Um sonho

Sonhei com um círculo de amigos.

Estávamos todos lá, no meio do mato, à beira do fogo, rindo e cantando.

Eram tantos.

Alguns eu conheci quando menina, outros na adolescência, outros na época da faculdade. Tinha o pessoal de quando eu comecei a trabalhar. Aqueles que me acolheram em outra cidade. Os que eu encontrei nas portarias, nos corredores, nos comitês de imprensa. Os da época da redação. Os que me acolheram quando a onda veio e engoliu tudo. Os que chegaram de presente por meio de outras pessoas. Os que me devolveram a saúde. Os que só abracei pelas letras. Os que que me abandonaram de alguma forma, por vontade ou pela morte.

Eram muitos.

Ali, lá, todas as cores, raças, religiões, ideologias, idades, orientações sexuais. Gente que estudou muito, gente que mal passou pela escola. Uns quietos. Uns falantes. Os ingênuos tanto quanto os ladinos. Ricos e pobres, famosos e desconhecidos, dançantes e observadores.

De certos fui sempre próxima. De diversos fui só conhecida. Com parte deles virei noites em festa, com parte deles meditei até o sol amanhecer por dentro. Um pouco foi meu companheiro nas brigas políticas, um pouco me deu paz em sonhar só para mim. Filhos da terra. Pais dos números. Amantes das palavras.

Eram todos.

No mesmo círculo. Eu olhava em seus olhos e eles abriam o passado, o presente, o futuro, como flores que rebentam suas cores diante do tempo acelerado de uma câmera. Cantávamos uma música estranha, língua dos antigos, só o âmago era capaz de decifrá-la.

Estavam ali para me ensinar alguma coisa, mas não me lembro bem o quê. Guardo apenas a sensação de maravilhamento diante da cena, de gratidão pelo mistério que protege uma vida.

Isso porque eles, meus amigos, eram o tanto melífluo, o muito com sentido, o todo inexplicável.

Irmãos de sangue, de família, de coração, de mente, de corpo.

O tanto, o muito, o todo.

Obrigada.

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