“Vadia pelega volta pra USP”

Eu fiquei tentando começar esse texto de muitas maneiras, mas todas me pareciam estranhas por que só o que ecoava na minha cabeça eram as palavras escritas com uma tinta difícil de tirar, com que se lia as palavras: “Vadia Pelega, volta pra USP”. Percebi os escritos no sábado, quando fui pegar meu carro na garagem do meu condomínio pra ir ao mercado e, à luz do dia, foi possível ver. Também riscaram a lataria da porta. Parece que tentaram escrever algo como “vaza”. Não sei, também pode ser só um rabiscão e eu estou meio paranoica.

Contudo, penso que por melhor intencionada que seja a pessoa, não dá pra bancar a inocente e achar que isso não teve nada a ver com as duras críticas que fiz ao ato dos estudantes da graduação de jornalismo e com apoio do CACOFF no dia 05 de julho, no DCSO durante a reunião do PPP e que, em minha percepção, foi bastante problemático em muitos aspectos — o que já elucidei em outro texto.

“Vadia pelega volta pra USP”

Por que é que toda agressão intelectual a uma mulher tem que remeter ao gênero? Vadia, vaca, vagabunda, piranha, puta. Eu queria muito, muito mesmo, falar sobre isso. Mas se eu falar, eu vou chorar. Eu vivo defendendo os outros. E eu não tive para onde correr. Não foi um tapa na cara, não foi um cara me agarrando pelo braço. Foram palavras. Elas não vão se apagar tão cedo.

O ponto é que saí na sexta-feira, mais de 23h00 da UNESP, depois de ter dado uma aula pra turma de RP, e, num misto de cansaço, sono e pressa — afinal o estacionamento do Mundo Perdido tem apenas uma luz, que ilumina apenas próximo da entrada. Ninguém corre o risco de ficar ali por muito tempo. Ainda mais sendo mulher. É um lugar escuro, ermo, e se você gritar, ninguém vai te ouvir. Toda vez que eu paro o carro ali, mesmo quando está cheio, eu penso nisso.

E então, eu vim para casa, estacionei na minha vaga do prédio e, pelo adiantado da noite e a falta de duas ou três luzes próximas, estava escuro, também não prestei atenção nesse momento nem tinha por que fazer qualquer inspeção no carro.

Só fui ver os dizeres no dia seguinte. Fiquei algumas horas refletindo sobre o que fazer. Minhas duas primeiras atitudes depois disso foram falar com o professor Denis e com o Lorenzo do CACOFF. Ambos me deram apoio incondicional e se colocaram a disposição. Ambos disseram que aquilo era inaceitável.

Deixo bem claro, não me arrependo das palavras que usei nem das declarações que fiz anteriormente — por que me apoiava na minha experiência passada que, infelizmente, vi novamente comprovada. O problema é que sob o manto do grupo sempre tem um idiota.

Um dos grandes problemas do movimento estudantil é que, por mais bem intencionados que sejam seus dirigentes (e, dos alunos de jornal que o integram, eu conheço boa parte, alguns são meus alunos, outros alunos de professores amigos), o maior problema é que, quanto mais forte se torna a luz da coletividade, mas sombra ela cria, e nessas sombras se proliferam os problemas e as pessoas que usam essa coletividade para promover abusos, violência e para benefício próprio.

“Vadia pelega volta pra USP”

Fui buscar o álcool. Droga, não sai. Vou tentar thinner. Também não sai, merda. Isso aqui parece canetão. Por que não sai?!

“Vadia pelega volta pra USP”

Não sou a pessoa mais popular do mundo. Eu tenho críticas contundentes e não costumo ser gentil — aprendi com a vida e minha falecida avó que você nunca deve ofender os outros, mas também nunca deve amenizar o que precisa ser dito. E amenizar não faz parte da minha natureza. Atribua ao meu tempo de punk, ou quem sabe a minha natureza e etnia cigana. Nenhum é conhecido pela gentileza. E sou mau humorada. Deus, como sou mau humorada.

