O casamento na praia

Janaíne Paiva
Sep 2, 2018 · 6 min read

Eu gosto muito do desenrolar de toda essa história, porque já aconteceu há alguns anos e os detalhes que escolhi contar ao longo desse tempo são igualmente marcantes.

Eu lá de novo, recém separada, naquela maré baixa que acontece de tempos em tempos, que você acha que nunca mais vai transar, nem lembra quando foi a última vez. Já subiu pelas paredes, bateu uma laje lá em cima e se mudou pra esse lugar onde ninguém interessante aparece pra te foder de um jeito legal.

Um casal de amigos tava pra se casar, mas quando o convite tinha chegado até mim, um ano antes, eu era casal também. Apesar de ser amiga só dos noivos, broder é broder, resolveu casar na praia, problema é meu. Fiquei muito naquelas “poxa quando planejei isso bububu” mas paguei tudo e fui sozinha mesmo.

Peguei um quarto individual num hostel e fui de ônibus pra lá, eu e minha mochilinha. Tava numa temporada pesada de trampo e me planejei pra ficar um dia a mais depois do casamento. Pra me curtir, né? Descansar. Botar a cabeça no lugar.

Quando consegui encontrar o hostel, bem afastado, lá no finzinho de uma rua sem asfalto, tinha uma galera montando uns equipos. Caixona de som aqui, uma bateria ali. Eu tinha ido pra relaxar, né, ficar um tempo refletindo sobre quem era essa nova pessoa, essa que restou depois de um longo e profundo relacionamento.

O atendente, bizarro por sinal, começou me explicando que ia ter uma “festinha” mais tarde, acabava cedo, mas como eu tinha compromisso no dia seguinte ia me colocar num quarto mais afastado. Fui pro meu quarto, fiquei lá chorando, batendo punheta e fumando maconha. Quando me cansei de protagonizar essa cena patética, me ajeitei como dava e fui lá socializar.

Era final de alguma competição de surf, uma marca emprestou pranchas e ia premiar num-sei-quê-lá. Bagulho tava lotando de todo amante de ondas da região, quando dei por mim fiz uma conta por cima, tinha 200 surfistas e simpatizantes, dentro e na rua cheia de lama.

Conheci um cara que todo mundo chamava de Jack (diéq), que aparentemente era influente na cena das ondas. Ficou lá me apresentando pra todo mundo e comentando que “viajei sozinha”.

Papo difícil, não manjo nada de surf, realmente tava foda entrosar na galerinha que morou em Bali, surfou na Nova Zelândia e usa gírias que não faço a menor ideia do que tão falando. Mas tava bêbada e me esforçando. Fui pegar mais uma breja.

Acabou a breja.

Vai demorar 10 minutos pra chegar mais breja, olhei pro lado tinha um moreno alto, meio fantasiado de skatista, desapontado também. Olhou pra mim e se deparou com meu olharzinho de “acabou a breja” e ficamos papeando.

Nem lembro o quê, só lembro da gente no quarto metendo e eu reparando como ele era bronzeado. Aquele bronze de anos, aquele pescoço grosso, meu deus, que homem gostoso. Joguei a camisinha no lixo do banheiro, ajeitamos as roupas e voltamos pro fervo lá em volta da piscina.

Nem vi mais, fiquei na rodinha dos meus mais recentes amigos (nunca lembrarei suas faces) e continuei dando lucro pro bar. Quando meu drink e dinheiro acabaram, avisei que ia pro quarto pegar mais uns trocados e já voltava. Um dos meus novos coleguinhas se ofereceu pra me acompanhar. Não, eu não entendi. Nem tava dando em cima dele, tinha acabado de meter. Tava sussinha, na minha, querendo chapar de álcool pra preencher o vazio que a solidão tava metendo no meu rabo e me torturando.

Ficou maior quente essa acompanhada que ele me deu, a gente já tava no quarto, né? Por que não? Nem católica eu sou.

Pediu pra usar o banheiro, usou de porta aberta enquanto eu tirava o sapato sentada na cama. Quando ele tava saindo, olhou pra baixo… aconteceu.

Vi a feição mudando, vi o brilho no olhar se apagando, vi na cara dele a hora que ele enxergou no lixo do banheiro uma camisinha toda cheia de história pra contar.

Pensei “pronto”, acabou a festa, vamo voltar pra lá.

No mesmo segundo presenciei ele se convencendo na própria cabeça e vindo na minha direção. Bem menos gostoso que o outro, bem mais arrogante e afobadão. Aquele ali, se era eu ou o um travesseiro rasgado, não fazia diferença nenhuma. Terminamos a foda medíocre do dia, outra camisinha pro lixo e “Eu não durmo junto” ele falou, respondi “nem eu” e abri a porta.

