Como mudar de carreira sem enlouquecer

Quando começamos uma viagem só enxergamos até um determinado ponto, até a linha do horizonte. Sabemos onde queremos chegar e temos um mapa que nos indica a direção a seguir. Mas não precisamos já ter feito o mesmo caminho antes e não sabemos o que vai acontecer no meio do caminho. Conforme avançamos a linha do horizonte também se move mais à frente. É só isso que precisamos para se chegar ao destino final. Não precisa enxergar até o final da jornada, só precisa saber onde queremos chegar e qual é o próximo passo. Assim é com qualquer viagem: a vida, ter um filho, começar um novo trabalho, e mudar de carreira.

Esse não é um post para te ajudar a decidir pra qual área mudar ou como viabilizar sua transição na prática, mas sim sobre como fazer tudo isso sem pirar antes de conseguir. Ele é parte da pesquisa que fiz para um workshop que criei com o mesmo nome do título, com o objetivo de desmistificar a mudança de carreira. A frase que acredito que melhor define esse workshop é mostrar que o caminho é longo mas é possível, e mais do que isso, pode ocorrer de forma mais tranquila e sem traumas.

Não estou dizendo que VAI ser tranquilo, estou dizendo que PODE ser. Quantas vezes você já teve muito medo de alguma coisa, e depois quando encarou viu que o problema parecia maior do que realmente era? Então por que não considerar a possibilidade de ser esse o caso? Às vezes vemos uma sombra enorme e ficamos com medo de ser um tigre, mas quando nos enchemos de coragem e vamos lá ver na verdade é só um gatinho.

Talvez o que mais nos assusta seja o fato de que “tudo e nada parece possível, quando pensamos em mudar de carreira”, como diz Hermínia Ibarra no livro Identidades de Carreira. A verdade é que o mundo do trabalho está mudando muito, o emprego formal diminui cada vez mais, ao mesmo tempo em que aparecem novas carreiras, novas formas de trabalho, novos conceitos como economia colaborativa, criativa, compartilhada, todos estamos tentando sobreviver enquanto observamos aonde isso tudo vai parar, e muitos de nós queremos nos inserir nesse novo mundo mas não sabemos muito bem como fazer isso. Mas com frequência nossos medos se revelam infundados e aquilo que mais nos assusta é o que mais nos liberta.

“Tudo e nada parece possível, quando pensamos em mudar de carreira.”

Antes de mais nada é importante entender: de onde vêm os seus medos? De um histórico pessoal ou familiar? Ou de crenças que a sua família te transmitiu sobre trabalho ou dinheiro — de que precisa segurar seu emprego, dinheiro só vem pra quem trabalha muito, vai faltar dinheiro? Crenças são as suposições fundamentais que as pessoas fazem sobre si mesmas, os outros e o mundo a sua volta: são generalizações que podem ser ou não verdade. É importante conhecer as crenças que você está assumindo que podem estar te detendo: o que é crença sua e o que é verdade? E considerando que pensar em medo atrai mais medo, você pode tomar a decisão de viver de forma diferente e tentar mudar o seu mindset?

Ter coragem não é não ter medo, é ter medo e ir com medo mesmo.

Agora no seu lugar eu pensaria “ok, mas falar é fácil né?” Eu sou uma pessoa que acredito que da mesma forma que nos dedicamos a fazer cursos e adotar práticas para ser melhor no trabalho, devemos nos dedicar a olhar para dentro, agregar autoconhecimento e adotar práticas para melhorar o nosso bem-estar também. Então trouxe algumas ferramentas para lidar com o medo. Em vez de ficar me concentrando no sofrimento, a primeira coisa a fazer é sempre me voltar para a solução: ok, estou sentindo isso, agora o que eu vou fazer na prática para lidar com esse medo? Não adianta ficar só sofrendo, tem que pensar o que vai fazer para se libertar ou lidar com ele. Nos meus momentos mais tensos, uma prática que utilizo é começar a prestar atenção no meu corpo, na minha respiração, para desviar o pensamento do medo. Mais recentemente comecei a usar técnicas de mindfullness, que é um tipo de meditação para esvaziar a mente e permanecer no momento presente. Na hora em que estou com muito medo tento desfocar dele, mudar o pensamento, não fico analisando ele.

No livro O Poder do Agora, Eckhart Tolle diz que se você se concentrar no momento presente, percebe que nem tem tantos problemas ou dificuldades assim, porque o medo te leva para o passado ou te joga para o futuro, para um futuro que é só uma possibilidade dentre muitas outras.

Depois em casa, quando o medo não estiver ativado, eu paro para analisá-lo. Primeiro identifico o problema que me causa esse medo todo. Se o que causa o medo pode ser eliminado, tento quebrar o problema em partes menores e perguntar qual delas é mais importante resolver agora para reduzir o meu medo. Se o problema não pode ser eliminado nesse momento, tento agir na minha atitude em relação a ele. Penso em momentos em que tive medo no passado: Em que outras situações tive esse medo, tinha tudo para dar errado e consegui supera-lo com sucesso? O que pensei que me ajudou? O que fiz efetivamente para conseguir? Posso aplicar algum destes pensamentos e ações na situação atual?