E portanto, eu falo coisas que as pessoas não gostam de ouvir. Como por exemplo, dizer que um movimento está usando táticas que o aproximam do fascismo. Ninguém gostou de ouvir. Isso realmente aflorou emoções — e ninguém pensou no que isso podia significar. Palavras fortes têm esse poder: a gente perde o esteio e as estribeiras.

Finalmente, enquanto conversava com o Lorenzo sobre o ocorrido (e ouvia mais “Meu Deus” e “Nossinhora” que numa missa, por que ele estava chocado que alguém da UNESP poderia ter feito aquilo), isso ficou claro: tudo que disse naquela famigerada postagem era pra ter sido um aviso. Um aviso de que quando o grupo é forte, são grandes as suas vantagens, mas também são grandes as suas desvantagens. E uma delas é que você não sabe do que todo mundo que está ali é capaz. E basta um fazer bobagem, e todo mundo paga junto.

E que, quando o grupo se fecha tomando suas ações sempre por corretas, numa luta constante, não é difícil que, em nome de se fortalecer, ele não ouça críticas. E não ouvindo críticas de quem realmente está de fora, ele não vê quão problemáticas podem ser determinadas ações. E, para falar a verdade, esse processo é quase que automático, e em geral, também danoso: é a hora em que o feixe se forma. O feixe, o fascio, em que um graveto sozinho se quebra, mas todos os gravetos juntos são fortes. A clássica analogia do fascismo.

Talvez eu não devesse ter usado esta analogia, mas usei. Talvez eu devesse ter falado de totalitarismo, mas não falei. E o que está dito está dito…

“Vadia pelega volta pra USP”

Desci e fui falar com a Dona Ana, a zeladora, pra ela me arranjar um pouco de removedor. Não tem. E aguarrás? Num tem.

Meu pai é químico. Liga pro pai.

“Alô, pai? Como que tira mancha de canetão de vidro?”

“Que tipo de canetão? Daqueles que não sai?”

“É.”

“Então, é por isso que chamam de canetão-que-não-sai. No que que você andou se metendo, Janaina?”

“Nada não, pai. Tudo sob controle”.

Olhei de novo pro carro.

“Vadia pelega volta pra USP”

O ponto é que muita gente acha que todo esse embate e esse estresse, tudo isso faz parte do processo. Não, isso não faz parte. Eu sou aluna, mas também sou professora. Estou Professora Bolsista, mas trabalho como tal há 18 anos. E, da maneira como eu vejo, a cada 4 anos, uma nova turma chega na UNESP. Mesmo aqueles que continuarão na pós-graduação, terão uma outra atuação. Mas os professores são a parte permanente, a parte que não se forma, que não vai embora. E a cada novo grupo que acha — e deve achar — que vai mudar o mundo, o professor é obrigado a começar e explicar tudo de novo. E pior: os mais radicais acham que o professor é a autoridade a ser combatida — não são raros os que falam de “poder supremo” dos professores, de autoritarismo sem limites.

E pior — também são estes mais radicais que acham que professores são “porcos capitalistas” por que ganham seus salários (tipo, lembra do tio Marx, galera… eles também estão vendendo sua força de trabalho…). Há problemas com pessoas que usam de meios escusos dentro da universidade para aumentarem seus ganhos? Lógico que há. Mas não é a maioria e está longe de ser. A categoria não recebe aumento há anos (cinco, para ser mais exato), nem o aumento previsto em lei. Os professores bolsistas são a base da base da base da cadeia alimentar. Os substitutos ainda têm o vale, o que melhora um pouco. Nem o dissídio (o aumento anual que prevê a correção dos valores ao menos pela inflação) eles estão tendo. Que dirá as bolsas ou mesmo os substitutos. Mesmo nessa situação de merda, a maioria dos professores ainda tem de lidar com as escaladas políticas, e com os problemas internos e as relações de poder dentro da universidade, em que um tá tentando vender o outro por um espacinho a mais no sol.

Some a isso que o professor já tá nessa burocracia há anos, nessa política, nesse imbróglio que é o serviço público. Muitos desanimam. Muitos se rendem. Outros se cansam. E aí, parece que ninguém se importa mais e você que está começando a vida chega pro cara, como se soubesse tudo que ele já tentou ou não tentou, tudo que ele fez ou ou deixou de fazer, de tudo que ele passou ou não passou.