Amanheceu, peguei a viola, botei na sacola e… zuera. Acordei com uma ressaca da peste, dor de cabeça e o casamento pra admirar. Tava em cima da hora, fui direto pro rolet sem comer. Atravessa a praia, anda mais um pouquinho, pronto, chegamos na capelinha, coisa mais linda. Mor visu. Galera feliz, cumprimenta, etc.

Cerimônia rolando, todo mundo muito concentrado, me sobe um calor. Subiu até a veia da testa, pensei -alá, minha cara gorfar no casamento do meu broder. Tava de ressaca, não comi, mor calor, minha nossa senhora, tava rezando dentro da igreja mesmo, tremendo as mão tudo.

Sobrevivi.

O almoço do casamento tinha duas opções no menu, bobó de camarão e filé com não lembro o quê. Comi a carne pra não passar mal e engatei no espumante. Eu tenho um esquema que costumo usar no rolet open bar, acho super simples de executar e o resultado é mais que efetivo. Escolha o garçom que atende a sua área e pergunte seu nome. É isso. Agora ele não é só um garçom, ele é seu Carlos, Fabiano, André, Renato, o melhor amigo da sua taça.

De presente, levei uma seda de ouro pro meu amigo fumar, mais uns amigos na função, acendemos o bequinho no negócio de 24k.

Nessa levada veio um homem maduro se entrosar na minha e pediu uns pegas. Disse que não fumava há uns 10 anos e hehehe fuma, fuma. Todo mundo comeu, bebeu, fumou e deu a hora de acabar.

Ai mas viajamos pra isso, né, tanta gente celebrando o amor, tem que ter um after. Vamos pra casa da noiva que tem aperol esperando a gente lá.


Esse tal maduro ficou me cercando querendo conversar antes da divisão das caronas. Me importunou bastante. Imagina um corte fino de papel na dobrinha do seu dedo suado. Chato desse tanto.

Alguns convidados estavam hospedados numa casa que ficava no caminho, o maduro chato também. Depois de todo mundo celebrar o amor, comer, beber e fumar, viajamos uns km de carro até chegar nessa casa. Não demorou cinco minutos pro maduro chato estar ajoelhado na grama da entrada, com a cara enfiada nos arbustos, urrando tal qual um bugio na mata.

Até ali, eu juro que tava me controlando pra não ser uma puta duma escrota mandando ele tomar no cu. Nessas horas eu realmente fico desconfiada que pode existir um Deus, porque bem de frente pra esse vexame tinha uma cadeira. Me sentei e fiquei assistindo.

Ele lacrimejava, não conseguia respirar de tanto que saía jato de gorfo daquele corpo. Parecia uma vap da nojeira, foi incrível. Quando o cheiro tava insuportável me levantei, cheguei mais perto e falei: “escolheu bobó, né? gente, to indo”

Me lembrei do aperol. Tinha mesmo, uma cadeia de produção. Obrigada, noiva.

Voltei pro meu hostel e encontrei tudo apagado. Porta da recepção trancada e eu lá, sem ninguém pra pedir ajuda e sem saber voltar pra casa da noiva. Nessa hora me veio aquele desespero de quem bebeu bastante e ia começar a chorar. Me lembrei que a gente é sempre sozinho mesmo e tudo bem, arrombei a recepção, achei minha chave com a lanterna do celular acesa e fui dormir.


No dia seguinte, o além da conta que me programei pra ficar, não tinha mais uma viva alma (além do atendente estranho) no lugar. Por lugar entenda a cidade. Nunca fui frequentadora desse tipo de rolet, entrei em desespero e fui pra casa da noiva. Todo mundo tinha compromisso fora da cidade, ia precisar esperar minha hora de ir embora chegar, sozinha de novo. Eu não sei se deu pra entender até aqui, mas eu sou uma carente do caralho. Já tava tremendo por dentro de tanto tempo zanzando sozinha, com sinal ruim no celular e umas 3h de espera até o ônibus passar.

Recebi a dica, veio a noiva (a essa altura, esposa) perguntando se o Frontal que acharam era meu. Respondi que não, mas que poderia ser. Tomei.

Gente, eu nunca tinha tomado um calmante na vida. Ainda bem. Fui de lá até em casa olhando pro nada, pensando na vida, interagindo só com a minha consciência e meu passado. Juro que pensei nos meus sonhos, nas minhas mágoas, pensei tanto que nem vi a cidade que eu moro chegar. Quando surgi na porta de uma amiga, a primeira frase que soltei foi, “eu decidi, vou ser a mãezinha que eu queria ter pra mim”. Foi isso, viajei prum casamento e na volta me adotei.

Janaíne Paiva

Written by

• esse é só o meu lado da história •

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