A Pedra
Algumas pessoas não suportam a bagunça dos objetos, outras jamais teriam sossego se estivessem fora do lugar os sentimentos. Ela era dessas últimas. Simples no gostar e no demonstrar. Aos 20 namorou alguns, aos 30 casou-se com um colega de faculdade, aos 40 assinou consensualmente o divórcio. Aos 50 intercalava daiquiris e paixonites, ambos sempre descambando em ressacas leves, enjoadas, mas insuficientes para fazê-la desistir de antemão de uma quase aventura.
Por isso assustou-se quando, sem prestar muita atenção, envolveu-se com dois homens tão parecidos quanto diferentes: cultos (um falante, outro calado), refinados (um herdeiro, outro observador), talentosos (um engenheiro, outro psicólogo). Gostavam ambos das artes e de fugir da metrópole, assim como ela, e nunca cobravam grandes explicações, ocupados demais em manter os próprios hábitos.
Ao contrário do que se poderia esperar, o segredo da duplicidade não a perturbava. As poucas hipocrisias necessárias para acomodá-lo também não. Vivera o suficiente para saber que todos recorrem a falsidades e ocultações quando há alguma intensidade em jogo. O amor, para ela, nada tinha com fantasias de união incondicional, mas com o esquecimento momentâneo de desejos maiores. Um acordo de boa sobrevivência entre companhias balsâmicas. Só.
Nem sempre fora assim. Em algum momento da vida chegara a experimentar o arroubo dos românticos, cintilação brutal e inconstante em cada célula do corpo. Algo que a prendia no interior de versos escritos por Juan Ramón Jiménez — “por onde quer que minha alma navegue, ou ande, ou voe, tudo, tudo é seu”.
Amor platônico, claro. No auge da febre descobriu que sentimento não passava de veneno inoculado na pele até a alteração da consciência, Kambô profano e sem sentido. Melhor ajoelhar-se diante de santos ocos, repetir de memória as rezas vãs e fingir acreditar em falsos milagres.
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Os malabares verbais de seus enleios não criavam remorsos, é certo, mas a verdade é um lençol que ao ser torcido inevitavelmente cansa os músculos da alma. Uns dias longe dos dois homens seriam de bom agouro.
A viagem foi calma, sucedânea modorrenta de verdes e alturas, uns pensamentos aqui, uns acolá, entremeados por cochilos dengosos que só aparecem quando tudo é solidão. Do avião e da estrada sobraram não mais que uma certa preguiça, austeramente ignorada.
Separou o vestido, a sandália leve, os óculos escuros em tom de caramelo. Arrumou as coisas sobre a cama, sem conseguir evitar a ideia de parecerem melhores enfeitando a colcha do que o corpo. Tomou banho cismando que deveria trocar o shampoo por outro, com menos sulfato. Vestiu-se, penteou-se, saiu em minutos. Em nenhum momento, contudo, esteve ligada aos movimentos que fazia.
Quem a visse naquele momento perceberia o óbvio: aquela dona acostumara-se a viver como quem não pertence a nada. Em quase ausência.
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As pedras irregulares e pontiagudas das ruas históricas trouxeram-na de volta. Mundo íngreme. Descidas e volteios revelando as casas de teto baixo. Eiras e socos. Molduras pintadas em destaque nas janelas. Mais para adiante, o mato surgindo até o olho ficar inútil. Perto, o que se via era a pele lustrosa das atendentes nas lojas, dentaduras alvas valorizando o colorido das mercadorias.
Sentiu o filete de suor escorrendo no pescoço. A idade corria mais rápido que a noção do tempo, danada. O jeito era parar na esquina, alto da ladeira. Tomar fôlego a partir daquela brisa ondulada que bulia com as placas. Foi assim, nariz voltado ao vento, à moda dos cachorros, que o guia a encontrou. Que tal explicações sobre os museus? Um passeio até as casas dos antigos e ilustres moradores? Conhecer a mina de ouro, quem sabe?
O homem falava rápido, ansioso por impressioná-la. Era alto, acobreado, careca. Tinha a sua idade. Um pouco mais moço, talvez. Enquanto ele tagarelava, o olhar da interlocutora foi capturado pelos bíceps, torneados a cinzel, impressionantes para quem, como ela, acostumara-se a abraços intelectuais. Mais um sinal da ampulheta: reverenciar a carne alheia. Sorriu. Interessava-se em ir até a mina, sim. Ainda estava ativa? Não. Era seguro? Sim. O passeio sairia da praça central em minutos, bastava embarcar na van branca logo em frente, algumas pessoas já esperavam por lá.