E mesmo, em relação aos outros estudantes que vieram antes de você, você acha que suas decisões são as melhores? Depois do meu texto publicado quinta-feira, muita gente veio falar comigo. Especialmente alguns colegas da pós, que eram alunos quando o PPP começou a ser debatido. Um deles, hoje meu colega da pós, por Whatsapp, disse:

“Não era isso que a gente queria. Quando você entra na graduação você tá com mais pique para produzir, e de repente você fica dois séculos só no teórico, isso te desanima, te desmotiva, dá impressão que você vai sair daqui formado em qualquer coisa, menos jornalismo. E quando você tá se formando, tá na correria e não consegue fazer as matérias práticas direito. E agora, parece que eles estão combatendo justamente isso. E falando que o PPP é mercadológico. Cara, se ele pensa em viver como pesquisador, beleza. Mas a gente sai daqui pro mercado, a gente tem que ter uma formação técnica mais robusta e parar de ter 200 mil sociologias e filosofias. Se fosse pra isso, eu tinha ido pra outra carreira. E eles precisam parar de encher a boca para falar que isso seria transformar o curso de jornalismo em curso técnico. O que eles estão querendo não é o que nós queremos. E pode nem ser o que a turma que vai vir quer, por que a verdade é que eles mesmos não vão ser afetados por essas mudanças, mas estão norteados por uma agenda deles, que não parece em nada com o projeto no começo…”

E no final das contas, entre embates mil, enquanto brigamos entre nós, enquanto nos agredimos e digladiamos, o sistema vence. E pessoas sem ética, indivíduos desonestos e perturbados que infelizmente convivem conosco usando a máscara da normalidade, aproveitam tudo isso para suas próprias agendas. É essa gente podre que, quando aparece a oportunidade, faz coisas hediondas sob a proteção do grupo e, no final, leva todo mundo pro buraco junto.

“Vadia pelega volta pra USP”

Bom, no final das contas, não saiu. Amanhã vou no vidraceiro. Vamos ver se ele sabe de algo.

“Vadia pelega volta pra USP”

E fico pensando: se eu fosse um homem, isso teria acontecido? Como é fácil as pessoas tentarem coagir uma mulher. Lembro-me de certa vez, quando eu ainda tinha uma empresa, que fui demitir um funcionário por ter usado indevidamente os recursos da empresa, inclusive causando prejuízo e tendo acessado sites ilegais e criminosos, Reddit, etc. Estávamos em 3 pessoas para demitir esse cara. Eu e meus dois sócios (homens). Adivinha com quem ele gritou loucamente, chamou de vadia e etc? Pergunta se ele alguma vez tentou algo assim com meus dois antigos sócios? Adivinha quem quase foi agredida? E o cara só parou quando um dos meus sócios gritou com ele, e mandou ele embora de vez, por ter me desrespeitado. E até hoje ele me acusa — covarde — de ter sido desonesta com ele, inclusive publicamente (ainda que eu tenha os registros de tudo isso). Nunca falou um A para nenhum dos outros dois.

Depois, quando a gente diz que Machista é frouxo e covarde, as pessoas têm coragem de dizer que isso é mimimi de “feminazi”.

“Vadia pelega volta pra USP”

Por fim, eu espero que você que escreveu isso no meu carro esteja feliz pelo ato em si. Por que é tudo que um (a) fracassado(a) como você vai ter.

Na verdade, eu tenho que te agradecer.

Eu tive a melhor conversa com o Lorenzo do CACOFF depois disso, e vamos construir algo bom disso. Eu vou lutar mais do que nunca para que os alunos de pós-graduação tenham uma APG, por que seria para onde eu poderia correr num caso desse, e eu estava sozinha. Eu sei que os professores vão se movimentar nesse sentido, eles precisam fazer isso por eles mesmos, não por mim — eu me viro, eu sou cigana, hoje estou aqui, amanhã estou ali, mas acima de tudo, eu sei que o Caminho me ajuda.

Mas tenha certeza: a vadia não vai voltar pra USP, não.
A UNESP é a minha casa agora.
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