Como punir o ódio?

Dois crimes motivados pela intolerância extrema, e duas penas que revelam as disparidades da justiça mundial

Ilha de Utoya, na Noruega

Um matou 77 pessoas e deixou outras 51 feridas em dois ataques consecutivos. O outro vitimou nove, e feriu mais três a tiros, durante uma sessão de estudos religiosos. Anders Breivik recebeu a pena máxima de seu país, 21 anos. Dylann Roof, nesta quarta-feira, deve ouvir formalmente sua sentença, divulgada hoje: responderá pelas vidas que tirou com a sua. Dois casos tão similares na motivação, mas com sentenças completamente diferentes, apesar de equivalentes. É um retrato das diferenças entre o encaminhamentos judiciais verificados em países distintos.

Os dois condenados estão por trás dos principais marcos da barbaridade motivada pelo ódio dos nossos tempos. Em julho de 2011, Breivik detonou uma bomba em um prédio governamental em Oslo, e em seguida partiu para a ilha de Utoya, onde abriu fogo em um evento do partido de esquerda reunia jovens. Foi o maior massacre do pacífico país.

O assassino norueguês odiava o que chamava de “multiculturalismo”, que segundo ele ameaçava a superioridade da suposta “raça europeia”. Os esquerdistas, para ele, eram os responsáveis pela presença estrangeira no país escandinavo. Raciocínio parecido com o do atirador americano, que apregoava a volta da segregação e a “guerra racial” contra os negros, eles sim, segundo sua visão, algozes do povo branco.

Emanuel African Methodist, nos Estados Unidos

Motivado por essa ideia, Dylan bateu à porta do grupo de estudos bíblicos da Igreja Emanuel African Methodist, em Charleston, Carolina do Sul, quase dois anos depois do atentado norueguês. Acontecia uma sessão de orações, e ao final da atividade, ele abriu fogo contra os presentes, todos negros. Sua irmã iria casar naquele mesmo fim de semana.

O assassino é autor de um site chamado The Last Rhodesian, referência à antiga colônica britânica na África que passou a se chamar Zimbábue após sua independência, em 1980. O povo, de maioria negro, era governado por uma minoria branca. Em conversas com um amigo, tinha citado claramente que pretendia iniciar uma guerra racial, mas não foi levado a sério porque estava alcoolizado.

Era na internet que encontrava espaço para expressar seu extremismo. Exatamente como o condenado norueguês. Ambos deixaram manifestos, em que detalharam suas motivações, de ódio, e seus métodos, terror e assassinato. Além disso, os dois lutaram para serem considerados imputáveis no julgamento, mesmo que isso agravasse a pena. Caso fossem tidos como insanos, abririam a mão da legitimidade ideológica que querem impregnar aos seus atos. Às suas atrocidades.

A despeito de tantas semelhanças, o resultado dos julgamentos não poderia ser mais distinto, mesmo que tenham recebido as respectivas penas máximas. Enquanto no país escandinavo o terrorista tem a perspectiva de cumprir sua pena, que é prorrogável, até 2033, na Carolina do Sul o veredicto foi a pena de morte. Trinta e três violações foram atribuídas ao atirador americano, entre assassinatos e crimes de ódio. Apesar de, numericamente, ter deixado menos vítimas, Roof pode sofrer a consequência mais extrema. Seus advogados já anunciaram que recorrerão, na tentativa de transformar a pena em prisão perpétua.

É uma coincidência mórbida que ambos tenham sido notícia no mesmo dia. O terrorista norueguês participou hoje de mais uma audiência do processo que ele move contra o governo, alegando maus tratos e desrespeito aos seus direitos, enquanto na América, Dylann esperava para conhecer sua sentença.

Se encaminham para o capítulo final dois episódios aterradores da intolerância cada vez mais presente na sociedade. As dezenas de vidas dizimadas por dois homens de juízo completamente deturpado jamais voltarão. Mas, caso o rigor das penas aplicadas ajude na diminuição deste tipo de crime, então a justiça terá sido efetiva.


Leia aqui minha resenha do livro Um de Nós, de Asne Seierstad, que conta a história do atentado da Noruega, e fonte de parte das informações usadas nesse texto.

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