Como em uma segunda licença maternidade.

Mas com o mesmo filho, a completar 15 anos.

Meu filho fará 15 anos em setembro. Desde os 5 meses de idade ele foi evoluindo sua rotina de vida de escolinha para escolona. Depois do fim da minha licença maternidade, nunca mais passamos tanto tempo juntos. Desde então, acho que o nosso recorde de convivência contínua foram duas semanas de férias. Sempre enchi o peito para me declarar uma mãe de “horas qualitativas”. Sim, e era verdade que quando estávamos juntos, de fato estávamos juntos. Mas a gente pisca e os nossos bichinhos crescem e ganham asas, e pensam coisas, e fazem coisas e sentem coisas. Coisas que no cordial “como foi seu dia hoje” já não se captura a essência do que se passa com eles.

No fim de 2016 minha vida profissional, que ancorava boa parcela do resto, mudou radicalmente. Deixei de subir e descer o mesmo elevador todos os dias, deixei de subir e descer de avião, deixei de passar horas em reunião com o telefone no silenciador, deixei de lidar com perrengues em sua maioria desnecessários, deixei de ganhar uma grana muito boa todos os meses, deixei de receber os convites VIP, deixei de ter amigos ‘muy amigo’, deixei de viver de forma medíocre.

Sabe aquela equação qualidade, tempo e dinheiro que tanto gostamos de catequizar os nossos clientes a respeito? Passei a prová-la na minha vida pessoal. Confesso que a princípio foi sem querer, foi ao acaso, sem muito consciência.

Qualidade, tempo e dinheiro não mudaram seu significado, mas pra mim, mudaram completamente de sentido.

O significado denota razão, o entendimento literal e racional das coisas, mas o sentido é como essas coisas se traduzem em emoções e se comportam no contexto.

E o meu contexto mudou, e com essa mudança veio uma descoberta dura que agora se revela maravilhosa: minha relação com o meu filho estava institucionalizada, no automático. De fato não sabia o que se passava com ele. O que pensa, o que sente, o que gosta e porque.

Hoje, ao quinto mês de 2017, posso dizer que fico menos preocupada com certas temáticas do momento porque sei o que meu filho faz quando está fechado no seu quarto. Sei quais são seus jogos favoritos, seus youtubers, suas músicas, seus gostos. Compartilhamos muita coisa juntos, no detalhe, e também dentro do seu quarto escurinho. Debatemos assuntos, jogamos conversa fora, ouvimos e estudamos música juntos, ele guitarra, eu piano (outra descoberta, mas isso é outra história).

Atualmente subo e desço de diferentes elevadores em dias e horários diferentes, com o cuidado de não voltar a achar, entre outras coisas, que passar uma hora no transito é normal. Esse sequestro diário de qualidade e tempo simplesmente não é bom. Mata aos poucos.

Por isso não gostei da maioria das campanhas que vi nesse Dia das Mães, especialmente aquelas que trazem os depoimentos de filhos ao estilo “ela é uma lição, uma inspiração pra mim”, “ela sempre esteve ali por mim”, “não falo eu te amo, mas ela sabe”. Não que seja mentira, mas me parece uma forma institucionalizada confortável que soa íntima, mas que por outro lado reafirma a distância da relação. Normatiza a falta de tempo e a qualidade do detalhe.

Nesse Dias das Mães prefiro ouvir “Mãe, como é chato sua neurose com horários”, “Mãe, como gosto de ir te empurrando e te provocando no nosso caminho até escola pra ver se você diz alguma palavra antes das 7 da manhã”, “Mãe, não gostei do seu corte de cabelo novo”, “Mãe, pára de brisar”, “Mãe, você é feminista ou 'igualista'?”, “Mãe, eu te odeio”, “Mãe, eu te amo”.