Ela obedeceu. Passou o caminho controlando-se para não espiar além da conta a nuca do guia, agora motorista. A nuca era outra parte dele esculpida a esforço, arroz e feijão. Tinha um nome esse músculo que une o pescoço aos ombros e ao comecinho das costas. Como era mesmo? Trapézio. Ou Esplênio? Não importava. Era bonito do mesmo jeito e saber nomenclaturas não a salvaria de tornar-se um clichê da meia-idade. Sua porção ridícula podia trabalhar bastante, desde que em silêncio, dentro da própria cabeça.
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A entrada da mina era tomada por pequenas lojas separadas por paredes finas de madeira. Ao lado de terços de hematita e fotos da cidade, as gavetas de exposição apareciam repletas de chaveiros com minúsculos potes transparentes preenchidos com água. Nela amontoavam-se bolinhas de papel laminado imitando pepitas de ouro. Tudo tão artesanal, tão rudimentar, pensou. Tão descolado daquilo que costumava existir em seu cotidiano.
Separava algumas pedras redondas e brilhantes com o olhar quando o guia se aproximou. Queria avisar que seu filho aguardava logo ali. Era ele quem recolheria os trinta reais relativos ao passeio, distribuiria os capacetes e encaminharia os visitantes na trilha interna da rocha. Ela assentiu com expressão amigável, embora uma pontada inesperada entre as costelas deixasse clara a sensação de ter sido ludibriada.
Andou a passos rápidos na direção que o homem apontara, torcendo para que a pulsão de adentrar a fenda estreita, claustrofóbica, não sumisse por inteiro. À boca da mina, um jovem de óculos escuros a esperava. O grupo estava todo lá, só faltava ela, sorriu.
O moço não tinha mais do que dezesseis anos. As feições do pai estavam ali, melhoradas, inclusive, mas os gestos eram diferentes, um tanto desfocados, etéreos. A vida ainda não exigira dele o suficiente para torná-lo maciço. A voz, sim, era melhor. Mais forte, grave e clara. A mina era do século XVIII e resultara do trabalho dos escravos, explicou. As pessoas ficavam ali dentro até quinze horas por dia. Escravos altos eram castrados e serviam de companhia às mulheres; os baixos eram divididos entre reprodutores e mineiros. Como havia risco iminente de desabamento, os buracos perfurados na montanha não poderiam ser muito grandes. Logo, boa parte da escavação era feita por crianças de sete, oito anos. Elas duravam, quando muito, até os vinte e um. Cresciam sofrendo de silicose, tuberculose e toda a sorte de doenças causadas pela grande exposição aos metais. Suas colunas eram tortas — andavam sempre curvados. A cachaça era remédio, anestesia para o corpo e para a alma. O homem-tatu enfrentava o batente e o afiado das picaretas encharcado dela.
A fala do adolescente coincidia com os passos que levavam o grupo cada vez mais fundo na barriga da terra. Percebia-se que ele gostava de ouvir o que dizia, genuíno interesse pelo assunto, mesmo que todas as informações tivessem sido decoradas e as pausas dramáticas resultassem de cuidadoso ensaio.
“Lá nas Minas… a terra parece que evapora tumultos; a água exala motins; o ouro toca desaforos; destilam liberdades os ares; vomitam insolências as nuvens; influem desordem os astros; o clima é tumba da paz e berço da rebelião; a natureza anda inquieta consigo, e amotinada lá por dentro, é como no inferno.” Quem escreveu foi o Conde de Assumar, contava. Richard Burton também esteve aqui. Registrou a escuridão, o cheiro de enxofre e os cantos selvagens dos mineiros.
No começo da explicação a mulher seguiu o grupo apreensiva. Medo de virar o pé, desabamento, mau espírito. Não tinha dado um punhado de passos, contudo, e passara a seguir as histórias do jovem como se tivesse esquecido a sua própria. Havia algo naquele embrenhar-se monolítico que a levara para dentro de si. Corredores estreitos da atenção nunca antes percorridos.