Tudo não é mais.
A consulta deveria ter acontecido há uma semana, mas eu me enrolei para fazer a marcação, e a secretaria informou que só tinha horário para o dia 26, exatos 35 dias passados da cirurgia. Confirmei o interesse. E lá fui eu ontem à noite, depois de ter passado a manhã tomando a medicação que “segura o Crohn” no seu devido lugar, ouvir o que o médico tinha a dizer.
Depois de um período tão longo de variadas privações, acho que eu não tinha ainda me dado conta de que ele poderia “me dar alta”. Eu não estava ansiosa, nervosa. Fui à consulta como costumo ir aos encontros com o médico gastro: um check up, um olhar geral. E foi então que o médico começou a perguntar como eu havia passado. E então ele me disse, com muita tranquilidade, que eu poderia comer de tudo. Que eu poderia me exercitar. Sair, caminhar longamente. Voltar a malhar se quisesse. Musculação, inclusive. Ou pilates. Ou ioga. Tudo dito e explicado, nos despedimos.

E, ao sair do consultório, uma estranha comoção me tomou. Tive vontade de chorar, mas, por alguma razão, me contive e segui caminhando pelos longos corredores do hospital. Liguei para minha mãe, para minha irmã, para Duda, para minha sogra. Abracei Monica e Dani, uma visita incrível nesse tempo de vida. Me emocionei. Celebrei. Eu me vi, repentinamente, oficialmente livre de todas as privações que me tomaram durante os últimos 9 meses.
Uma cirurgia inesperada. A colocação da bolsa. A difícil recuperação da cirurgia. A readaptação alimentar. A volta para casa. O suco de laranja. O banho demorado. O aprender a conviver com aquele novo corpo. A mudança de cidade. A troca de médico. E de casa. A retomada do Crohn. As dores, a anemia. As 9 idas diárias ao banheiro. O sangue. A retomada das medicações. A recuperação da anemia, o passar da dor. O reconhecimento dos limites do corpo em um carnaval sem agito. A saída gradual de 15 centímetros do intestino para fora do corpo. O convívio com esta parte externalizada do corpo. O cuidar da bolsa, o limpar a bolsa. Trocar de roupas. Guardar tudo no armário. Os 10 quilos a mais de água acumulada e sabe-se lá mais o quê, em função do uso de corticóides — por seis longos meses. Ouvir, “Você está mais bonita, você engordou” e pensar “mas, minha nossa, isso aqui é enfermidade, é resultado de um remédio me entupindo não-sei-de-quê”. Reclamar com o médico e se perder. Marcar a cirurgia. Conhecer o cirurgião. Procurar seu nome na internet. Chorar. Chorar de novo. E mais. Seguir as trocas das bolsas, mesmo com os 15 centímetros. Banhar-me, esse corpo louco, descontrolado. Ter o apoio infinito dos amigos, da família, do meu marido amado. Me preparar para a cirurgia. E passar muito mal antes dela. Ir para o hospital. Colocar a touca. Ouvir o anestesista dizer “estarei lá quando você dormir e acordar”. Dormir. Anestesiada. Acordar, pedir para ver a barriga, e chorar. “Onde está a bolsa? E os 15 cm?”. Começar a andar no mesmo dia da cirurgia. Voltar logo pra casa. E fazer a dieta.
Tudo agora passou, tudo agora não é mais.
E sou, mais uma vez, grata. Aos seguidores do canal que acompanharam, vibraram, mandaram suas energias e palavras de carinho. Meus grandes e estimadíssimos amigos, sequer direi seus nomes, mas vcs sabem quem são. Vieram me ver, inclusive de longe, nessas mais variadas situações que vivi. Me ligaram, mandaram mensagens, áudios. Estiveram comigo, vibrando por mim, chorando comimgo, me amando e me respeitando. À minha família, que é família de Duda, que se segurou ao meu lado, orou por mim, mandou boas energias, perguntou lá e cá, se preocupou, me amou. À minha amada mãe, que foi para todos os cantos do mundo cuidar daquilo que meu corpo tentava desfazer — ou refazer. Por me abraçar e beijar e estar sempre comigo, mesmo quando não se sentia bem, porque queria doar amor, sempre. À minha irmã, que esteve também o tempo todo ao meu lado, que abdicou do seu trabalho, do convívio com amigos e da alegria da vida para estar comigo e se doar completamente, inclusive na famosa e triste “noite do terror”. À minha sogra e ao meu sogro, que acolheram a todos que foram me visitar, e se preocuparam e cuidaram de mim, como se eu fosse uma filha. À minha cunhada-irmã, muitas vezes a motorista da rodada em Salvador, e minha super cozinheira em SP. Paciente, cuidadosa. Ela e Janaina, o medicamento JJ que eu tanto usei. ❤ Ao Duda, Míni, minino, meu lindo, meu preto. Parceiro de vida, de luta diária pela nossa melhor existência, pelo nosso melhor respito. Por me respeitar, me ouvir, me deixar chorar. E por sorrir comigo, celebrar, por me respeitar em tudo o que sou. Em tudo o que somos.
Ah, e essa fotografia aqui? Foi o bandaid que a Raquel, enfermeira querida do hospital, escolheu para decorar meu braço após a medicação de ontem. Um gesto de carinho que, mal sabe ela, muda o dia e o humor de uma paciente. A todos os profissionais de saúde que cuidaram de mim ao longo de todo este período, pelo sono perdido, pelo olhar atento, pelo respeito à minha condição. Pelos banhos dados, os sorrisos compartilhados, meu muitíssimo obrigada. Todos foram excepcionais, mesmo quando eu mostrei o pior que havia em mim, no desespero e na dor.
Como costuma brincar minha irmã, é o que diz Chico Pinheiro no jornal matinal: “é vida que segue!”. Sigamos. Celebrando todas as nossas marcas, todas as nossas histórias. Inclusive as de dor.
Novamente, obrigada a todos que torceram por mim.
