A síndrome de Simba

Ontem, trombei nas redes sociais com imagens de um helicóptero carregando cimento para a construção de uma suposta mansão no meio de uma reserva ambiental no Ceará. Atribui-se a obra ao ex-ministro Cid Gomes.

Hoje, deparo-me com a notícia do maior (ou mais conhecido?) esquema de desmatamento da Amazônia operado diretamente de um escritório de fachada no luxuoso bairro de Jardins, São Paulo, pelo filho de um rico pecuarista. Basicamente, não contente com a própria quantidade de terras da família, que de certo devem ser a perder de vista, o grileiro de classe média alta de São Paulo resolveu invadir, devastar, queimar e meter boi em um território do outro lado do país que, aliás, até dono tinha: os índios Kaiapó (responsáveis pela denúncia).

Ambos os casos me remeteram à cena do filme O Rei Leão em que Mufasa mostra a Simba todas as Terras do Reino, que são tudo aquilo que o sol toca.

Terra pra caramba.

Bem pedagógico, Mufasa explica ainda que o tempo de um reinado se levanta e se põe como o sol, logo, Simba assumirá tudo aquilo um dia. É tipo o trono a ser herdado pelo Príncipe William, do Reino Unido, que abrange os reinos de Antígua e Barbuda, Austrália, Bahamas, Barbados, Belize, Canadá, Granada (país), Jamaica, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Santa Lúcia Santa Lúcia, São Cristóvão e Nevis, São Vicente e Granadinas, Reino Unido e Tuvalu.

Já Simba, que parece achar pouco aquela imensidão, questiona (por curiosidade ou quiçá avidez) sobre uma área imersa na escuridão. Se tivesse escutado direito, entenderia que 1) o sol toca? Não toca. 2) Então é nossa? Não, não é. Em miúdos, está fora do alcance do Reino, mas Mufasa, pai e filósofo paciente que era, explicita o óbvio sem deixar de advertir a cria de pronto para que não vá até lá meter o bedelho.

Simba ouve? Não. Nem ele, nem tanta outra gente poderosa, nem muito filho de gente poderosa nenhum demonstra estar satisfeito com o que tem. Tenho minhas dúvidas se os pais de certos políticos, donos ou apresentadores de canais de TV também deram o mesmo conselho de Mufasa à sua prole. Temo que não.

De contrário, as manchetes do dia a dia não sinalizariam em uma base sistemática que uma grande maioria do alto da pirâmide tem se saído muitíssimo bem no loop eterno que Eva deixou em nossas vidas, isto é, ir ter com o proibido - não obstante todos os alardes para evitá-lo. O resultado, todo mundo já sabe. Provoca-se a morte precoce de um líder amado ou vai parar na cadeia por grilagem.

Por isso e muito mais penso que o Simba do filme e tantos outros da vida real não têm noção da vastidão dos seus domínios, os quais talvez sequer haverá tempo de percorrer por completo antes de seu próprio filho tomar seu lugar. Se têm, brincam de Ícaros no sentido de não poupar esforços para pôr as mãos naquilo que, em tese, foge da sua alçada. O que querem, parece, é apenas dizer que é seu.

Alguns vão chamar simplesmente de olho grande. Eu diria que é uma síndrome.

Ou qual é o nome da doença que sofre quem constrói mansão em Parati, às margens do Lago Paranoá, Sobral, Angra dos Reis, enfim, locais que não lhe pertencem?