Lembranças de um dia que não voltará jamais (este post é sobre soft skills)

Jana Ramos
Sep 3, 2018 · 12 min read

O incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro me fez refletir sobre o dia em que uma escola de samba me ensinou de maneira amarga a ter mais humildade, menos preconceito, crenças limitantes e babaquice.


2 de setembro de 2018: um dia trágico para a cultura do Brasil e do mundo, 200 anos de história se transformaram em cinzas no Rio de Janeiro.
O incêndio no Museu Nacional é a perda inestimável de um acervo com mais de 20 milhões de itens históricos, conforme relata o site da BBC News:

“Entre os itens provavelmente destruídos pelo fogo está o fóssil mais antigo encontrado no Brasil, achado em 1974 e batizado de Luzia.

Nas coleções de paleontologia, havia o Maxakalisaurus topai, dinossauro encontrado em Minas Gerais, o primeiro de grande porte a ser montado no Brasil.

O acervo de etnologia tinha artefatos da cultura indígena, como objetos raros do povo Tikuna, e afro-brasileira, além de itens de culturas do Pacífico.
Havia pelo menos 1.800 artefatos de civilizações ameríndias da era pré-colombiana.

Outros destaques eram coleções de objetos de arte italiana, etrusca, greco-romanos e de artefatos egípcios, como múmias e sarcófagos.
O primeiro colaborador dessa área foi justamente Dom Pedro I, que deu parte de seu acervo ao museu.

Outro item histórico era meteorito Benderó, encontrado em 1794 em Monte Santo (BA). Ele estava na instituição desde 1888.

Outra raridade era o trono de Daomé, rei africano Adandozan (1718–1818), doado pelos embaixadores do rei ao príncipe regente D. João VI, em 1811.

Na época da inauguração, quando o local ainda se chamava “Museu Real”, Dom Pedro I escreveu que o objetivo era “propagar os conhecimentos e estudos das ciências naturais no Reino do Brasil”.

Para a doutora em antropologia Alba Zaluar, que estudou no museu, o incêndio é “uma imensa tragédia para o Brasil e para o mundo”.

“O que dizer desse museu que mal conheço e já considero pakas”

Estava nos meus planos visitar o museu, conhecer de perto e entender as referências que escuto há meses num samba enredo em sua homenagem, um dos mais lindos e ricos que já ouvi.

Em 2018 a escola de samba Imperatriz Leopoldinense levou para a Marquês de Sapucaí 200 anos de história:
“Uma Noite Real No Museu Nacional”.

Por (infeliz) coincidência, esse desfile sobre o bicentenário do museu me ensinou de maneira amarga a aproveitar os “dias que não voltarão jamais”.

Foi impossível não lembrar dessa história com o lamentável incêndio que ocorreu, e como acredito que “dói menos quando queima na carne dos outros”, vou contar esse acontecimento da minha vida e quem sabe ele servirá de insight pra você não precisar aprender certas coisas da maneira que aconteceu comigo.

O dia que não voltará jamais

12 de fevereiro de 2018: meu primeiro carnaval no Rio de Janeiro, dia em que chorei e senti remorso por ter perdido um lindo desfile na Sapucaí, numa combinação desastrosa entre preconceito e babaquice, que resultou num dos maiores arrependimentos da minha vida.

Eu estava na Sapucaí e fiz questão de não assistir ao desfile da Imperatriz Leopoldinense sobre o Museu Nacional.

“Não sou obrigada”, foi o que pensei.

Antes de contar o ocorrido, vou contextualizar o cenário:

Sempre fui muito fã de escolas de samba, desde pequena a família inteira acompanha a Gaviões da Fiel; Conforme fui crescendo, desenvolvi um apreço muito grande por arte, design, música, percussão, literatura, que me fez ter outro olhar a respeito dos desfiles: percebi que era simplesmente o maior espetáculo audiovisual do planeta Terra.

São muitas artes envolvidas, além das que citei acima: dança, coreografia, cenografia, figurino, poesia, história, mitologia — os enredos são muito ricos e complexos, cheios de referências, cultura e detalhes.

A maneira como a história é desenvolvida e contada, um storytelling fantástico composto por diferentes manifestações artísticas.

Pra quem gosta de criatividade, é um prato cheio.

