Glossário do Balde de Água Fria

Feito com carinho para vocês que andam empolgados discutindo política no facebook


1) Teorema da Impossibilidade de Arrow – Proposição de economia política que afirma que nenhum sistema de votação entre três ou mais opções consegue ser eficiente na hora de representar a opinião de todos, considerar o que todo mundo acredita, ranquear certo as opiniões ou ser “imanipulável” ao mesmo tempo. Sim, é um teorema de verdade. Se você assume coisas bobas como: “as pessoas sabem dizer (num período de tempo t) o que querem (num período de tempo t)” chegará a esse ponto. Se você não assume, lamento, as conclusões são ainda piores que esse teorema.

Resumo: escolher certo alguma coisa com muita gente ao mesmo tempo é difícil.

2) Interações Sociais – Os economistas na média assumem que as pessoas agem levando em consideração apenas o próprio bem. E quando, na verdade, a felicidade delas depende de como ela se posiciona na sociedade? É muito chato ser o único diferente quando estão todos fazendo algo. Por motivos que espero explicar em breve usando o framework de “Social Distance and Social Decisions” de George Akerlof, as pessoas começaram a protestar contra o aumento do custo de vida (a passagem foi uma gota d’água). Você pode afirmar que “isso representa o que cada um quer de verdade”, só que, com todo o respeito, você muito provavelmente está errado. Dada a evidência empírica e o “cagaço médio estimado” de levar uma bala de borracha nas ideias, todas pessoas com rendas, estratos sociais e acesso à investimentos diferentes estarem “acordando” ao mesmo tempo é quase fantasioso.

Resumo: existe muita “Maria-vai-com-as-outras”.

3) Overconfidence Bias – Poderia me alongar aqui, mas todos conhecemos uma cacetada de gente que consideramos - e efetivamente é - estúpida, mas se acha a cereja desse bolo chamado sociedade. Engraçado que há pesquisas que mostram que quase sempre nos achamos acima da média. No fundo podemos ser esse imbecil que se acha, mas não sabemos exatamente por sermos imbecis que nos achamos.

Resumo: pessoal tem ego do tamanho do mundo e faz de tudo para ganhar uma discussão.

4) Sistemas Eleitorais – Melhor explicar com um exemplo: o fundo partidário foi feito para diminuir a dependência dos partidos por financiamento privado, que poderia gerar uma pressão ruim sobre os governos e representantes. O resultado foi que continuou a rolar financiamento privado, caixa dois e tudo mais. Só que os partidos podem ignorar um pouco mais quem financia eles, não sendo obrigados a ter uma ideologia mais firme. Se eu dou publicamente dinheiro para um partido, possivelmente é porque ele tem um compromisso público com algo que me interessa. Pra me favorecer de maneira ilegal seria burrice doar dinheiro publicamente, é mais jogo mandar por fora. Isso é um exemplo, imagina agora ver o impacto na representatividade de usar um sistema diferente do nosso, por exemplo?

Resumo: não é trivial entender política.

Interpretando o Glossário

A interpretação é direta e fácil. Primeiro, com o teorema da impossibilidade de Arrow nós temos que decidir normalmente já é complicado. Fica mais complicado ainda num contexto onde nossas impressões são influenciadas pelo calor do momento e a opinião alheia. Discutir uma reforma política, que claramente é um tema difícil, no calor do momento onde para muitos há a impressão que estamos nos “descobrindo como coletivo”, é perigoso. Ainda mais que há um cisma nesse glorioso movimento, entre “reaças” e “esquerda”. Muito provavelmente os dois concordam em muito na reforma política, mas estão discutindo detalhes inúteis que inviabilizariam um acordo.

Nessas horas o que podemos fazer? Abrir um sorrisão, daqueles de ponta a ponta. Felizmente essa pauta é difícil! O exemplo dado sobre fundo partidário é oportuno no sentido de: há no Brasil muita discussão sobre o financiamento público de campanha. O argumento que dinheiro público não ajudou nada - e ainda reduziu os ganhos de ser ideologicamente engajado - faz muito sentido na minha cabeça de economista que acredita que pessoas respondem a incentivos (um bom texto que foca no fundo partidário está aqui).

Concluo com uma observação que, no fundo, é só porque sou escaldado: esse texto não é contra a reforma política, muito menos contra a democracia. É apenas acreditar que se nem o John Wetton e o Carl Palmer fizeram um “Heat of the Moment” decente, pessoas que chegaram numa passeata falando sobre transportes e do nada perceberam que não se sentem representadas não farão. É importante ter calma, estamos falando de uma democracia jovem que tem seus problemas, mas vai moderadamente bem. Apoiar a ida às ruas só por ir às ruas é complicado, para mim o debate ainda é sobre transportes. No mais, é importante a consciência que, se estamos fazendo isso, é pela democracia. Qualquer discussão mais enfática sobre uma reforma é bem vinda, mas atitudes quanto a isso é melhor que venham quando a poeira abaixar.

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