Level Up.

Esse é o primeiro texto que eu escrevo aqui, e eu vim pra contar que chorei hoje de manhã.

Não de dor, ou de agonia, ninguém pisou no meu pé, nem terminei um relacionamento — eu chorei de frustração mesmo, porque, e agora vou contar um segredo pra vocês: ser adulto não é fácil.

Qualquer um no começo dos seus 20 anos de idade já sabe disso, mas conforme você vai ficando mais velho, as coisas vão ficando cada vez mais difíceis, mais ou menos da mesma maneira que no Level 1 em Skyrim você acha difícil matar um lobo, e no Level 30 você nem olha mais pra eles antes de acabar com a raça dos bichos, e ursos já não te ameaçam mais do que um dragão.

Exatamente como em Skyrim, as recompensas também são maiores, obviamente — a gente chora de frustração, mas a gente também manda no próprio nariz, e se eu quiser chorar de raiva da burocracia enquanto assisto Discovery Home&Health e como chocolate, ninguém pode me julgar — no fim das contas, agora eu pago impostos.

No final do ano passado, eu decidi que ia começar um negócio próprio — eu sou professora de inglês há anos, e sei que sou boa no que eu faço. Aulas particulares sempre deram certo comigo e eu, inocente que era, pensei, poxa, não deve ser tão difícil assim.

Oh boy, was I wrong. Não são só os detalhes que te escapam a um primeiro planejamento que te pegam (eu não havia pensado em cortinas, ou tapetinho pra entrada, ou em quanto eu ia gastar em impressões, ou no quanto é difícil receber retorno de uma editora de livros a respeito de orçamentos, ou então, a saga mais longa, o quão CARAS aquelas cadeiras universitárias são, mas tudo bem, it’s over now) — é a famosa ~~burocracia.

Até um mês atrás, eu entendia a ideia de burocracia, mas nunca havia tido um embate frente a frente com ela — até perceber a quantidade de papel envolvida na abertura de um curso pequeninho de inglês. Tem que ter alvará e conta no banco, e autorização dos bombeiros, e mais alguma coisa sobre o meio ambeinte que eu não tenho muita certeza do que é, mas que vou ter que fazer. Tem também divulgação, e orçamentos — TANTOS orçamentos — e gente mal educada te atendendo porque ganha pouco e trabalha demais, e tem você se sentindo mais e mais frustrado quando sai de casa na garoa fina porque não sabe dirigir, e percebe que dos cinco objetivos da manhã, você só conseguiu cumprir um (uma caixa de presente pro aniversário da sua irmã), e NENHUMA das coisas reais e tangíveis pra avançar no seu próprio negócio pôde ser feita, porque falta um papel, uma taxa, um aviso, um prazo.

A burocracia se provou hoje não como um boss que você derrota no final de um nível, mas como uma quest inteirinha, daquelas que te fazem suspirar toda vez que você abre uma porta, esperando encontrar o obstáculo final, mas é só mais uma sala com milhares de caixas pra você vasculhar, onde você vai achando mais e mais poções e vantagens, e vai te dando medo de chegar na tarefa final.

E no meio de toda a confusão mental (mas por que eu estou pagando isso? Onde diabos eu arrumo essa autorização? Mas essa taxa já foi paga, onde está o documento que PROVA isso??), de frustração, e desespero, e medo de dar tudo errado, você meio que realiza que ser adulto é bem mais do que ter 20 anos, ou 25, ou 30, ou 59 e meio. É sobre ter que enfrentar toda essa bagunça sozinho, de cabeça erguida (e talvez chorando com sua conta da Netflix e um pote de sorvete e um pacote de Doritos), e achar o caminho mesmo que ele seja bem mais tortuoso do que você esperava.

Ser adulto, acredito eu, (e talvez seja por isso que eu ainda amo tanto heróis de todos os tipos) é ser Tony Stark numa caverna, é ser Tiny Steve olhando pra máquina, é ser Harry percebendo que precisa se sacrificar, é ser Rey sabendo que não pode correr e fugir. É perceber que você é seu próprio Yinsen, sua própria Peggy, seu próprio Ron, seu próprio Finn. Mais que isso, é saber que tudo que você pensa que não vai conseguir, que todas as vezes que você reflete que seria mais fácil desistir e seguir do jeito que está, você também é seu próprio Obadiah, e Red Skull, e Voldemort, e Kylo Ren.

Ser adulto é perceber que você é herói, side-kick e vilão da própria história, porque você não tem todas as respostas, e por mais que você tenha amigos e família maravilhosos, eles não podem fazer nada disso por você.

Ser adulto é perceber que tem riscos que valem à pena, e outros que são bobagem; e que há medos que são infundados, e que outros são frutos do bom senso — e é perceber isso sozinho, mesmo que haja pessoas que te apóiam na tua vida.

Hoje de manhã, chorando de frustração e raiva, mas sabendo que meu tempo pra pity-party era curto, porque tenho turmas pra dar aula em pouco mais de uma hora, eu realizei que toda aquela angústia nada mais era que meu Level Up pessoal — mais uma barreira que, sabe o quê? Eu passei sozinha, com mais dificuldade do que pensava que ia ter, mas que também serviu pra me provar que eu tenho mais força do que esperava, e que consigo lidar com mais coisas do que pensei ser possível até cinco horas atrás. É saber que cada passo, cada coisa nova na sua frente, é aprendizado que não se esquece mais, e são coisas que não vão mais ser problemas: vão apenas ser parte da solução.

Hoje de manhã, chorando de raiva e frustração, eu percebi que ser adulto sucks, mas é maravilhoso.