Além do fator arte, me encanta o fator comunidade, porque os integrantes de uma escola trabalham arduamente o ano inteiro para colocar na avenida menos de 2 horas de espetáculo, o resultado de todo trabalho, mostrar para o mundo inteiro algo que encanta a todos e que nenhum país consegue fazer.

Feito por comunidade e paixão

Quando digo trabalho árduo, não é sentado num escritório de startup com ar condicionado e redbull até de madrugada criando campanhas online e ouvindo Spotify kkk

É virar várias noites dentro de um barracão cheirando resina, no calor do Rio de Janeiro, aquele barulho de martelo, solda, aquela confusão e gritaria o dia inteiro, centenas de pessoas em diferentes funções correndo contra o tempo pra tudo acontecer.

Todos os dias, por vários meses seguidos. Tenso né?

Agora imagine que a maior parte das pessoas envolvidas no projeto não recebe salário, se dedicam “apenas” por amor á escola e comunidade.

Talvez nem todos saibam, mas comunidades são pobres, de pessoas muito humildes e carentes, onde muitas vezes lhes falta o básico, por isso as escolas desenvolvem projetos sociais de variados tipos para acolher essas pessoas, ou seja, elas não tem recursos e ainda assim se dedicam brutalmente a um trabalho “infernal” sem remuneração, em prol de uma conquista, do amor e do espetáculo — como disse Joãozinho Trinta em seu antológico enredo de 1989, Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia:

“Sou na vida um mendigo, na folia eu sou rei”, em que cobriu a Sapucaí de lixo, mendigos, maltrapilhos, entulhos, numa dura crítica á sociedade.

Você já deve ter ouvido falar sobre o polêmico Cristo Redentor mendigo que o carnavalesco tentou levar para a avenida, foi proibido pela igreja, então teve a brilhante ideia de cobrir a alegoria e inserir uma placa que consagrou seu desfile:

“Mesmo proibido, olhai por nós”

https://youtu.be/BJp5xMEcwsU

O ponto aqui é: as pessoas fazem isso, pois preenche de significado a vida delas, é o propósito, pessoas tão sofridas no dia a dia, que tem pouco reconhecimento da sociedade, mas que podem uma vez por ano brilhar, fazer parte de algo épico e grandioso, sentir orgulho de pertencer, trabalhar, ver o resultado do seu suor sendo admirado e fotografado por milhares de pessoas no mundo inteiro.

Muito massa né? Talvez essa sensação realmente valha mais do que dinheiro.

Tente imaginar propor isso na sua startup ou empresa, fala que estão sem recursos e se as pessoas podem trabalhar pra você por amor e propósito, sem receber nada, "se matando" sem dormir e comendo mal por vários meses seguidos e o que você vai ver é uma debandada, só sobrará você mesmo para apagar a luz kkk Isso para ilustrar como é forte, iluminado e poderoso esse engajamento que as escolas de samba conseguem ter.

Isso eu admiro demais, a força, garra e luta de uma comunidade.

O maior espetáculo audiovisual do planeta feito por comunidades carentes e pessoas que muitas vezes não recebem salário S2

Voltemos a ele.

Era o segundo dia de desfiles das escolas do Rio, eu estava realizando um sonho de mais de 10 anos: ver a Beija-Flor de Nilópolis ao vivo: a escola mais luxuosa, campeã e soberana, conhecida como rolo compressor da avenida :)

“Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu"

Eu fui porque o enredo era maravilhoso, uma crítica ao Brasil no estilo Joãozinho Trinta, uma crítica ao abandono da população brasileira, corrupção, violência, á pátria amada que renega seus filhos, á fé em troca de dinheiro, enfim, a Beija-Flor abandonaria seu tradicional luxo para mais uma vez colocar os dedos nas feridas sociais e claro, lacrar.

Eu fui pra ver a Beija-Flor lacrar e ser campeã, tinha certeza que era o samba mais perfeito que a Sapucaí veria em anos e estava cansada de assistir a história acontecer pela televisão, no conforto do meu lar, sempre me perguntando:

“Por que eu não fui? Queria estar lá, eu poderia ter ido” :/

Aconteceu isso em 2007, 2008, 2011 e 2015; eu não perderia outra oportunidade de ver ao vivo um desfile (claramente) campeão.

