A história de Sufami

Era uma noite de inverno, como esta, e a Lua, caranguejo estelar, caminhava devagar com sua carapaça brilhante pelo firmamento. Parava aqui e ali para cumprimentar um e outro astro conhecido, perguntar da família e mandar recomendações. Todos gostavam de conversar com a senhora do céu; aproximavam-se o quanto podiam — eis que o pó de uma constelação acabou por fazer-lhe cócegas no nariz. Um incômodo. A Lua demorou meses para conseguir livrar-se da sensação. Conseguiu espirrar apenas quando um eclipse lhe permitiu olhar fixamente para seu marido, o Sol. Daquele espirro nasceu Sufami, também conhecida como Retrato da Lua.

Quem a conhecesse à meia distância pensaria que era uma moça comum. De perto, porém, era impossível negar sua origem cósmica. Os olhos e os cabelos de Sufami eram prateados e suas pernas, quando cruzadas, transformavam-se em uma coisa só, como se formassem o rabo de uma serpente brilhante. A moça costumava deslizar pelo céu com desenvoltura, divertindo-se em corridas e mergulhos. Da terra, lonjura, os humanos sequer desconfiavam de sua existência. Confundiam-na com tantas outras estrelas cadentes.

Um desses humanos era Kuaruna, o batedor de caça dos Uananandé, tribo estabelecida às margens do rio Caiaró. O rapaz gostava de observar o céu à noite, quando as alturas abriam vários olhos, todos tão atentos quanto os dele.

A vista, aliás, era coisa importantíssima para Kuaruna. Seus olhos garantiam a segurança dos outros caçadores — ele era o primeiro a embrenhar-se sozinho na floresta. Só voltava para buscar os outros depois que os perigos estavam mapeados. Kuaruna também era o primeiro a receber a sananga, colírio que espanta os espíritos ruins, protege do mal e amplia a visão sobre todas as coisas.

A sananga arde que só a pimenta. Com a ajuda do líquido sagrado, o batedor foi capaz de divisar a forma humana de Sufami. Primeiro a viu brincando na abóbada da vida, depois no rio, depois balançando no florido do Ipê rosa, depois correndo atrás de um gato do mato. Demorou para Retrato da Lua ficar cansada, mas quando isso por fim aconteceu, Kuaruna apresentou-se com autoridade.

“Moça Que Brilha, aqui é solo dos Uananandé. Você vem para fazer o bem ou para espalhar a maldade?”, questionou, o arco retesado em punho. Sufami encarou-lhe com os olhos de prata. “Filho da terra, eu não tenho chão, nem me interesso por nenhum tipo de posse em seu mundo. Venho do céu para conhecer tudo e todos, inclusive os Uananandés, se eles assim me permitirem”, respondeu.

Kuaruna gostou dos modos da jovem. Entretanto, um caçador tem ciência que a caça nunca percebe o bote até que seja tarde. Manteve-se desconfiado. “Nunca cá antes esteve alguém nascido no céu. Nesta mata existem todos os seres da terra”, ponderou. Sufami riu. “Seria bom, se fosse como diz. Sua casa é linda, porém, pequena. O mundo em que os homens vivem abriga uma infinidade de criaturas. Nas minhas andanças eu conheci mais do que sua linguagem pode registrar e, mesmo assim, não estou nem perto de vislumbrar todas elas”, explicou. O homem baixou o arco, contrariado. “Pois então me conte como são esses outros que desconheço”, exigiu ele. Sufami, que era afável de espírito e conversadeira de alma, assentiu. “Sente-se aqui perto de mim e diga-me seu nome. Conversar é firmar e multiplicar a existência das coisas; devemos fazer isso do modo certo, com respeito aos seus antepassados e aos meus”, ponderou a visitante.

Os relatos de Sufami eram fascinantes. Ela não estava presa na roda do tempo, de modo que nascera livre para ver o passado, o presente e o futuro. Por meio das palavras dela, Kuaruna conheceu tudo que algum dia inspiraria filósofos da Grécia, marajás indianos, guerreiros chineses, piratas da Polinésia, sufis do Oriente, revolucionários russos, naguais mexicanos, reis europeus, cowboys americanos, jornalistas brasileiros. Noite após noite, Kuaruna voltava para ouvir sobre animais gigantescos com trombas que jorravam água; águas salgadas que cresciam mais que árvores anciãs; insetos feitos de metal que entravam nas veias para curar os doentes; armas que eram como gigantescas flores de fogo; telas em que os homens apareciam achatados como sombras; pirâmides de pedra que arranhavam o azu celeste; homens cobertos por trajes estranhos que visitavam o espaço, e mais, muito mais.

