A dália e o andarilho

No tempo em que os homens eram governados por reis de brio, um jardineiro distraído deixou cair uma semente de dália no leito de um córrego. Dela nasceu uma menina encantada.

A criança respirava sob a água, andava sobre nuvens e transformava outras flores em pedras preciosas: as rosas viravam rubis, girassóis mudavam-se em ouro, orquídeas derramavam-se em opalas multicoloridas. Além disso, cada vez que seus cabelos eram tocados, o ar condensava-se em um vento mágico que movia os elementos para construir o que lhe fosse pedido.

Era uma menina esperta e de boa índole. Cresceu feliz entre plantas e animais, sempre aos cuidados da brisa, que lhe ensinava canções e poesias. Mas ao chegar da mocidade, passou a sofrer com a solidão. Penteou-se e pediu ao irmão vento que lhe trouxesse uma companhia. Foi atendida sem pestanejar.

Naqueles dias, um príncipe que morava ali perto sofria com seu destino. Seu pai, às portas da morte, estava prestes a entregar-lhe uma corte falida, abarrotada de dívidas resultantes de guerras e luxos. O povo estava faminto e os nobres organizavam-se para tomar-lhe a coroa. Preocupado, sem saber o que fazer diante de sua má sorte, o príncipe vagava pela floresta acompanhado de seus pensamentos.

Qual não foi a sua surpresa quando a brisa veio ao pé do ouvido e soprou-lhe a proposta: “Venha comigo e todos os problemas serão resolvidos.” O rapaz consentiu. Avançou pelo caminho observando o mover das folhas. Ao fim da caminhada, ele, cansado, vislumbrou um rio. Abaixou-se para apanhar um pouco de água e matar a sede. Seu coração quase parou quando viu uma moça belíssima surgir das águas.

Conversaram. Ela ficou comovida quando soube das agruras vividas por seu interlocutor. Na intenção de ajudá-lo, pediu que apanhasse flores para ela. Sem saber dos poderes da donzela, o príncipe considerou-a insensível e indigna de acolher alguém de alta posição. Como ele poderia deixar seus imbróglios de lado para agradar quem quer que fosse? Levantou-se e seguiu viagem.

A Dália entristeceu-se pela primeira vez. Seus olhos foram cobertos pelo véu da decepção; deles rolaram as pérolas mais puras, enquanto seu corpo encarquilhava-se, murcho, consumido pela melancolia. O vento, preocupado, saiu correndo em busca de outra companhia.

Pela mata vinha um comerciante. Mostrava-se muito bravo. Tinha feito péssimos negócios e o pouco que lhe restara fora levado em um assalto. Os ladrões assassinaram seus valetes, tomaram seus cavalos e carregaram o dinheiro e a mercadoria. Sobrara-lhe apenas uma mala de vestidos que levava para sua filha, uma inutilidade.

De novo a brisa convidou: “Venha comigo e todos os problemas serão resolvidos.” O comerciante, sem nada a perder, obedeceu. Deparou-se com uma jovem muito magra, feia e abatida, de aparência doentia, encolhida à beira do rio. De olho na promessa captada no ar, ofertou a ela um dos vestidos.

O coração da Dália endurecera desde o encontro anterior. No entanto, o presente agradou ao vento e ele soprou ternura em seu coração. A moça sorriu, como não fazia desde que o príncipe partira. Ouviu sobre as tristezas do comerciante. Quis salvá-lo. Pediu que lhe trouxesse flores. O comerciante zangou-se: aquela ali era mal agradecida, carente de atenção e egoísta. Pretendia ser mimada justo quando ele estava aborrecido com um desfalque. Foi-se embora praguejando.

A Dália deprimiu-se ainda mais. Não passava de um esbirro seco perdido nas fazendas do vestido. Seu rosto encheu-se de cortes e cascas, como o caule das árvores. Das rachaduras vertia uma água sobrenatural, capaz de imunizar quem a tomasse.