Bom, nessa parte eu realmente acertei, o samba trouxe o 14º título e o desfile da escola terminou de maneira antológica com mais de 70 mil pessoas invadindo a avenida e cantando á capela:

“Estenda a mão, meu Senhor
Pois não entendo tua fé
Se ofereces com amor
Me alimento de axé
Me chamas tanto de irmão
E me abandonas ao léu
Troca um pedaço de pão
Por um pedaço de céu

Ganância veste terno e gravata
Onde a esperança sucumbiu
Vejo a liberdade aprisionada
Teu livro eu não sei ler, Brasil!

Mas o samba faz essa dor dentro do peito ir embora
Feito um arrastão de alegria e emoção, o pranto rola
Meu canto é resistência no ecoar de um tambor
Vem ver brilhar mais um menino que você abandonou

Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na Beija-Flor”

https://youtu.be/c_fNlfiT4sc

O bullying que sofri do destino

A Imperatriz Leopoldinense entrou na avenida antes da Beija-Flor.

Eu não conheço muito sobre eles, apenas tinha um enorme preconceito — pasme - com o nome da escola! Desde pequena quando escutava a apuração das notas pelo rádio enquanto voltava do Guarujá, me incomodava com a sonoridade do nome. Sim, era apenas isso, eu sentia incômodo a respeito do nome da escola. Do mesmo modo gratuito que sentia carinho pelo nome "Salgueiro"… vai entender ?!

Quando começou o desfile, pensei:

“Afz, que ironia o desfile dessa escola chata ser bem antes da Beija-Flor, é o destino me obrigando a ver isso — bem ao estilo Jung: “Aquilo que você resiste, persiste” — então retruquei mentalmente:

“Me recuso a assistir, me poupe, vou sair da arquibancada, vou comer, comprar redbull de açaí, tentar me concentrar e me acalmar pro desfile da Beija-Flor — estava muito nervosa, emocionada e impactada com a grandiosidade do evento, precisava baixar a euforia para aproveitar ao máximo minha escola querida.

Enquanto caminhava pelos bastidores, conseguia escutar o samba, claro, é muito alto tudo — e confesso que achei agradável a melodia, apesar de não conseguir entender a letra, o que estava sendo cantado.

Em certo momento consegui escutar a frase: “aluguei de uma mulher, aluguei de uma mulher” — kkkk pensei:

“Jesus, que escola zuada, o samba fala que alguém alugou algo de uma mulher, é isso?!” — e logo após consegui ouvir:

“A brisa… a brisa me levou para o Egito…” — e continuei pensando:

“A única brisa aqui é a do compositor, que alugou algo de uma mulher no Egito, por mim nem precisa mais voltar” huahua

Dei boas risadas ás custas da escola que eu não estava vendo — não estava entendendo — e ao invés de assistir e me permitir, viver e curtir o momento, tentar me surpreender, perder o preconceito, eu fiquei mais de 1 hora do lado de fora; Quando ví no telão que finalmente estava saindo a bateria do recuo, o desfile estava acabando, voltei para acompanhar a entrada da minha querida nilopolitana.

O desfile da Soberana acabou junto com o carnaval do Rio de Janeiro, fui direto para o aeroporto, faltavam algumas horas pro voo, sentei no Starbucks do Santos Dumont e a primeira coisa que veio na minha cabeça foi:

“Aluguei de uma mulher, aluguei de uma mulher… a brisa… a brisa me levou para o Egito…”

Sim, o enredo do aluguel da Imperatriz Leopoldinense tinha grudado igual chiclete na minha cabeça — como era possível? Eu acabara de testemunhar uma apresentação épica da Beija-Flor e ao invés de estar cantarolando a poesia interpretada pelo Neguinho…

“Já é demais pra mim essa pegadinha do inconsciente.
Quer saber, vou escutar esse raio desse samba pra entender que aluguel é esse”.

Fui pro youtube e para minha surpresa, não havia aluguel nenhum e a única brisa foi a minha, pois na primeira vez que escutei o samba deles lendo a letra, comecei a chorar em plena cafeteria as 7 horas da manhã de uma terça-feira de carnaval — e assim fiquei até as 10 hrs — carregando o celular, ouvindo o samba em looping, chorando e pensando que eu era a pessoa mais imbecil do mundo.

