Ressaca

— Que o corpo sirva e a alma descanse — disse Brásia, pousando o cadáver do filho na areia.

Era a única vivalma na praia da capitania de Aimerê, mas recitar em voz alta as palavras cerimoniais parecia o certo a fazer.

— Vai bem, Valente — sussurrou, sentando-se para acarinhar a testa do filho. Era incrível que estivesse tão gélido, depois de queimar por dias com a febre-da-fuligem que o levara.

Quando a primeira onda lambeu seus pés, os olhos de Valente se abriram, já translúcidos. Olhos de água, como o ser que o tomara.

— Vosmecê cuide bem dele — disse Brásia ao ente, uma última ordem antes de aposentar-se do ofício de mãe. Enxugando as lágrimas no avental, levantou-se para partir.

Doía ver Valente morto, mas doía com mais fundura vê-lo morto junto ao mar. Ali, era fácil imaginar a casca morta de menino trocando os bichos de concha, misturando as cores dos corais e arrumando as pedras do fundo. Mas Brásia queria lembrar de Valente remando as canoas de ibira, ou trepado nas palmeiras, ou espirrando água nos marajázinhos, filhos dos senhores, que o adotavam como guia daquele mundo ensolarado tão logo chegavam de terras longínquas. Terras que ela mesmo abandonara um dia.

Brásia atendera muitos funerais, dos dois lados do oceano, para ainda se impressionar com a possessão. Mas se aprumou quando o corpo disparou até o mar como se puxado pelos pés por cordas invisíveis. Uma única onda servil apagou os rastros na areia, e era como se Valente nunca tivesse estado ali. E para lá jamais voltaria: era o que diziam os médicos, os pajés e também os livros sagrados do Papá.

Por isso, Brásia estacou quando ouviu ruídos atrás de si. Um marulhar errado, depois um fungado tímido que fez os cabelos de sua nuca se arrepiarem. Quando se virou lentamente, Valente estava lá. Flutuando a um palmo do chão, os olhos diáfanos na altura dos seus e as pontas dos pés roçando de leve na areia.

— Volte já! — demandou Brásia, sem pensar, o tom autoritário na voz frustrado pelo tremor da incredulidade. — Vosmecê não pode estar aqui.

E, quando o ser respondeu sorrindo com os lábios de seu filho, tudo o que Brásia teve forças para fazer foi virar as costas e fugir. Enquanto corria em direção às cozinhas do Barão, lembrou das histórias de espíritos viciosos que buscavam corpos não ofertados. Não fiz nada de errado, pensou, saindo da trilha de terra batida para embrenhar-se em um taquaral.

Julgava-se protegida o suficiente para descansar e pensar um pouco quando o corpo de Valente surgiu flutuando por entre bambus, fitando-a com a expressão alheia de quem faz algo sem saber bem o porquê. Brásia estacou, chocada, e deu um passo tentativo para trás. O corpo de Valente oscilou em resposta, aproximando-se devagar.

Brásia bufou e voltou a caminhar. Aquela transgressão não tinha nenhum precedente, e chegar à cozinha acompanhada do corpo de Valente não era uma opção. Olhou para trás: tampouco seria convencer o espírito a ficar. Com a mente mais clara pelo desespero, aproximou-se e empurrou o corpo para baixo até que os pés arroxeados tocassem o chão.

— Pelo menos ande, que me aflige menos — murmurou, sentindo-se febril.

Precisava ganhar tempo. Por isso, quando o odor acre da garapa atingiu suas narinas, resolveu tomar o caminho mais longo que passava pelo engenho, que estaria vazio naquele princípio de manhã. E, entrando no galpão, deu de cara com a solução.

Curiosa, a criatura começou a andar pelo aposento, mexendo nas ferramentas e lambendo com selvageria os restos de açúcar-morega acumulado na usina. Satisfeita com a distração, Brásia agachou-se para pegar do chão um dos facões que usavam na colheita da cana. Pesou-o na mão, depois moveu-o para ver a luz correr ligeira pela lâmina.

Enfim, levantou a arma acima da cabeça e golpeou em cheio um barril próximo, testando a própria resolução. Cachaça-rosa começou a verter do talho, encharcando suas sandálias de couro e empapando a palha e a terra. Ela era capaz. Valente era o barril, o ser era a aguardente. Se o golpeasse da mesma forma, faria o espírito vazar.

Aproximou-se do corpo da criança, que estava debruçado sobre um tachão. Mas antes que pudesse encerrar de vez aquele disparate, ele se virou. A voz de Valente no grito fez o coração de Brásia partir-se em mil pedaços: ali, encolhido no chão, a coisa parecia mais um bichinho acuado do que um espírito divino que saíra das profundezas para lhe atormentar. Era difícil interpretar o que diziam os olhos translúcidos e líquidos, mas pareciam cheios de medo e de apreensão. Foi quando a mente de Brásia se destrancou.

— Um filhote de espírito — sussurrou, deixando de lado o facão.

— Baku — choramingou o ente, tocando o peito de Valente com sua própria mão.

— Brásia — respondeu ela.

— Ba-si-ah — balbuciou Baku, o nome alienígena na voz em que devia soar familiar.

E então a mulher suspirou, mirando o ser vulnerável. Além do bê-á-bá do idioma da capitania, quantas coisas a criatura precisaria aprender até que ela resolvesse o que fazer com ele? O que comer, quem evitar, de quais perigos se proteger…

Mas, antes de mais nada, ela precisaria de um nome mais fácil. Então, pensando em tudo que ainda precisaria ensinar, se apresentou.

— Me chame… “Mãe”.