Tá em banzo?

Sempre que meu chefe vê alguém distraído, meio devagar, lança a pergunta acima. Eu não sei onde ele aprendeu a palavra, nem se ele sabe a sua origem e significado. Banzo era o nome dado à tristeza profunda sentida pelos negros e negras escravizadas, que geralmente levava ao suicídio. Era atribuída à saudade da terra natal, considerada uma doença misteriosa, ganhando uma conotação meio folclórica. Já virou um bordão do meu chefe, daí que eu passo o dia inteiro ouvindo “Qual foi? Tá em banzo?”.

Estou. Tenho depressão e não falo muito sobre isso. Na verdade, nunca falo objetivamente sobre o assunto. E agora, de repente, ou fui eu que de repente comecei a reparar, me vi rodeada de pessoas com banzo. Pessoas negras, sim. Algumas simplesmente se abriram, outras têm deixado sinais aqui e ali.

Eu sei que a OMS considera que a depressão será a doença mais comum do mundo e blablabla. Só que a gente, no nosso banzo, não tem grana pra pagar um terapeuta que não entende metade do que a gente sente, porque a formação dos psicólogos não engloba qualquer perspectiva racial. Eles nem fazem ideia do que nos afeta, quais são as pressões, contradições, conflitos internos e externos que vivemos por conta do racismo. Partem de um referencial de sujeito branco que, afinal, é o indivíduo referência, o padrão. E, bem, desde que comecei a fazer terapia, aos 13, passando por atendimento público, particular, em universidade, linhas variadas, nunca vi um psicólogo ou psicóloga negra por onde passei.

Poucos meses depois do meu bigchop (o grande corte, quando a gente tira todo o cabelo com química), tive um psicólogo em que toda sessão eu tinha que gastar preciosos (e caros) minutos fazendo explanações sociológicas e políticas pra que ele conseguisse entender minimamente os meus problemas. Um dia disse que estava me sentindo desconfortável com meu cabelo, que estava bem curto, e me sentia até mesmo feia. Todas as mulheres negras que passam pela transição, que resolvem assumir seus cabelos crespos, se sentem feias em algum momento do processo. E, justamente, não era esse o problema, eu estava querendo chegar numa outra questão. Mas ele começou a indagar por que então eu tinha decidido cortar o cabelo, por que não alisar mais, se, afinal, eu estava me sentindo feia. E mesmo com toda a minha eloquência e capacidade expositiva, ele não entendeu porque gostar e aceitar a textura natural do meu cabelo era tão importante. Eu também não entendi porque ele ficou tão incomodado com aquilo, me questionando tanto (mentira, entendi sim). Não consegui chegar no assunto que realmente me afligia, e perdi metade da sessão que eu já não tinha condições de pagar. Larguei o tratamento pouco depois — meu cabelo continua crespo e lindo como nunca.

Esse é dos exemplos mais amenos do que acontece em divãs por aí. Isso, claro, quando a gente consegue chegar a um consultório. Porque, na real, ninguém tem mesmo de onde tirar 100 contos por semana. E os problemas não são muito diferentes no SUS ou em clínicas sociais, com o aditivo das longas filas de espera ou da simples inexistência de atendimento.

Não é exagero meu dizer que quase todas as pessoas negras que conheço um pouco mais estão deprimidas, ou já passaram por períodos mais críticos, sem qualquer acompanhamento. Falta de perspectiva, subempregos, rotinas exaustivas, agressões cotidianas, baixa autoestima, abandono, perda dos mais próximos vitimados pela violência, desgaste ou mesmo ausência de relações de afeto, sejam familiares ou românticas — questões todas que passam pela dura dinâmica das relações raciais, essa coisa que ninguém-sabe-ninguém-viu.

Eu mesma ainda me sinto um latifúndio, uma grande área improdutiva, que ironia. Estou neste exato momento considerando minhas opções de tratamento, agora que acabei de sair de um consultório em que a psicóloga, a quem fui encaminhada por uma clínica social, me cobrou 70 reais a sessão. Um valor abaixo do mercado, sim, mas ainda muito acima do meu orçamento. A última profissional, que me atendia pelo plano de saúde (nem estou tão desamparada assim), parecia mais perdida do que eu, cheia de frases clichês, sem apontar qualquer direção, me fazendo mais mal do que bem. Cheguei a sentir que ela ficou aliviada quando comuniquei que iria procurar outro profissional.

Não escrevo para dar respostas, infelizmente não as tenho. Tento apenas, por hora, dizer que existimos, que não vivemos simplesmente de sambar. Porque quando não somos dizimados a ferro e fogo, nos abatem por subterrâneos. Silenciosamente, nessas engrenagens azeitadas, grandes moedores, continuamente reajustadas, em atividade há séculos e séculos.

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