O vento apressou-se em tentar recuperar a vitalidade da irmã. Desta feita quem passava por ali era um pobre andarilho com um falcão nos braços. Em outros tempos ele fora um lenhador imponente, mas a doença de sua mulher o transformara em um buscador de plantas medicinais. Não obtivera êxito, a esposa pereceu. Contudo, após conhecer as qualidades das árvores, nunca mais conseguira fazer mal a elas. Caminhava pela floresta recolhendo tudo que considerasse útil para aliviar as dores dos camponeses, tendo como parceiro apenas a ave, que emitia avisos de perigo e atacava possíveis agressores.

Pela terceira vez o ar levou a proposta: “Venha comigo e todos os problemas serão resolvidos.” O andarilho não tinha grandes questões a serem encerradas. Apesar disso, curioso, agiu à moda de seus antecessores. Perto do rio encontrou uma moça tão débil e malconformada que ninguém duvidaria da impossibilidade de afastar o seu fim.

A Dália agora tinha horror dos homens. Acreditava que eles eram seres cheios de dores, sempre em necessidade, ferindo e abandonando os demais. Encolheu-se e rezou para que seu recente descobridor fosse embora sem lhe fazer mal. Queria fenecer em silêncio.

Aquele homem, entretanto, tinha ótimo coração. Jamais deixaria alguém morrer de forma tão melancólica. Sem pensar, colocou-se de pé e lançou o falcão ao ar: que apanhasse algumas flores para alegrar a senhorita. De seu bornal retirou pão, leite e mel para que ela se fortalecesse. Alimentou-a em respeitoso silêncio. Assim que terminou, o pássaro estava de volta com um ramalhete no bico, depositado aos pés da jovem. Só então ele se apresentou e contou sua história.

Surpresa com os cuidados dispensados a ela, a Dália decidiu por um último teste. Pediu que lhe desse a fita de sua roupa. Por um instante ele hesitou — aquela fita era um presente de sua mãe, carregava-a há anos. De todos os seus pertences, esse era o que mais prezava. Sua bondade, todavia, era maior que seu apego. Fez o que a jovem doente pediu.

A Dália, então, encheu-se de amor pelo estranho. Explicou-lhe as propriedades do líquido que escorria de sua pele e ordenou-lhe que o aparasse em sua cabaça. Depois, tocou as flores criando riquezas jamais vistas em canto nenhum do mundo. Com a seiva mágica, disse ela, o andarilho deveria fazer um unguento e auxiliar os doentes. As riquezas fariam com que ele tivesse uma vida tranquila. Por fim, trançou os cabelos com a fita do andarilho, convocando o vento. Pediu ao irmão que construísse para o homem uma cidade fortificada para que ele pudesse amparar a todos que precisassem. Deveria ser próxima o bastante para que pudesse vir à floresta buscar por ela sempre que julgasse necessário.

O andarilho curvou a cabeça e agradeceu. Aceitava de bom grado o líquido para o unguento e as pedras, muito úteis para ajudar os aldeões. Tudo seria amarrado às garras do falcão e enviado para pessoas de sua confiança, elas saberiam o que fazer. Todavia, não queria um castelo ou uma cidade. Seu lugar era entre as árvores, ali sentia-se feliz. Além disso, seu desejo era continuar ao lado dela.

A Dália abriu o sorriso mais belo que um humano já vira. A cada segundo recuperava o seu viço, transfigurando-se na moça linda que sempre fora. Suas lágrimas de alegria aumentavam a pilha de preciosidades.

E assim contam que ainda hoje é possível encontrar o casal nas entranhas da floresta. Alguns enxergam apenas o homem e seu falcão pesquisando raízes e folhas. Carrega uma dália multicolorida no bolso da camisa. Outros veem a moça ao longe, cantando, cabelos esvoaçantes e alegria nos olhos. Os mais sortudos conseguem vislumbrar os dois, sempre abraçados, sempre unidos, cientes de que a vida é um mistério que nos faz conhecer a muitos, mas só une de verdade aqueles que compartilham da mesma essência.

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