Um cadafalso para o juiz Moro

Um cavalo nunca vai comandar os arrelhos! A servilidade tem um propósito claro em si, servir! Inverter essa lógica é ingenuidade, terminado a atividade ou inutilizado o equipamento, descarta-se esse objeto. Essa é a lei e vale pra Curitiba também!

O juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, vem sendo indelevelmente desgastado por setores que até há pouco o veneravam. Isso vem ocorrendo em recentes artigos e reportagens de veículos que, até pouco tempo, o tomavam por herói inconteste. Do outro lado, os movimentos de esquerdas, há muito já, vem tentando chamar à atenção para os seus desmandos, sendo frequentemente associadas a participação em grupos de corrupção. A questão realmente relevante nesse processo deveria ter sido o combate à corrupção e a criação de uma estrutura que a impedisse de se repetir. Não foi!

Agora que a Lava Jato está na iminência de entrar no ´núcleo duro` da operação, começa-se a perceber uma contínua desvalidação dos atos desse magistrado. Questionamentos, antes tempo, inimagináveis são cada vez mais frequentes e vem aos poucos desconstruindo uma imagem que despaternalizará hordas, mas tratá contento a quem do país sempre se serviu.

O primeiro grande golpe foi desferido por quem menos se esperava, o jornal Folha de São Paulo. Num editorial assinado por Rogério Cézar de Cerqueira Leite, no artigo ´Desvendando Moro`, do dia 11/10/2016, faz uma descrição digna de um textão de esquerda. Compara Moro ao clérigo dominicano Girolamo Savarola que se insurgiu contra a corrupção eclesiástica Católica que assolava a Europa na idade Média. Tal qual Savarola, acusa Moro de ter a ´síndrome do escolhido`, onde depois de ser o bom menino e ter seus serviços prestados, começa a incomodar e é simplesmente lançado na fogueira.

O artigo fala abertamente que o juiz Moro e seus asseclas do Paraná tem perseguido Lula, aquele que surgido das massas populares, não deva ser deixado continuar em líder das esquerdas de um país. Após ser usado, Moro não terá mais serventia, visto que inclusive poderá incomodar com as novas possibilidades da Lava Jato. Num conselho assustadoramente entregue, diz o diário, ´Cuidado Moro, o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira`.

Moro caiu no ardil e respondeu ao físico editorialista, que inclusive faz parte do Conselho Editorial da folha, dizendo achar lamentável a postura do jornalista que ´com base empírica, desfila ódio e rancor`. Até mesmo o jornalista Élio Gaspari, no seu artigo do último domingo, dia 16/10, faz uma crítica ao ´base empírica` do juiz que não fez qualquer sentido causal, considerando que o magistrado desperdiçou uma boa chance de resposta condizente ao artigo do primeiro editorial da Folha. Preferiu atacar igualmente! Era o que se esperava de um menino malcriado, não de um magistrado que, por lei, deve apenas falar nos autos.

Um olhar menos avisado, poderia não fazer uma relação entre os novos rumos da Lava Jato e o novo tratamento dado ao togado. O encarcerado Marcelo Odebrecht, ex presidente do grupo empresarial que leva o seu sobrenome, pretende fazer uma delação, ad infinitum, que cobriria um período a começar em 2002. Algo entre 100 e 200 políticos serão delatados, esquemas inteiros serão entregues, expondo os intestinos putrefatos na nação. Esse presente ao Brasil, pode ser a razão desse desconvite ao magistrado nos salões do merecimento oligárquico.

A sanha persecutória de Curitiba parece ter um fim em si, a caça ao ex-presidente Lula. Ainda que seus ´sequazes`, como diz o articulista acima mencionado, assim não o tenham ainda percebido. Figuras como Moro, entretanto, são exemplos abundantes na história. Gente que é construída com propósitos específicos e descartados quando começam a incomodar, ou simplesmente, deixam de ser úteis.

Um dos casos mais gritantes e atuais é o do ex-ministro do Supremo, Joaquim Barbosa. Enquanto colocava-se a disposição dos setores conservadores, quando atacava os acusados do Mensalão, eram profícuos os artigos benfazejos sobre o menino negro que de faxineiro tornou-se Presidente do Superior Tribunal Federal. Não faltaram palavras para exaltá-lo, até o aventaram para uma possível candidatura à presidência da República.

Entretanto, ao começar a fazer criticas contundentes contra o impeachment da presidente eleita, Dilma Rousseff, inesperadamente e 10 anos antes do tempo, anuncia sua aposentadoria precoce. Saiu dos noticiários e entrou para o anonimato, aquele mesmo lugar reservado aos que falam ´irrefletidamente`.

Outros exemplos fabricados, como o então governador de Alagoas, Collor de Mello, o caçador de marajás. Afundado em milhões de problemas estruturais, parecia um lenitivo ter um homem lá nas margens do Brasil que estaria fazendo tudo corretamente. Construiu-se uma imagem, ganhou-se uma eleição. A fogueira também foi o destino para esse cidadão quando tentou se indispor contra os setores dominantes da nossa pátria.

Posto como está, é difícil ver no Brasil qual o pior de seus problemas. Entretanto, não precisa-se de muito esforço para entender que a construção de narrativas para sustentar versões tem sido um de nossos piores males. Passamos uma longa temporada satanizando o PT, como se ali estivessem a origem e fim de todos os problemas do país. Extirpado esse mau, voltaríamos a viver num mundo de mel e glórias. Ao final, reconduzimos, sem votos, o grupo que secularmente depreda o país!

Essas narrativas escondem o que temos de mais abjeto, um sistema estruturalmente corrompido e corrompedor, que não poupa qualquer consciência. Quem se indispõe, estará fadado ao ostracismo ou a fogueira. As lições que poderiam ser aprendidas com esses episódios são desperdiçadas porque imediatamente estaremos envoltos em novas narrativas , não importando o que, efetivamente, está asfixiando de morte nossa nação.

Fosse o juiz Moro um julgador equidistante, jamais teria chegado onde conseguiu, por um motivo óbvio. As elites estão impermeabilizadas ao julgamento da verdade, ele, dessa forma, tem sido um sucesso enquanto está sendo o faxineiro da senzala. A mínima tentativa de se aproximar da casa grande o fará não somente desnecessário, mas absolutamente descartável.

Assim que Moro tiver entregue o prato principal, Lula, seu trabalho estará terminado. Até o momento, condená-lo tem sido um argumento em busca de um crime. No lamaçal da corrupção que vivemos, causa espécie olharmos Curitiba absorta nesse café pequeno. Tivesse Lula o poder que lhe impingem, usaria das estruturas que o poder utiliza.

Ao final, vão restar os direitos sociais carcomidos e as alas conservadoras no controle de um país que continuará em busca de um futuro que outra vez não veio.