O história dos que não contam
A tragédia sempre foi um vocábulo presente na vida dos haitianos! Entretanto, essa nação tem méritos que se escondem nos escaninhos da história. Entender os infortúnios desse país é por luz sobre a nossa realidade e, dessa forma, compreender nossas enfermidades sociais também. Se não temos o remédio, conhecemos a doença ao menos!

Antes de atingir os Estados Unidos com ventos superiores a 230 km por hora, o furacão Mattew fez 877 vítimas fatais e deixou 61.500 pessoas desabrigadas no Haiti. Nos Estados Unidos morreram três pessoas e mais de um milhão ficaram desalojados. Dito isso, gostaria de dizer que os adjetivos sempre me fascinaram, desabrigados e desalojados são as palavras que mostram que o diabo mora nos detalhes. A mesma terra, as mesmas tragédias e resultados tão diversos! Os substantivos podem carregar a força, dar a dimensão que os nomes lhe emprestam, mas reside nos adjetivos a exuberância dos argumentos.
Pode, e deve, ter passado desapercebido à maior parte dos olhares o fato de que aquilo que é um desastre numa terra, a poucas milhas dali, nos Estados Unidos, será um mero revés climático. Isso se deve claramente ao preparo americano em relação aos desastres naturais e, por óbvio, ao descalabro total na ´pérola das Antilhas.` Uma nação que, visitada regularmente por tragédias ambientais, não se coloca preparada. Poderia parecer tão somente uma lástima para um olhar menos crítico, mas por que, afinal, tanta desgraça e despreparo atingem essa terra que tanto vigor e disputa já produziram?
Os adjetivos são abundantes em relação às duas nações, mas em sentidos opostos. Nos dois casos, via de regra, frutos de uma visão formatada por estereótipos e preconcepções sem muito consistência. A forma rasa com que se olha, nos faz ver uma nação em declínio de um lado e uma terra pujante de outro. Existe, entretanto, uma história pouco contada de um povo que fez acontecer seu país e paga um preço sobre-humano por sua insolência.
O Haiti foi a única nação do mundo onde uma revolução de escravos insurgentes foi bem sucedida. Em 1794, foram o primeiro país a abolir a escravidão. Após a batalha de Vertrères, tornaram-se a primeira nação independente em toda a América Latina. Conseguiram expulsar os 3 principais impérios de sua época: Reino Unido, França e Espanha. A revolução vitoriosa dos negros haitianos começou em 1791 e acabou 13 anos depois, não sem deixar problemas colossais que ainda hoje se refletem na sua história. Haveria um preço colossal a pagar por terem rechaçado o exército de Napoleão, o maior problema foi o total bloqueio naval europeu e americano por 60 anos.
O reconhecimento francês de sua independência lhes custaria 150 milhões de francos. Pouquíssimos países reconheceram o Haiti como uma nação soberana. Até mesmo o grande libertador das Américas, Simón Bolivar, que, inclusive, em 1815, usou o Haiti como refugio na fuga dos espanhóis em sua tentativa de consagrar a grande América, após sair do país, não lhe prestou mais atenção. O Brasil o reconheceu somente em 1928!

Atropelada por problemas naturais, profundas questões econômicos e uma completa desorganização política e social e, sobretudo, a negação internacional de sua soberania, assegurou que esses ex-escravos nunca pudessem exercer o papel de senhores de sua nação. Os Estados Unidos invadiram o país entre os anos de 1915 e 1934, saíram de lá depois de terem singrado suas reservas e recursos. Conseguiram, também, cobrar as dívidas com o Citybank e lograram excluir da Constituição haitiana o artigo que impedia a venda de suas plantações a estrangeiros.
Robert Lansing, então Secretário de Estado americano, diria que ´a raça negra é incapaz de governar-se a si própria` e que tem ´uma tendência inerente à barbárie e uma incapacidade física de civilizar-se.` O Sr. Lansing não estava sozinho nesse pensamento, Willian Phillips, um dos responsáveis pela invasão, disse que os haitianos ´eram um povo inferior, incapaz de conservar a civilização herdada pelos franceses. `
O relato desses dois senhores expõem, de maneira visceral, a construção da narrativa da opressão. Não faltaram outros muitos a confirmarem e a adendarem comentários similares. Esses discursos fizeram com que essa terra parecesse ser de ninguém. O século 20, então, não traria qualquer alívio ao Haiti. Imputou-se, invariavelmente, a culpa a cor da pele e sua incapacidade civilizatória a necessidade de controle externo e inanição social.
Isolado e tendo que lidar com a liberdade sem condições materiais e estruturais, o país continuou sendo um simulacro de nação. Não tardou muito para que novos e graves problemas assombrassem essa terra caribenha. Apoiado pelos Estados Unidos, que temiam o avanço russo na Guerra Fria, começou em 1957 e durou até 1990, duas das mais sanguinárias ditaduras que se têm notícia, Papa Doc e Baby Doc.