Quando queria mudar de carreira, eu tinha todos os medos típicos: Não ter dinheiro, não ter clientes, ter que voltar para o mundo corporativo, não ser boa o suficiente, de estar errada, de não conseguir ajudar as pessoas que precisam de mim. E especialmente quando falamos de uma mudança de carreira, nos sentimos um peixe fora dágua, parece que todos estão super bem em seus trabalhos, nós somos os únicos que querem mudar, e até mesmo quem no fundo também quer não concorda com a nossa iniciativa. Por isso é importante procurar a sua turma, outras pessoas que também estão passando por essa transição, para perceber que mudar no meio do caminho é normal, se sentir acolhida e ter com quem trocar experiências que podem te ajudar.

É importante saber como lidamos com as mudanças para identificar quais comportamentos nossos tendem a nos atrapalhar, e o que já fizemos anteriormente que pode ajudar na mudança de carreira. Nos processos de coaching proponho pegar uma folha de papel em branco e fazer uma linha do tempo, com as principais escolhas da sua vida pessoal e profissional. Depois pergunto como foi, por que você fez cada escolha, o que te motivou. A seguir identificamos possíveis padrões nas suas escolhas: o que existe em comum entre as motivações para as principais escolhas da sua vida? O que você fez nos momentos de transição anteriores que deve mudar, ou ao contrário, que pode replicar agora? É importante ter consciência dos padrões que nossa vida segue, para que consigamos sair deles no novo rumo que vamos dar a nossa carreira. Como diz o ditado:

“Ações iguais produzem resultados iguais.”

Quando eu decidi mudar de carreira, uma das coisas que pensei foi como poderia mudar da forma mais tranquila possível. Avaliei o seu impacto nas outras áreas da minha vida — do que eu topo abrir mão por esse objetivo? Se eu não topo abrir mão de nada por ele, é melhor refletir o quanto quero realmente esse objetivo. Antes de começar também preparei o terreno, negociei com as pessoas queridas o impacto do meu sonho nos sonhos delas. No caso tive que negociar apenas com meu marido, mas você deve pensar em todas as pessoas de quem você depende ou que dependem de você. Outro desafio pra mim foi não descontar nelas o meu stress e ao mesmo tempo me manter presente em vez de me afastar. Acontece muito com quem estuda para concurso, o namorado termina porque não aguenta mais a falta de atenção, os amigos se afastam porque você nunca está disponível, você passou anos sem ir às comemorações de aniversário da família pra estudar, e tem que comemorar sozinho quando finalmente consegue passar no concurso. Por fim, mais do que tornar minha transição um pouco mais tranquila, me preocupei com tentar curtir o processo de mudança e não ficar só sofrendo. Faço isso até hoje me dando recompensas pelas pequenas conquistas e reservando tempo para descansar — o segundo item parece óbvio, mas quando a gente está empreendendo tende a pensar em trabalho e querer trabalhar o tempo inteiro. E você, como pode tornar a sua transição mais tranquila? Mais divertida?

Como posso tornar isso mais divertido?

A quantidade de dinheiro que investimos em nossa transição é diretamente proporcional ao nosso nível de stress enquanto as coisas não começaram a dar certo. Dinheiro envolve receitas e gastos. Sobre receitas, é preciso aceitar que primeiro vem o período de plantar, depois vem o de colher. Não queira ganhar de cara o que levou toda a sua vida até aqui para conseguir na profissão anterior. Quem não consegue aceitar isso rapidamente voltará ao trabalho antigo. Sobre os gastos, faça uma lista dos gastos associados com seu estilo de vida, e pense no que você sente quando faz cada gasto da lista. Depois para cada sensação pense: como posso obter essa mesma sensação de outras formas? E cultive a capacidade de adiar recompensas, abrindo mão de uma gratificação imediata para obter uma gratificação maior mais adiante. Para quem vai empreender, tente sempre cogitar usar as coisas dos outros para não gastar muito (espaços de coworking, sites gratuitos, plataformas prontas de vendas), peça ajuda aos amigos e aprenda a fazer você mesmo o que puder. Fiz meu site com a ajuda de um amigo próximo, e tive ajuda de outro para fazer meu logo.

A gente tende a postergar indefinidamente projetos que poderiam ser incríveis para o mundo e para nossas vidas porque nunca achamos que estamos prontos para nada. Mas por experiência própria de alguém que se cobra muito:

Você não precisa ser perfeito, só precisa ser o suficiente.

A verdade é que para ajudar alguém você só precisa saber mais do que a pessoa que precisa de ajuda e ter vontade de ajudar. Aceitar que não vai sair perfeito de cara é um desafio pra mim até hoje, mas foi o que me permitiu tirar meus projetos do papel.

Seja qual for o seu medo, você pode pensar nele ao contrário: Você não vai atrás do seu sonho porque fazer o que se ama é algo para sortudos, então está esperando pra ver se dá essa sorte. Ou porque é algo para pessoas obsessivas e você não é assim, você é legal, normal. Ou porque tem família para sustentar. Ou porque você achou uma outra coisa que é bem interessante, embora não seja o seu sonho, mas está tudo bem. Ou porque vai dar muito trabalho ir atrás do seu sonho. Realmente faz todo sentido… Comigo funciona bastante, pensar assim me faz sentir vergonha dos meus medos e começar a agir. Aliás, começar é a palavra-chave.

Comece: “O momento mais amedrontador é sempre antes de começar” Stephen King

Escrevi esse post baseada em estratégias que adotei em minha própria transição de carreira e de pessoas que encontrei em meu dia-a-dia de trabalho. Sou coach de carreira e ajudo pessoas a mudarem de carreira sem enlouquecer, encontrando um trabalho que faça sentido para elas e apoiando-as ao longo da sua transição. Você pode conhecer melhor meu trabalho pelo meu site e pela página no Facebook.