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Um estado de incertezas. Sim, é o que vivíamos naqueles anos. Eram tantas, as incertezas, que na época era até difícil perceber. A incerteza de chegar aí fim do dia, vivos. A incerteza de conhecer o dia seguinte. Se ia durar a bateria. Se iam existir cavalos suficientes. A incerteza do uso minimamente correto da crase. Eram tamanhas, as incertezas. Tinha incerteza de 10 andares para cima e de 10 andares para baixo. Tinham incertezas térreas. Incertezas certas: a falta da liberdade, a inutilidade do voto, os direitos sistematicamente detonados, a falta de coerência e aquela imensa quantidade de cicatrizes. Definitivamente: um estado de incertezas. Certo, era o grito. Quase asfixiado no tempo de existir. O tempo de se fazer ouvir. O tempo de se fazer calar. Com cacetada na cara, de arrancar molar, para aprender. Aprender dói, diriam uns alunos. Ainda mais nos tempos de tanta incerteza.

SP. 04/04/2017

©Jean Boëchat

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