Junte-se a isso, o silêncio criminoso das nações, a falta de condições de imporem-se como uma pátria soberana, e, acima de tudo, o imperdoável pecado de negros escravos terem conseguido defenestrar esquadras inteiras de dominadores brancos.
Isto posto, voltando, então, a pergunta do segundo parágrafo. O Haiti, pelo que parece, é culpado por ser uma terra de negros. Esses, assim como os povos indígenas, aborígenes e afins não tem outro caminho no mundo além da completa supressão, visto que nunca lhes foi dado o direito de viverem um país.
Os desastres naturais poderia ser lidados como o são no Japão, nos Estados Unidos e outras nações estruturadas, mas ao se negar a um povo sua soberania e o exercício de sua governança, fatalmente, o relegamos a miséria plena. Os índios dizimados, os aborígenes dominados, os negros acoçados, não há relatos de uma nação bem sucedida que não tenha origem na supremacia europeia e dela forem em sua maioria constituídos. A tais grupos serão impingidos a pecha de incapazes e abrirão-se as portas para toda sorte de ingerências.
Qualquer povo que assim se atreva, sofrerá as consequências da dominação desumana das leis de mercado e de uma ética subliminar que enxerga no espelho somente o que for seu igual. O sistema milenar de tribos africano que convivia dentro de suas regras e postulados, os aborígenes austrais que simplesmente não tiveram defesa diante da avassaladora invasão britânica, a impiedosa carnificina americana dos índios com a destruição de civilizações e costumes milenares, ou então, modernamente, o desenquadramento de certas nações que fazem a opção por um caminho diverso e são profundamente penalizadas com bloqueios e ataques midiáticos ininterruptos, tudo isso, nos diz de como não aceitamos nos ver na diferença.
O mesmo sempre se dará com esses grupos, ditos ´incorporados` aos nações. Minorias que muitas vezes superam em números os descendentes de europeus, sobrevivem preteridos sob o argumento de que, ainda que tenham uma pretensa capacidade, não a usam por uma condição inerente a sua cultura. São empurrados à margem do sistema e precisam sobreviver com pouca proteína, educação parca e um discurso que se faz ininteligível. Assistem, ao largo, às delicias das possibilidades de um mundo mundo monetarizado, sem dele participar efetivamente.
Fosse examinado por um alienígena, poderia parecer ilógico a necessidade humana de relegar certos grupos ao ostracismos. Tratamos um continente completo, como a África, ou terras como a latino-americana, ou porções do oriente como subclasses. Os meios dominantes, num sentido racional, se beneficiariam sobremaneira de um mercado de 6 bilhões de consumidores. Se não o faz, há que se considerar a existência uma falha estrutural e sistêmica. Alguns poucos grupos controlam e ditam as regras do modelo global, ao qual restam alternativas quase nulas a outras opções.
O ganhador do Nobel de Economia de 2015, Agnus Deaton, estabeleceu um modelo que prevê como políticas de empoderamento social e econômico fazem com que classes menos favorecidas façam escolhas mais adequadas e melhorarem seus padrões de vida. Essas escolhas viram estatísticas microeconômicas e tornaram-se ferramentas de apoio a qualidade social. Na America Latina dos últimos 20 anos, houve um florescimento de políticas inclusivas que promoveram a inclusão de camadas desde sempre excluídas. Foi um momento, por assim dizer, mas parece que atualmente acentua-se a legitimação da volta do paradigma da incapacidade humana de reconhecimentos a certos estratos.
O Haiti é apenas o exemplo mais brutal porque está com suas úlceras expostas. O que dizer de outros países onde, com mais ou menos sutileza, seus recursos são apanhados à paga de trocados, sua mão de obra é meramente repetitiva. Não é construído um domínio tecnológico difundido. Tudo fica envolto na ideia de que a economia é a senhora do mercado e o emprego é o objetivo final do ser humano.
Dessa forma, minorias são um retrato cabal do que significa não pertencer ao establishment. Impinge-se a pecha de países menores e a esses se lhes é dado o tratamento à altura. Destituídos de condições e designados a viver na margem, não encontram situações possíveis de sobrevivência. No plano exterior, essas nações encontram uma narrativa que os rechaça tanto pela cor, ou origem, mas fundamentalmente, pela condições.
Por fim, se não existem fotos editadas de comoção no Facebook em razão de um milhar de pessoas fenecidas no Haiti por um motivo simples, não nos identificamos com essas pessoas. Essa não representatividade faz imperar uma lógica perversa onde somente para aqueles grupos onde consigamos enxergar como nossos assemelhados, ali assentamos nosso pesar. De resto, não passará de um recorte de jornal ao qual pouca importância se lhe dará. Nossa dor é seletiva!