Preciso me adaptar.

Eu me adaptei. Aos 8 anos eu era estranha, bizarra, não sabia, só sentia. Quem cresceu na década de 90 sabe que referências eram lentas, tudo que tínhamos eram livros, filmes, canais abertos e a turma do bairro. Essa foi a minha infância. A gente não se cobrava muito, as expectativas eram baixas, mas a gente sempre tentava se encaixar.

Eu lia embaixo da cama, passeava com minha avó, meu programa favorito era o jornal, com o meu avô, e tinha uma boa relação com a minha mãe. Uma única melhor amiga, frequentava uma escola de bairro e passava a maior parte do meu tempo com a minha família.

Aos 9 descobri que a mania de contar tudo para mamãe me fazia ser excluída de muitos rolés no bairro. É que eu tinha essa mania estranha de não querer fazer nada errado, eu não roubava pirulitos, não passava trotes, não tocava campainhas, não mentia para os meus pais. Eu era estranha. Eu não servia pra andar com a turminha. Eu decidi me adaptar.

Minhas primeiras decisões após minha “mudança” foi ser tudo aquilo que as outras crianças eram. Roubei pirulitos no seu João, fui pega. Passei trotes, uma senhora atendeu. Toquei campainhas, levei lição de moral. Menti pra minha mãe, passei uma semana de castigo. Eu não servia pro trabalho. Eu precisava me adaptar.

Aos 10 anos eu finalmente saí da minha escola de bairro, fui pra uma dessas escolas grandes, enormes, que você pensa “como diabos pode ser tão grande?”. Cheguei com minha coleção de cadernos do A bug’s life, meu suco de maracujá, toalha bordada com meu nome, biscoito recheado e carrinho de ferro pra carregar mochila. Tudo muito bom? tudo delicioso? não. “Como assim você não compra lanche na escola?”, “Como assim você não vai pra festa do Lucas Prado (insira aqui um nome qualquer)?”, “você é bv?”. Sim, eu era bv, eu não dava a mínima pro Lucas qualquercoisa e eu era feliz levando lanche pra escola, mas eu estava errada. Mais uma vez eu estava errada. Eu precisava me adaptar.

Cansada de ser alvo de piadas, eu subia todos os dias ao quinto andar (sério) pra poder comer em paz e ler. Já com as pernas doloridas daquele trajeto todos os dias, eu me determinei, vou ser igual. Pensei em tudo, eu iria até o tão amedrontador pátio, cearia com os inimigos, falaria do assunto da moda, me fantasiaria deles, seria igual.

No dia seguinte, com palpitações no peito, desci até o pátio com o dinheiro para o lanche. Comprei o que queria, vaguei por um tempo, me encostei por alí, até que alguém falou comigo. A pessoa foi simpática, me chamou pra ficar por perto, disse que eu fosse até o corredor B que era lá onde a galera se reunia após o fim da aula depois de comprar uma coxinha sem graça. Fui. Esperei. Após os intermináveis 40 minutos eu percebi que havia sido alvo de uma pegadinha. Saí com minha mochila nas costas, pois não havia levado o carrinho de ferro, e parti para meu doce lar. Em partes agradecendo, em partes me dando conta que eu não servia pro trabalho.

Aos 13, após anos de reclusão, mudei de escola. Uma dessas escolas que elevam as expectativas em você ao nível estratosférico. Responda rápido quanto é a velocidade da luz, qual a raiz quadrada de 656626959, qual a velocidade que o móvel quando encontrado com o carro vai virar uma cômoda. Várias perguntas que eu nunca dei a mínima. Quando vão desenhar? quando vão interpretar? quando eu posso debater Machado ou escrever minha própria história? só depois de aprender o que são briófitas e probabilidade.

Após perceber que minha imaginação não me levaria à lugar algum por ali, resolvi me adaptar. Estudei mais do que meu corpo aguentava. Virei noites. Entrei em cursos, em aulas particulares. Eu fiz o diabo que se faz quando a gente decide que a média 7.5 define quem você é. Eu fiz o diabo pra ser advogada ou médica ou cientista da NASA. Me dei bem em A, em B, em C, mas em M, aquele M, aquela coisa chamada matemática não tinha sido feita pra mim, ou eu pra ela. Minha imaginação não me servia naquele lugar, eu não servia pro trabalho.

Aos 18 eu continuava bem estranha, logo descobri que os carinhas não gostavam de meninas estranhas. Se eu não saía de casa eu não fazia amigos. Resolvi mudar, resolvi me adaptar. Passei a caçar todas as festas da cidade, passei a falar menos sobre tudo que me interessava, “ninguém faz amizade com chatos”, “nenhum cara gosta de meninas chatas”. Eu não ia problematizar. Eu estava proibida por mim. Eu precisava me adaptar.

E assim passou mês, assim completou um ano, assim eu esquecia de mim. Foi assim que eu passei a fazer tudo aquilo que jamais faria, não eu, a verdadeira eu, só o ser que se fundiu no mundo, o ser que o mundo criou. Comecei a me sentir mal, a ter crises de identidade, de vida, de ansiedade. Quem era eu? mais uma vez eu vi que não servia pro trabalho. Eu precisava mesmo me adaptar?

Aos 25 eu já havia encontrado minhas partes perdidas, um bracinho aqui, um dedinho acolá (eu não tenho um texto desse?), mas não sabia se eu já tinha realmente consciência de mim, de quem eu preciso ser nesse mundo. Eu precisava me adaptar. Eu precisava me adaptar? eu precisava me adaptar. Eu precisava me adaptar?

Mas o mundo adulto não te espera problematizar de graça, as contas chegam e mais uma vez você precisa se adaptar. Você se rende ao casamento morno, aos amigos que não tem mais nada de parecido com o seus pensamentos, você se rende ao trabalho que nunca quis. Vai aceitando, vai dizendo que o sistema te engoliu.

Foi assim que mais uma vez eu pensei: preciso me adaptar. Fazia o que não queria, ganhava o que não queria e deixava meus sonhos cada vez mais pra trás. Não era pra ser, era sonho demais, eu tenho sorte de ter isso aqui, “as coisas estão difíceis pra quem tem, imagina pra quem não tem”. Você se dedica, você aceita, você envelhece, você esquece? Não. Foi assim que eu descobri que eu não servia para o trabalho, mas que dessa vez, apesar de qualquer custo eu jamais iria me adaptar.

Descobri que se tudo que você é, se tudo que você tem é o bizarro, se tudo que você almeja é mergulhar fundo em cada saída para o bar com seus amigos, não mergulhe raso por ninguém. Fale, discuta, viaje, grite, sonhe, realize, faça das tripas coração. Encontre as fossas abissais, encontre a pérola rosa, vá fundo, mas tão fundo, que tudo vai conseguir pensar é: fuckyeah, eu sirvo pra esse trabalho.

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