia deixar de ser visto e aclamado por muitos e, então, como uma purgação rasa e um pedido de desculpas velado por tudo que se é impingido a quem supõem-se fraco, deram-lhe o Premio Nobel da Paz em 2014. Estamos purificados agora, mas por favor, deixe a guerra seguir seu rumo…

Zianna Opliphant, de 9 anos, essa semana num plenário lotado da câmara de vereadores da cidade de Charlotte, na Carolina do Norte, em lágrimas disse, olhando nos olhos de todos: ´é uma vergonha que nossos pais e nossas mães estão sendo mortos e não podemos vê-los mais`… ´e temos lágrimas e não deveríamos ter lágrimas`… ´somos pretos e não deveríamos nos sentir dessa maneira. Não deveríamos ter que protestar porque vocês todos estão nos tratando da maneira errada. Fazemos isso porque precisamos de nossos direitos!` Ela também falava usando a primeira pessoa do plural!

Ouvir Zianna também causa um desespero nos corações. Nos coloca naquele momento em que duvidamos do que somos, nos confronta com uma realidade que choca muito menos por ser crua e mais por ser pérfida: somos nossos próprios algozes. O medo e a desesperança têm feito com que ajamos com uma irracionalidade que nos leva a nos desconhecer como humanos.

Dizem que Malala e Zianna fazem parte de um novo tipo de humanos, chamado ´crianças índigo`. Essas seriam pessoas de uma nova era que vêm com uma visão diferenciada e holística do nosso mundo. Acredite-se ou não, essas pessoas tem escancarado a forma insana com que estamos gerindo nosso mundo e, em troca, nos conclamando à razão pura e íntegral.

Nietzsche, provavelmente, tinha razão quando disse que ´individualmente a insanidade é uma coisa rara, mas em grupos, partidos, nações e épocas é uma regra`. Desgraçadamente, os relatos de Malala e de Zianna não são palavras de nosso tempo apenas, se fazem atemporais, desnudam o que nunca deixamos de ser. Desde sempre temos estado nos matando por diferenças criadas por nós, por ideias inventadas que poderiam coexistir pacificamente, mas preferimos o caminho árduo da radicalização.

Erigimos um mundo extremado, numa busca inconsequente por um mocinho nosso e um bandido deles, um herói aqui e um vilão lá. Negamos nossas dicotomias intrínsecas e fabricamos teorias que falham em justificar porque uns devem poder mais do que outros. Criamos um sistema onde a regra é a exclusão. Criamos o medo para agrupar sentimentos. Sustentamos discursos que não fazem o menor sentido ao longo de qualquer existência.

Essa estratificação por grupos heterogêneos nos leva, em um ou outro momento, a fazer parte de minorias que superam em números o lado daqueles que se supõem mais forte. Num momento, somos mulheres que tem seus direitos diminuídos, mas ao mesmo tempo apoiamos quem diz que um índio vale menos que um cristão. Noutro, somos negros e sentimo-nos menores, quando perfazemos 54% da população aqui no Brasil. Aceitamos a pecha de que, desinvestidos de nossas fortalezas, somos menos e somos poucos. É um erro crasso do qual participamos e fomentamos ativamente!

Dito isso, um punhado de por quês e serás nos deveriam assombrar nesse mar de desatino. Por que matamos nossas Malalas? Por que matamos os pais de Zianna? O que estamos, afinal, tentando matar com esses tiros? Por que brutalizamos alguns seres e depois os hostilizamos como se diferentes fossem?

Assim, buscamos, na maioria das vezes, o empoderamento, não por conscientização do que somos, mas por esvaziamento das perspectivas dos nossos semelhantes. Somos animais de bando e nos ferimos mutuamente! Melhor seria não termos a razão humana. Essa diferenciação do resto dos animais só nos tornou uns insensatos pretensiosos. Estamos cada vez mais apagando as luzes do nosso corpo social e, ao tatear essa escuridão, procurando dar sentido ao que ainda não estamos preparados para compreender.