Sobre homens e uvas

Matilda era pequena, mas ainda se lembra. Seu programa favorito era a feira de domingo, que ficava bem na região do cais.

Em meio ao rebuliço da carga e descarga de mercadorias, embarque de marinheiro e desembarque de passageiro, tinha pio de gaivota, de compradores e de feirantes. Ela ia com o pai, que não a guiava pela mão, mas a segurava firme pelo punho, temendo que ela acabasse dentro de uma daquelas caixas de frutas com destino a algum país estrangeiro. Se isso de fato acontecesse, ele ficaria como? A ver navios! Tremia só de pensar chegando em casa sem sua Matilda. De certo que sua mulher o botaria para correr debaixo de uma colher de pau, mas não antes de acertá-lo com umas palavras um pouco duras:

“Eu te pedi para trazer um tacho de melado! Essa sua cara não serve!”

Tudo bem que Matilda queria acompanhá-lo no dia do santo descanso para um lungar onde ele só via balbúrdia (ele não sabia que graça ela achava naquilo, afinal ele mesmo estava lá sob ordens de d. Marilda, sua mulher). A única condição era: ela não deveria nunca, nunquinha, entendeu Matilda, eu disse nunca, soltar da mão do papai; quando o papai precisar carregar sacola ou pegar a carteira para pagar alguma coisa, tem que agarrar na perna do papai pro papai saber que a Matildinha não foi posta à venda por causa da sua pele cor de arroz e dos seus olhos feito jabuticaba doce. Então, Matilda só pode ir à feira com o papai se prometer obedecer. Obedecendo, tá tudo bem. Matilda aceitou os termos.

Isso teve desdobramentos inesperados, claro: como tinha as mãos sempre ocupadas ora com Matilda ora com sacolas, além do pensamento longe, querendo ir embora, o pai não tinha condições de apalpar os tomates ou os abacates para verificar se estavam bichado ou tinham algum amassado. Daí quando chegava em casa com um bocado de fruta e legume que não eram do gosto da patroa, lá vinha Marildinha dizer que nem para isso ele prestava. E por que ela mesma, então, não ia praquele diabo de feira? Ora! E quem ia fazer o almoço, lavar os pratos, estender a roupa no varal, arrumar a sala para esperar as visitas dele chegarem? Bom, é verdade, até que essa coisa de feira não é de um todo ruim. Só a parte que Matilda ia agarrada à sua perna, de modo que precisava andar um pouco manco. É claro que a cena rendeu piada entre aquele povo bem humorado para um domingo de manhã: “vai querer coxa ou coxo?”. Fingia que não ouvia, porque não tinha tempo para picuinha.

O importante era não deixar Matilda se desprender dele nem por um minutinho sequer. Nem em sonho! Mas a realidade é outra coisa, né? Foi o que confessou para seus amigos de boteco: em uma dessas vezes, aconteceu de estar pechinchando o quilo da banana quando deu falta daquele corpo miùdo entrelaçado à sua canela. Foi uma questão de segundos, ele jura, entre um gole. No fundo, a gente sabe, esses momentos duram uma eternidade. Em outro gole, ele jura que se sentiu como o peixe na banca ao lado que tinha a barriga cortada de cima a baixo. Podia jurar, mais uma vez, agora beber a gargalo, que sentiu quando a lâmina parou bem ali, no meio da barriga, onde junto com o peixe, todas as suas tripas eram retiradas, uma a uma. Da mesma forma que lhe aconteceria caso desse as caras sem Matilda. Mas a realidade é outra coisa, né? Ele só estava ali vivo para contar porque seus olhos foram parar do outro lado do pátio, a tempo de vislumbrar uma cena que o faria nascer de novo. Era Matilda, indistinguível pelo seu vestido de veludo vermelho, saltitando aqui e acolá, imune àquela agitação. Arre que ela ia ser pisoteada! O pai largou as sacolas e disparou a gritar pelo nome de Matilda, que deu sinal de quem não ouviu, porque seguiu despreocupada. Ele a chamava e nada de Matilda ouvir.

“O coxo agora coaxa”, riu um casal vendedor de ameixas. Que falem! O pai não tinha tempo para essas brincadeiras. A deixa, ele pensou, foi quando Matilda parou em um estande, onde ganhou um naco de tangerina. Ela aceitou. De repente, ela se deparou com um tanto de uvas. Elas eram vermelhas, verdes e roxas; algumas tão roxas que pareciam azuis. Matilda balbuciou alguma coisa, o pai poderia dizer que sim, e, viu quando, diante do aval com a cabeça marrom de sol do dono da banca, ela estendeu a mãozinha em direção às uvas azuizinhas.

E foi aqui que Matilda perdeu a chance de aprender uma grande lição da sua vida: nunca teve a chance de ter contato com as uvas roxas porque o pai a tomou pelo punho antes que conseguisse levar dela à boca. O pai, sem dizer nada, arrastou Matilda pelo pátio, para onde achava que tinha deixado as sacolas. Encurralada, Matilda se sentiu como os cachorrinhos à venda em gaiolas, enquanto chorava sem que ninguém desse bola ou a ouvisse. “O coxo agora coage”, urrou o casal das ameixas. “Pobre menina, só queria uma uvinha! Que tem de mal nisso?”. O pai passou batido por esses comentários; não tinha tempo para mais aborrecimentos.

Por sorte, a dona das bananas havia guardado suas sacolas. Consternada com a criatura a empapuçar de lágrimas a calça do pai, perguntou:

“O que tem a menina?”

“Mania de dar susto no pai. Quanto a senhora vai fazer no quilo da banana?”.

“R$1,13.”

