De onde eu vim?

Conhecer a própria história é um privilégio que a maioria das pessoas negras não tem.

─ De onde são os seus ancestrais? Congo? Costa do Marfim?
─ Eu não sei. Aconteceu uma coisa medonha chamada “escravidão” e toda a minha identidade étnica foi apagada.

Desde o dia que eu vi esse trecho da série Atlanta (aquela estrelada pelo Donald Glover, o gênio de This Is America), uma pulguinha começou a coçar em mim. Aquela coceirinha que traz à tona a vontade de falar sobre algo e que acaba superando o tal do medo de se expor na Internet. Falar sobre negritude online demanda coragem, amigos.

Nunca havia pensado sobre as minhas raízes negras, não de uma forma mais específica. Sempre que pensava no passado da minha família, me limitava ao lado branco. Era mais fácil, mais leve de digerir.

Do lado preto da família, sei que em algum momento pelo menos um dos meus ancestrais foi arrancado de sua terra, tirado de sua família, enfiado em um navio, açoitado, torturado e mantido como um animal por semanas. Tudo isso para chegar aqui e ser completamente desumanizado e ter sua história apagada da forma mais cruel possível. Eu sei disso porque é o que aconteceu com o ancestral da maioria de nós, negros. O que eu não sei é quem essa pessoa era, de onde ela foi arrancada, quem era a sua família antes dessa barbaridade acontecer. Qual era o seu sobrenome? Não é o mesmo que eu tenho agora.

Por mais que eu pesquise, eu só vou conseguir chegar até a um período de tempo específico. Não vou descobrir de que parte da África essa pessoa veio, como era a vida dela ou o que ela fazia antes de ter sua vida destruída. A escravidão tirou as minhas raízes de mim.

Estou falando sobre isso porque não raramente me vejo em algum tipo de conversa em que pessoas — quase sempre brancas — expõem com orgulho a origem de suas famílias. Elas sabem exatamente de onde seus tataravôs vieram, o que faziam, o que aconteceu com eles e como eles deixaram uma herança maravilhosa: um nome e uma história. Exibem com orgulho seus passaportes europeus, suas cidadanias de sei lá de onde, suas oportunidades trazidas pela história da sua família. E tudo isso é ótimo, é um privilégio. Eu só não sei se elas sabem disso.

Claro que nem todas as pessoas brancas conhecem a própria história tão bem, mas os motivos delas não saberem de onde suas famílias vieram provavelmente são diferentes dos meus. Veja bem, não entro no mérito social — ainda que ele esteja diretamente ligado a tudo isso — me atenho apenas ao privilégio de se conhecer como membro de uma árvore genealógica farta, cheia de galhos e frutos. Acredito que entender a própria história faça parte da construção da identidade de todos nós, e enquanto alguns conseguem enxergar todas as ramificações que o trouxeram até aqui, outros são levados a se considerarem simplesmente “descendentes de escravos”.

Não sei quem foi esse meu ancestral, mas sei que ele era uma pessoa que um dia foi livre. Não sou descendente de escravos, isso não existe. Dessa imposição social criada para inferiorizar os negros, eu me afasto. Eu venho de uma linhagem de homens e mulheres que eram tão livres quanto eu sou hoje. Reis e rainhas que andavam sobre solo fértil e sagrado na Mãe África. Pessoas que foram submetidas a atrocidades que esforço político-social nenhum vai reparar.

Diferente de muitos, eu tenho que procurar a raiz da minha cultura sozinha. Nada disso me foi ensinado na escola, porque até lá a nossa história é negativada. Da escola, a única coisa que eu aprendi sobre qualquer ancestralidade foi a escravidão. Mas trezentos anos de crueldade não definem quem nós somos. A nossa linha do tempo transcende milhares de anos. Por que ninguém fala do antes?