Preciso me adaptar.

Jana Maia
Jana Maia
Feb 24, 2017 · 5 min read

Eu me adaptei. Aos oito anos eu era estranha, bizarra, não sabia, só sentia. Quem cresceu na década de 90 sabe o quanto as referências eram lentas, tudo que tínhamos eram livros, filmes, revistas, canais abertos na tevê e a turma do bairro. Essa foi a minha infância. A gente não se cobrava muito, as expectativas eram baixas, mas a gente sempre tentava se encaixar.

Eu gostava de ler embaixo da cama, passeava com a minha avó, meu programa favorito era o jornal, com o meu avô, e tinha uma boa relação com a minha mãe. Além disso, eu cultivava uma única melhor amiga, frequentava a escola do bairro e passava a maior parte do meu tempo com a minha família.

Aos nove anos, descobri que a “mania de contar tudo para a mamãe” me levava a ser excluída das muitos saídas da turma pelo bairro. É que eu tinha essa mania estranha de não querer fazer nada errado; não roubava pirulitos, não passava trotes, não tocava campainhas, não mentia para os meus pais. Eu era estranha. Eu não servia pra andar com a turminha. Eu decidi me adaptar.

Minhas primeiras decisões após a tal “mudança” foi “me tornar tudo aquilo que as outras crianças são”. Roubei pirulitos no seu João, fui pega. Passei trotes, uma senhora atendeu. Toquei campainhas, levei lições de moral. Menti para minha mãe, passei uma semana de castigo. Eu não servia pro trabalho. Eu precisava me adaptar.

Aos dez anos eu finalmente saí da escolinha de bairro, fui pra uma dessas escolas grandes, enormes, nas quais você pensa “como diabos pode ser tão grande?”. Adentrei os portões com minha coleção de cadernos A bug’s life, um suco de maracujá delicioso, uma toalha bordada com meu nome, um biscoito recheado e a mochila de carrinho. Tudo muito bom? Tudo delicioso? Não. “Como assim você não compra lanche na escola?”, “como assim você não vai para a festa do Lucas Prado (insira aqui um nome qualquer)?”, “você é BV?”. Sim, eu era BV, eu não dava a mínima pro Lucas qualquercoisa e era feliz levando meu suco pra escola, mas eu estava errada. Mais uma vez eu estava errada. Eu precisava me adaptar.

Cansada de ser alvo de piadas, eu subia todos os dias ao quinto andar (sério) pra poder comer em paz, e ler. Já com as pernas doloridas do trajeto de todos os dias, eu me determinei, “ a partir de hoje vou ser igual”. Pensei em tudo, ar qui te tei, eu iria até o tão amedrontador pátio, cearia com os inimigos, falaria sobre o assunto da moda, me fantasiaria deles, seria igual.

No dia seguinte, sentindo palpitações no peito, desci até o pátio com o dinheiro para o lanche, comprei, vaguei por um tempo, me encostei na parede da cantina, até que alguém falou comigo. A pessoa foi simpática, me chamou pra ficar por perto, bateu um papo por uns minutos e logo me alertou que eu fosse para o corredor B, pois lá era o local que a “galera” se reunia após o fim da aula. Após comprar uma coxinha pálida, fui.

Esperei. Finalmente estava dando certo pra mim.

Após intermináveis 40 minutos percebi que havia sido alvo de uma pegadinha. Saí com minha mochila nas costas, pois logo naquele dia havia me obrigado a não levar o carrinho de ferro, e parti para meu doce lar, carregando uma mochila e um coração pesado. Em partes agradecendo, em partes me dando conta que eu não servia pro trabalho.

Aos treze, após anos de reclusão, mudei de escola. Uma dessas escolas que elevam as expectativas do seu desempenho a nível estratosférico. “Responda rápido quanto é a velocidade da luz”, “Qual a raiz quadrada de 656626959”, “Qual a velocidade que o móvel A quando encontrado com o carro B vai virar uma cômoda?”. Várias perguntas que eu realmente nunca entendi nem dei a mínima. Quando vão desenhar? Quando vão interpretar? Quando eu posso debater Machado ou escrever minha própria história? Só depois de aprender o que são briófitas e probabilidade.

Após perceber que minha prolongada imaginação não me levaria a lugar algum por ali, resolvi me adaptar. Estudei mais do que meu corpo aguentava. Virei noites. Entrei em cursos, em aulas particulares. Eu fiz o diabo que se faz quando a gente decide que a média 7.5 define quem você é. Eu fiz o diabo pra ser advogada ou médica ou cientista da NASA. Me dei bem em A, em B, em C, mas, em M, aquele M, aquela coisa chamada matemática não tinha sido feita pra mim, ou eu pra ela. Minha imaginação não me servia naquele lugar, eu não servia pro trabalho.

Aos dezoito, eu continuava bem estranha, logo descobri que os carinhas “não gostam de meninas estranhas” (?). Se eu não saía de casa, não fazia amigos. Resolvi mudar, resolvi me adaptar. Passei a caçar todas as festas da cidade, passei a falar menos sobre tudo que me interessava, “ninguém faz amizade com chatos”, “nenhum cara gosta de meninas chatas”. Eu não deveria problematizar. Eu estava proibida por mim. Eu precisava me adaptar.

E assim passou mês, meses, completou ano, e assim eu esquecia de mim. Foi assim que eu passei a fazer tudo aquilo que jamais faria, não eu, a verdadeira eu, só o ser que se fundiu no mundo, o ser que o mundo criou. Comecei a me sentir mal, a ter crises de identidade, de vida, de ansiedade. Quem era eu?

Mais uma vez eu notei que não servia pro trabalho. Eu precisava mesmo me adaptar?

Aos vinte e cinco eu já havia encontrado minhas partes perdidas, um bracinho aqui, um dedinho acolá (eu já não escrevi um texto desse?), mas não sabia se já possuía realmente a consciência de mim, de quem eu preciso ser nesse mundo.

Eu precisava me adaptar. Eu precisava me adaptar? Eu precisava me adaptar. Eu precisava me adaptar?

Mas o mundo não te espera problematizar de graça, as contas chegam e mais uma vez você precisa se adaptar. Você se rende ao casamento morno, aos amigos que não tem mais nada em comum, você se rende ao trabalho que nunca quis. Vai aceitando, vai dizendo que o sistema te engoliu. Que é normal.

Foi assim que mais uma vez eu pensei: preciso me adaptar. Fazia o que não queria, ganhava o que não queria e deixava meus sonhos cada vez mais pra trás. “Não era pra ser”, “Era sonho demais”, “Eu tenho sorte de ter isso aqui”, “As coisas estão difíceis pra quem tem, imagina pra quem não tem”. Você se dedica, você aceita, você envelhece, você esquece? Não.

Foi assim que eu descobri que eu não servia para o trabalho, mas que dessa vez, apesar de qualquer custo, eu jamais iria me adaptar.

Descobri. E te digo que se tudo que você é, se tudo que você tem é o bizarro, se ame. Se tudo que você almeja é mergulhar fundo em cada saída pro bar com seus amigos, não mergulhe raso por ninguém. Fale, discuta, viaje, grite, sonhe, realize, faça das tripas coração. Encontre as fossas abissais, encontre a pérola rosa, vá fundo, mas tão fundo, que tudo vai conseguir pensar é: fuckyeah, eu sirvo pra esse trabalho.

    Jana Maia

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    Jana Maia

    Journalist | Dreamer | BR

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