De Hadamar à Barbacena

Esta semana, chega-me a notícia da ordem do prefeito de São Paulo de desocupar a área da Cracolândia, redirecionando seus habitantes, involuntária e compulsoriamente, para locais de “reabilitação”. Este episódio me lembrou de duas experiências pessoais, há quase dois anos:

Na minha primeira eatadia na Alemanha, visitei Hadamar, hoje um memorial onde outrora fora um dos centros (total de 11, se não me engano) de eutanásia de portadores de necessidades especiais durante a dominação nazista.

Eles eram considerados improdutivos e, “como se não bastasse”, segundo o governo, geravam altos custos, daí a razão do seu extermínio.

Eram levados sob a desculpa de um tratamento, mas nunca mais retornavam às suas casas. Estive em uma das câmeras de gás, de onde eles não saíram vivos. Alguns eram cadeirantes ou cegos, isto é, gozavam de plena saúde mental, portanto, tinham consciência de onde e porque estavam ali. Só em Hadamar, foram 15 mil.

O que ocorria era uma das formas de higienização do governo à época, ali sob o nariz da sociedade.

É claro que muitas pessoas sabiam o destino daqueles PNEs, afinal, seu sumiço era sistemático. O governo, explicava a guia, era cuidadoso em relação a isso. De quando em quando, mudava um dos centros de lugar; o carro que buscava as vítimas era disfarçado… Do processo participavam profissionais de saúde voluntários. Eles acreditavam estar fazendo um bem para a humanidade.

De volta ao Brasil, em 2015, caiu em minhas mãos um livro sobre o Holocausto Brasileiro que, como a escravidão, é um assunto pouco discutido, por vezes considerado tabu.

Trata a obra do aprisionamento à força e genocídio de 60 MIL pessoas — consideradas fora das suas faculdades mentais (logo, não fariam falta à humanidade) no Hospital Colônia de tratamento psiquiátrico de Barbacena, em Minas Gerais.

A verdade é que o local concentrava, em sua grande maioria, todos aqueles e aquelas considerados indesejados pela sociedade: “muitos dos pacientes eram alcoólatras, andarilhos, amantes de políticos, crianças indesejadas, epiléticos, inimigos políticos da elite local, prostitutas, homossexuais, vítimas de estupro e pessoas que simplesmente não se adequavam ao padrão normativo da época, como homens tímidos e mulheres com senso de liderança ou que não desejavam casar-se. Boa parte da população do Hospital Colônia também era da etnia negra”. Para escapar da morte sua ou dos seus bebês, grávidas lambuzavam suas barrigas com fezes. Quem não tinha a mesma sorte (de sobreviver), assim como no holocausto da Alemanha, tinha seus corpos eram destinados a valas sem nome ou vendidos para faculdades de medicina do país inteiro, como indigentes.

Este recorte populacional, com a ressalvo de alguns tipos, claro, parece-me similar ao daqueles em situação de rua hoje no Brasil (e no mundo). Embora nunca tenha pisado meus pés na Cracolândia, suponho que seus habitantes se incluam no grupo. Pergunte a um morador de rua ou um usuário como ele foi parar ali. Eu li um relato essa semana: “uma coisa puxa a outra”, dizia o rapaz, “primeiro desempregado, depois alcoólatra…”, relacionamento abusivo, família desestruturada… Tudo embaixo do nosso nariz.

Vi uma das fotos do antes e depois da Cracolândia após a medida da prefeitura. De fato a limpeza é nítida. Humana e social.

Qualquer semelhança com minhas lembranças, bom, fica por conta da interpretação de cada um/a.

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