O estoma que se vai…

Fotografia de Luciana Troccoli

Quando eu fiz essa foto, eu imaginava ter vivido já os maiores desafios dessa nova fase da minha vida — revendo meu corpo e convivendo com a bolsa de colostomia. As fotos me permitiram me enxergar naquele novo momento, me aceitar. E eu costumava dizer a quem me perguntasse, que a cirurgia de reversão provavelmente aconteceria somente depois de um ano. Foram muitas as pessoas que disseram que “não, imagina, vai ser antes”. A bolsa é um incômodo, um estorvo.

Talvez as pessoas a sentissem assim, talvez as pessoas sofressem por mim, e desejavam que ela se fosse logo. Mas havia ainda desafios a enfrentar. E nesses 8 meses não foram poucos (você também deve ter vivido vários desafios nesses 8 meses, né?). Eu mudei de cidade, comecei a espalhar currículos, animada. Mas então eu fiquei doente, tive anemia, não tinha forças. Tentei pular carnaval, para acabar sentada em uma sarjeta — e depois em um bar — chorando com uma peruca rosa porque eu não conseguia pular e me divertir como os outros. Sofri. De peruca e tudo. Duda com seu chapéu de pirata. Nós comendo um PF em meio às minhas lágrimas.

E então eu achei que estava tudo sob controle de novo, tinha entendido as minhas limitações. Comecei a tomar corticóides, que fortaleceram minha saúde. Adeus, anemia. Olá, inchaço. Em 5 meses eu engordei 10 quilos. As pessoas achavam que eu estava saudável; eu me incomodei — e muito — porque sentia os quilos como parte do processo do adoecer e se curar. Não eram quilos saudáveis, eram quilos medicamentosos. Essa mudanca corporal, ligeira, venho acompanhada de outra: meu estoma, que deveria se manter rente à barriga, bem tranquilinho, começou a se “mostrar”. Em março, eu percebi que tinha quase a medida de um palmo aberto de intestino para fora. Um palmo aberto, isso mesmo, folks.

Esse sorriso que você vê na foto tentou se manter durante todas essas fases, mas eu não vou negar que eu reclamei. Reclamei da “moonface”, como se convencionou chamar o rosto de corticóide. Reclamei desse intestino pra fora. De não conseguir me deslocar por aí como eu gostaria. Das roupas que não podia mais usar. Até que decidir tirar tudo do guarda-roupa, “só ponho de volta quando fizer a cirurgia”.

Porém, foi só quando meu médico viu meu estoma, há duas semanas, e disse algo como: “assim não dá, tá difícil pra vc, vamos operar”, que eu senti o peso do que vinha vivendo. Disse bem minha terapeuta que a gente se acostuma com tudo. É um clichê bastante verdadeiro. A partir do momento que eu vi que viveria com a bolsa, tentei fazer tudo o que sempre fazia. Mesmo depois de ter o que se chama de prolapso, esse pedação de intestino pra fora. Deixei de sair por aí, toda serelepe, claro, mas marcava tudo em casa: cafés e comidinhas com amigos, colaborações para o canal (e foram várias, incríveis!). Tentei continuar fazendo coisas que gosto. Inclusive ficar quieta, sozinha, pensando na vida. Mas não se engane: saía pra comer, pra atender a convites relativamente “caseiros” de amigos… fui ver minha mãe onde eu nasci.

Quando o médico disse que operaríamos, eu não estava preparada. A cirurgia aconteceria em duas semanas, provavelmente. Por mais que minha condição estivesse difícil, eu tinha me acostumado a ela. Ao invés de me alegrar com a chegada desse momento, meses antes do que eu imaginava, eu tive medo. Cheguei em casa e não falei com ninguém. Fiquei imaginando o novo procedimento, eu na maca, eu no centro cirúrgico, eu em recuperação. Todas as pessoas com quem eu falei se mostraram felizes, muito felizes. Menos eu. Eu tive apenas medo.

Há duas semanas, na sessão de terapia, eu chorei quase 50 minutos. Com medo, assustada, vulnerável, eu me dei conta de como os últimos meses vinham sendo difíceis: eu me sentia estranha, feia, “pouco útil”. Eu chorava tamém porque não conseguia ver o que as pessoas me diziam “vai ficar tudo bem” e me sentia pouco compreendida porque eu não me sentia bem, mas não queria só reclamar. Uma existência curiosa, por conta dessa parte externalizada sem o meu desejo ou controle. E agora estava ali a possibilidade de mudança desse quadro, mas eu sentia medo.

O sorriso da foto não estava mais ali. E eu chorei algumas vezes até entender que, bem, a cirurgia faz parte do processo. E ela vai acontecer amanhã, dia 20 de junho de 2017. A perfuração do meu intestino aconteceu no dia 21 de outubro de 2016. 8 meses cravados. Já vem aí um novo corpo outra vez, ao qual terei de, mais uma vez, me adaptar. Mas, para citar o poema de Alberto Caeiro, trazido por minha terapeuta durante uma sessão,

“Enquanto vou na estrada antes da curva

Só olho para a estrada antes da curva,

Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.”

Que possamos, cada vez mais, nos concentrar naquilo que vivemos no presente, sem se preocupar com o depois da curva. Eis um exercício difícil, que eu venho tentando viver, sem sucesso completo, nos últimos meses.

Então vamos lá, para mais uma etapa dessa estrada, não é mesmo? Cada um de nós vivendo os seus desafios, a sua maneira. Essa é a graça da vida, certo?

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