Kuaruna ficou tão envolvido com as histórias de Retrato da Lua que descuidou de suas tarefas. Aos poucos, alijados de seu guia, os caçadores foram morrendo perdidos na selva. Sem a caça, sem os maridos, sem os pais e sem os filhos, a tribo inteira começou a definhar.

Uerexekê era o pajé Uananandé. Deu-se conta que precisava fazer algo imediatamente, ou estariam todos perdidos. Isolou-se na parte mais densa da floresta, onde preparou um feitiço poderosíssimo, chamado puçanga. Os animais, as plantas, as pedras, os seres visíveis e invisíveis condoeram-se com seu sofrimento. Doaram parte de suas almas para Uerexekê, que reuniu tudo em sua poção mágica. Ao terminar a mistura, o pajé acendeu sua fogueira. Cantou para o Sol e para a Lua pedindo ajuda.

O crepúsculo tomou conta da mata, com o astro-rei e sua consorte apresentando-se lado a lado. Uerexekê dividiu com eles o seu pesar: seu caçador mais valoroso apaixonara-se pelos universos apresentados por Sufami, infinitamente mais ricos e encantadores que o seu.

O Sol e a Lua não gostaram de sua filha, sempre tão curiosa e alegre, concentrar atenção em um único ser, ainda mais humano. Decidiram abençoar a medicina preparada por Uerexekê e levar a jovem de volta ao céu, seu verdadeiro lugar.

Qual não foi a surpresa de ambos ao perceber que Sufami também enamorara-se de seu ouvinte. Não queria deixá-lo de forma alguma. Por três dias e três noites, o Sol e a Lua tentaram convencer a garota e nada. Parecia impossível afastar Kuaruna e Retrato da Lua.

A situação dedilhou os nervos dos pais. Mais três dias e mais três noites os senhores do céu discutiram sem acordo, até que o pajé Uananandé arriscou timidamente uma sugestão: dividissem a essência da filha. Enfraquecida, ela não poderia mais exercer tanto poder sobre Kuaruna, acabaria indo embora. O Sol e a Lua concordaram. Mais uma vez fortaleceram a puçanga de Uerexekê, que correu levar a beberagem ao jovem caçador, enquanto os astros maiores cindiam a essência de Sufami.

A filha da Lua lamentou sua sorte. Todavia, era impossível dissuadir seus pais. Eles a dividiram. Sufami chorou como o universo jamais vira alguém chorar. Suas lágrimas acordaram Kuaruna do esquecimento provocado pelo remédio do pajé. Uerexekê amava seu povo e tinha o coração maior que toda a floresta. Pensou se valia a extinção de tantos para conservar o amor de apenas dois. Concluiu que o amor, quando existe, é a soma de todas as verdades e de todas as vidas. Interrompê-lo seria, portanto, mentir e desconsiderar o Criador. Matar a tudo e todos, ainda que de outro modo.

Uerexekê interferiu a favor do casal. Falou que Sufami poderia continuar no reino dos homens, perto de Kuaruna, apenas não deveria mantê-lo embriagado e inativo. Suas histórias deveriam ser contadas à noite, sob o manto da Lua, enquanto as tarefas dos homens continuariam sendo levadas a cabo durante o dia, aos cuidados do Sol.

O Sol e a Lua gostaram da justiça e da sabedoria do pajé. Eventualmente concordaram, desde que Sufami não ficasse presa apenas a Kuaruna. Ela deveria inspirar a todos os humanos, pois sua natureza era celeste, deveria atrelar-se ao amor universal.

A Lua soprou a parte de Sufami que lhe cabia no centro da testa de Kuaruna e Uerexekê. Quando instalou-se na mente dos homens, ela tornou-se o que hoje conhecemos por imaginação. O Sol, por sua vez, imprimiu a essência de Sufami no coração do pajé e do caçador: era o nascimento da intuição.

De lá para cá, Kuaruna e Uerexekê tornaram-se os pais de todos os Uananandés, os quais originaram todas as tribos e povos. Às noites, eles sentavam-se com suas crianças para contar as histórias de Sufami e preparar seus futuros guerreiros para as mudanças que, sabiam, resultariam em um novo mundo. Ensinavam aos pequenos como lidar com a imaginação e a intuição do melhor jeito possível.

Um dos contos que os curumins mais gostavam era sobre uma mulher que só escrevia sobre o que via, ou pegava, ou sabia, até que seu espírito brincou com a luz e, sem querer, ela reuniu as partes de Sufami dentro de si. Mas isso é outra história, longa e complicada. Fica para outro dia.

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