O samba da Imperatriz era uma emocionante homenagem ao Museu Nacional, para comemorar 200 anos de existência — fazia um paralelo com o filme “Uma noite no museu”- era simplesmente uma das canções mais lindas que eu já havia escutado — a melodia era maravilhosa, a letra cheia de poesia — fiquei constrangida quando ouvi, lí e entendi o que era a suposta parte do aluguel da mulher — alvo das minhas piadas e deboche mental:

“Voa tiê, tucano e arara
Quero-quero ver onça pintada
Os tambores ressoaram, era um ritual de fé
Para o rei de Daomé
Para o rei de Daomé”

Pois é… o que julguei ser “aluguei de uma mulher”, era na verdade "um ritual de fé, para o rei de Daomé"

E a parte da brisa? Era outro trecho de linda letra e melodia:

“A brisa me levou para o Egito
Onde um solfejo lindo da cantora de Amon
Ecoa sob a lua e o sereno
Perfumando a deusa vênus sem jamais sair do tom”

Era a história e acervo do Museu Nacional, repleta de referências, mitologias, cultura, harmonia, poesia, bateria, tudo que eu amava numa escola de samba.

Voltei pra SP escutando, até decorar, e pro destino jogar a última pá de cal na minha lição de humildade e "abertura de coração", a primeira coisa que fiz ao chegar em casa, depois de um cansativo bate e volta, foi entrar no youtube e assistir ao desfile completo da Imperatriz Leopoldinense kkk

https://youtu.be/g9AytWXyxDk

Fiquei horas na frente do computador assistindo e me emocionando com uma gravação transmitida pela Rede Globo, com aqueles repórteres mega animados que ficam entrevistando pessoas aleatórias na arquibancada ao invés de apenas mostrar o desfile.

Tendo que lidar com o fato de que eles não param 1 segundo de falar e a gente não consegue escutar as paradinhas da bateria.

Ou o fato de que a repórter parece ficar torcendo para o carro alegórico ter problemas e ela conseguir emplacar uma tensão no espetáculo — mesmo sendo um desfile de carnaval e não o programa do Datena kkk

Pois é, eu estava tendo a pior experiência para assistir a um conteúdo que rejeitei horas antes — evitei uma experiência maravilhosa e provavelmente inesquecível, por puro preconceito e como eu disse, uma alta dose de babaquice.

Cheguei a prometer para mim mesma que se a Imperatriz fosse para o Desfile das Campeãs, eu iria de novo para o Rio de Janeiro — dessa vez para me redimir com essa escola e com o destino: “vejo as campeãs e ainda visito o museu nacional…”

Infelizmente ela terminou em 8º lugar, não ficou entre as campeãs, eu não fui para o Rio de Janeiro; Escuto quase todos os dias esse samba, sempre lembro disso por alguns segundos, principalmente durante o trecho que a música fala:

“O canto da cigarra em sintonia
Relembrou aqueles dias que não voltarão jamais”

A Imperatriz — e o destino — me ensinaram a nunca mais deixar de viver um possível momento inesquecível por preconceito, crenças limitantes e babaquice.

Eu estava certa quanto á Beija-Flor ser campeã, mas o Jung estava mais certo ainda sobre “aquilo que você resiste, persiste”.

Hoje restam apenas cinzas e lembranças.
“Imperatriz é o relicário no bicentenário do Museu Nacional”.

https://youtu.be/m0vY2fNHYGM

"Gira coroa da majestade
Samba de verdade, identidade cultural
Imperatriz é o relicário
No bicentenário do Museu Nacional

Onde a musa inspira a poesia
A cultura irradia o cantar da Imperatriz
É um palácio, emoldura a beleza
Abrigou a realeza, patrimônio é raiz

Que germinou e floresceu na colina
A obra-prima viu o meu Brasil nascer
No anoitecer dizem que tudo ganha vida
Paisagem colorida deslumbrante de viver

Bailam meteoros e planetas
Dinossauros, borboletas
Brilham os cristais
O canto da cigarra em sintonia
Relembrou aqueles dias que não voltarão jamais

Voa tiê, tucano e arara
Quero-quero ver onça pintada
Os tambores ressoaram, era um ritual de fé
Para o rei de Daomé
Para o rei de Daomé

A brisa me levou para o Egito
Onde um solfejo lindo da cantora de Amon
Ecoa sob a lua e o sereno
Perfumando a deusa vênus sem jamais sair do tom

Marajó, Carajá, Bororó
Em cada canto um herdeiro de Luzia
Flautas de chimus e incas
Sopram pelas grimpas linda melodia

A luz dourada do amanhecer
As princesas deixam o jardim
Os portões se abrem pro lazer

Pipas ganham ares
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Decretam que a Quinta é pra você"

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