“Feito.”

Pagou, pegou as sacolas, pediu para que Matilda se acalmasse. Senão a mamãe ia perguntar o motivo daquele chororô todo. Ai de nós se ela descobre que Matilda escapou das vistas do papai por um segundo. Um segundinho só, mas que lhe deixou um nó na garganta que sente até hoje.

“Promete que vai parar de chorar?”.

**Soluço, soluço e mais soluço vindo de uma alma genuinamente machucada**

“Matilda! Promete?”

**Espreme os olhos**

“Minha filha, assim não posso mais trazer você!”

**Assoa o nariz, como quem indica que vai engolir o choro**

“Eu só queria uma uvinha! Que mal tem nisso?”, disse Matilda, do alto dos seus cinco anos, com voz embargada e provando que criança espelha tudo que ouve e vê. O pai reconheceu a dor da criança.

“O problema não é a uva, é você sair de perto de mim! Se você quer uva — tudo bem! — mas tem que pedir! Não sair por aí, sem rumo. Já pensou se te pegam e colocam naquela caixa de mangas? Você vai parar lá na Alemanha! Vai ter que comer batata e couve azedo todo dia. É isso que você quer?”

**Leve meneio de cabeça, demonstrando que entraram em um acordo**

“Pois bem. Agora, você quer uva?”

O rosto de Matilda se ilumina com um movimento positivo e frenético. O pai sabe a resposta; é a mesma coisa que perguntar se ela quer uma dose dupla de achocolatado. Ele reage do mesmo jeitinho quando interpelado pelos pares se aceita mais uma cerveja pra saideira. Constatação do fato, segue com ela para a barraca da uva, onde também deve um pedido de desculpas pro cabeça marrom, que os recebe com um grande sorriso.

“Um cacho de uva, por favor”.

“Da verde ou da roxa?”

“Verde.”

“Mas eu quero a roxa”, interrompeu a vozinha.

“E eu quero a verde”.

“Então um da verde e um da roxa?”, confunde-se o vendedor.

“Não, só da verde”.

“Mas, pai…”.

O cabeça marrom pressente algo. Conhece aquele impasse.

“Olha, patrão, não é da minha conta, mas…”

“Não é mesmo, não.”

O vendedor de pele marrom viu quando a menina abaixou os olhos, dando a luta por vencida. Por uma fração de segundo, reconheceu-se nela. Ele mesmo, em muitos anos da sua vida, também abaixou os olhos mais vezes do que gostaria, mas, à esta altura dos seus 71 anos, permitia-se enfrentar sujeitos desse tipo que, mirando bem, era um daqueles que olham gente como ele, de pele marrom, de cima para baixo.

“Não é não, mas o que o senhor tem contra uva roxa?”

“Nada, apenas não gosto.”

“Já experimentou?”

“Não, nunca”.

“Então, como pode dizer que não gosta, seu doutor? Olha, aqui pra nós, elas geralmente são mais doces. Já as verdes, mais azedas…”. E fez um estalo com a língua.

Neste o momento o pai deve ter sofrido um saculejo interno, porque seus olhos trimilicaram, seus lábios balbuciaram e, por fim, Matilda reclamou que ele a estava machucando. De fato, apertava seu pulso com mais firmeza do que o normal. Isto o trouxe de volta ao mundo real.

“Ah! Não tenho tempo para conversa mole! Agora me vê um da verde que quero ir embora”.

O vendedor assim o fez. O pai pagou e eles partiram.

O vendedor de pele maorrom voltou a se recostar à sua cadeira de balanço e começou a cortar um pedaço de cana enquanto observava o pai e a filha se afastarem. Não pôde deixar de notar como ele se esquivava do contato com a multidão, tal qual galinha desesperada para escapar da panela; a diferença é que ele carregava embaixo de sua asa aquela criaturinha, ainda inconsciente deste mundo que nos rodeia. Nem era a primeira vez que ele via esse tipo de coisa, mas parece que seus olhos velhos jamais iam se acostumar. Quem sabe um dia?

“Por que não posso gostar de uvas roxas?”

“De novo essa conversa? Quietinha que vou colocar o cinto.”

“Mas por que não posso gostar de uvas roxas?”.

Ele revirou os olhos. Não tinha escapatória.

“Não é questão de gostar ou não… Gosto é gosto e eu não gosto.”

“Mas como assim a gente não gosta se não prova?”.

Então é verdade aquilo que leu no jornal outro dia: esta é a fase que as crianças mais perguntam — e é cada pergunta! O pior é a parte que a matéria dizia para não deixar as crianças sem resposta, porque elas estão formando sua ideia de mundo. E o que poderia dizer?

Pegou-se olhando-na profundamente, como se estivesse procurando uma resposta dentro dela…. mas não! Ele buscava entender a si mesmo! Então seus olhos se moveram para cima, à direita. Alguma lembrança veio à tona, porque ele soltou um longo suspiro e apertou fundo o acelerador, com o carro ainda desligado:

“Não sei. Seu avô também não gostava e me ensinou que uvas roxas são ruins. Eu acreditei nele assim como você tem que acreditar em mim e seus filhos vão acreditar em você: uvas roxas são ruins e pronto”.

Alguma coisa parece ter feito sentido para Matilda, que passou a associar uvas roxas com coisas feias. Depois daquele domingo, ela sequer quir ir mais ir à feira. No decorrer da sua vida, toda vez que via uma uva roxa, que era obrigada a comer para não fazer desfeita, fechava os olhos e as imaginava verdes — somente assim, perdia o medo de uvas roxas: bastava imaginar uma verde no lugar e — pum!- não havia o que temer.