A pedra — parte III

Sentiu as veias do corpo invadidas por uma placa de vento. O coração batia à altura dos ouvidos e a paralisia momentânea da mão sobre o celular deixava entrever a desatenção de um bicho frágil ante o olhar do predador. Forçou um sorriso, repetindo mentalmente para se acalmar. Não dissera palavra alguma em voz alta e pensamentos de engodo e traição não ficam pendurados no pescoço como um cartaz. Ele não sabia. Não sabia.

O homem aproximou-se com os passos inabaláveis de sempre. Passara um pouco dos cinquenta, mas o corpo perpetuara a memória de quando o futebol na praia era uma atividade diária. Barba feita. Cabelos levemente compridos, embora bem cortados, menos grisalhos do que se esperaria. Camisa de ótima marca. Tudo nele exalava uma correção que ela costumava admirar. Naquele momento, porém, o equilíbrio acentuava a distopia imaginária que movera seu estômago de lugar. Era a terceira vez que patinava para longe da razão naquele dia.

Tentou corresponder ao beijo de sempre, macio e molhado. Foi incapaz. A rigidez de seu corpo acabou percebida. O homem riu com gosto. Nada como uma surpresa bem-sucedida. Estava feliz em vê-lo? Claro. Mas o que fazia ali? A barragem da cidade vizinha desmoronara, sua empresa era uma das contratadas informais para ajudar na avaliação dos danos e nas falhas estruturais que causaram o rompimento. Como os prejuízos tinham sido consideráveis, ele próprio viera. Queria estar presente durante o primeiro contato de seus empregados com as autoridades locais e o início da vistoria. Não era uma ótima coincidência? Certamente. Por quanto tempo ele ficaria? Até o dia seguinte. Dois dias, quem sabe. Essas coisas que envolvem política geralmente emperram em algum ponto.

Ele falava de jeito doce enquanto afastava o telefone para um canto da mesa, de modo a segurar as mãos dela. Seu contentamento era evidente. A pulsação quente de uma palma contra a outra regularizava a respiração da mulher. Era essa uma das coisas que ela mais gostava quando estavam juntos: o poder que ele tinha de naturalmente fazer com que ela se sentisse adequada, segura, inteira.

Pensou em uma ocasião que a envergonhara particularmente, meses atrás, durante uma conversa, quando trocara expressões simples e cometera um erro de tradução imperdoável, algo que, em sua cabeça, a desqualificaria completamente. A mortificação espalhou-se em seu rosto como um inchaço deformante. Ele percebeu. Emendou um assunto no outro e revelou uma gafe que o perseguia há anos. Floreou a história piorando seu comportamento às raias do improvável, até arrancar dela uma gargalhada. O diálogo só foi adiante quando certificou-se que a mulher voltara a ficar minimamente confortável.

Baixou os olhos para as mãos entrelaçadas. Ao fundo, um canto gregoriano abria caminho para a “Sentinela” de Nana Caymmi e Milton Nascimento. “Meu Senhor, eu não sou digna de que visites a minha pobre morada, porém, se Tu o desejas e queres me visitar, dou-te meu coração.” Havia algo de especial naquele homem, naquele momento. Por um segundo, nela também. Talvez o álcool. Poucos minutos daquela pele encostando na sua e pronto. Seu sorriso era novamente verdadeiro. A iniciativa do segundo beijo, diferente, repleto de densidades e gostos, também. Esqueceu-se completamente que a tela do aparelho largado sobre a toalha mostrava o número de outra pessoa.

— * — 
Acordaram sorridentes, infantis e famintos depois de uma noite díspar das que estavam acostumados. A mudança de ares resultara em um desejo para além dos abraços delicados trocados normalmente e o café da manhã parecia voar sem a rotineira troca de impressões sobre os jornais. O que ela faria durante o dia, enquanto ele estivesse fora? Não sabia. Talvez fosse conhecer as igrejas, existiam tantas na região. Ah, sim, valia a pena. Outro passeio imperdível era a velha mina, de onde foram extraídos quilos e quilos de ouro durante a escravatura.

Por algum mistério que não saberia decifrar, ela calou-se. Não contou sobre o ocorrido do dia anterior. Deixou que ele costurasse uma fala na outra, praticamente as mesmas coisas que ouvira do jovem guia, como a história do canário, das doenças e da exploração dos pequenos.

Admirou-se, todavia, quando o homem explicou que muitos escravos tentavam roubar um pouco de ouro escondendo as pepitas nos cabelos ou trançando-as entre os pelos das mulas. No último caso, eles recobriam a si e ao animal de lama. Chegavam diante dos patrões em condições deploráveis, recebendo a ordem de irem prontamente tomar um banho — eis de onde nasceu a expressão “lavar a égua” como sinônimo de se dar bem.

A explanação acionou internamente outro botão indecifrável. Ela observou-se tomada por um orgulho de ele saber coisas para além do conhecimento do jovem guia. Era uma bobagem, óbvio. Mas desde que chegara naquelas terras as bobices pareciam estar no controle de suas reações. De certa forma, aquilo confirmava o quanto estar ao lado dele era algo bom, para não dizer certo.

— * — 
Quando ele se foi, a mulher enrolou por uns minutos, mas acabou ligando o celular. Três chamadas perdidas, um recado, uma mensagem não lida, mais de uma dezena de e-mails. Desligou de novo. Agora não queria pensar nisso. Voltou ao quarto, estendeu a bermuda e a camiseta sobre a cama, separou os tênis da mala. Descobriu uma saída de som no banheiro, o que lhe permitiria tomar banho ouvindo música. Riu sozinha.

Enfiou-se sob a ducha forte, quase fria, ao som de uma música italiana sobre um moço que se dizia desastrado e pedia desculpas por amar alguém. Gostava daquele idioma sentimental e empolado. Sempre que o ouvia ficava bem-humorada. Pensou de novo no homem com quem dividira sua cama. Era bonito. Deu-se conta do motivo pelo qual sempre o achara parecido com alguém: mais moço quiçá lembrasse vagamente o ator Marco Leonardi. Riu de novo. Impossível acreditar há alguns anos que viveria uma situação como a de agora.

Trocou-se, sacudiu os cabelos ainda molhados e sentou-se diante da janela. Lá fora o céu abria-se em um azul típico dos meses quentes. As casas do Brasil Colônia esparramavam-se em ruelas desiguais. Era possível contar pelo menos três igrejas distantes uma caminhada umas das outras. Tudo impressionantemente balanceado, a despeito da suposta falta de intencionalidade dos construtores. Simples. E ao mesmo tempo não. Como ela.

O recado era dele, do homem que ficara na capital. Queria saber se chegara bem, se estava gostando. Sentia saudades. Ela esquadrinhou a si mesma de modo sorrateiro à procura de algum tipo de remorso, ou culpa. Não encontrou. Ao contrário. Por trás de todos os seus pensamentos insinuava-se um certo prazer clandestino. A ideia de que alguém de longe estava voltado para ela arranhava seu peito num feitio sedutor.

Tinha um quase sorriso nos lábios quando pediu que a atendente virtual do celular retornasse a ligação. Ele atendeu no quarto toque, um sopro de alívio na voz, típico das pessoas acostumadas a se preocuparem com os outros.

(continua)

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