Você Não é Melhor do que Ninguém

No dia que me contaram que eu estava toda errada eu

fugi. Fugi para meu grupinho de amigos. Lá, lamuriava sobre as críticas injustas que me faziam, carpia sobre os maus tratos que me vitimizavam e todas as injustiças e perseguições que me rodeavam.

"O mundo é mau, fulano é do mal" eu dizia. E fugia para meu jardim encantado regado a egoísmo tutti-frutti e mimo lilás. Um lugar seguro, onde onde não voavam os grandes corvos negros das críticas pessoais.

No meu ninho de dengo não havia má interpretação das minhas condutas, meus erros eram tolerados e, as minhas razões — que, na ocasião, até a mim jaziam submersas — eram entendidas e massageadas ao som de um pianinho que melodiava frases como "você tem razão" e "eu te entendo" repetidamente.
Eu, de alguma forma ou de outra, encontrava aqueles que me diziam o que eu queria ouvir e, de reboque, eu me esmerava em criticar aqueles monstros, incultos, impiedosos que apontavam meus erros. Eu achincalhava seus defeitos, mesmo quando aqueles não tinham qualquer conexão com a situação que me massacrara até então.

"Eu tenho autocrítica, já sei que errei, já pedi desculpas. Eu já pedi desculpas. O que mais você quer!?"

Humilhar e desautorizar os indivíduos que não nos dizem o que queremos ouvir acerca de nós mesmos sobre algo que fizemos, salientar, covardemente, defeitos e limitações de pessoas que não reagem com confetes ao nosso comportamento, não é nada mais do que uma forma de diminuir sinais de alerta sobre nossos desvios de conduta até eles se tornarem faróis invisíveis com o tempo, serem esquecidos e nós mantemos nossa possível ilusão infantilóide da nossa própria vida.

Você não é melhor do que ninguém.

Lamento dizer isso, amigos. Essa afirmação parece óbvia à primeira vista mas a sua aplicação na prática é complexa.
Me lembra de Thomas Hobbes, no seu livro Leviatã, onde ele diz que muito embora o homem acredite que existam outros homens sábios e inteligentes no mundo, dificilmente ele vai acreditar que hajam outros tão eloquentes, inteligentes e sábios do que ele mesmo.

Ou seja, segundo Hobbes, todo homem, lá no fundo, se acha melhor que seu semelhante. Nesse capítulo (Capítulo 13: Sobre a condição natural da humanidade relativamente à sua felicidade e miséria) o autor introduz a frase mais famosa do lembrada do livro: "o homem é o lobo do homem". Entendam como quiserem.

O fato de ninguém ser melhor do que ninguém implica, também, no fato da opinião e sentimentos do outro serem tão importantes quanto os seus, com a diferença de que esses sentimentos e comportamentos, obviamente, não partiram unilateralmente de você ou das suas experiências pessoais.

Ou seja, se uma pessoa diz: "você precisa ser mais pontual", você, ao invés de reagir justificando seu atraso com o congestionamento de 45 minutos que lhe faz atrasar todos os dias, e crer que o criticador está em delírio e é neurótico com horário, feio e bobo, coloque-se no lugar da pessoa e pergunte-se:

  1. Já fiz essa crítica (ou alguma outra parecida) antes?
  2. Se sim, qual foi a minha intenção?
  3. Quereria eu magoar e/ou destruir a vida dessa pessoa?
  4. Conheço-me a mim mesma?

Nem sempre nossas ações, assim como as ações dos nossos semelhantes, são meticulosamente calculadas para arranhar os espelhos íntimos que refletem a imagem que DESEJAMOS ter de nós mesmos ou destruir nossa auto-estima, ou acabar com nosso nível de "alegria de viver" que anda já um pouco baixo, por sinal.

Meus amiguinhos do ninho da Barbie mal sabiam que eles endossavam e cavavam mais fundo a trincheira de auto-delírio atrás da qual eu levava a minha vida e nem percebia.

Eu não notava a caverna infantilóide onde eu via refletida parte da minha consciência individual, na qual eu angariava a minha auto imagem de boa aluna, mulher forte e inteligente que eu sempre me esforcei duramente para cunhar. Bons livros, boas notas, boas escolas, bons empregos. Bibliotecas, bibliotecas.

Ainda amo bibliotecas. Mas, atualmente, desenvolvi a habilidade de me perguntar qual se a crítica é uma projeção alheia ou se realmente é um ponto que eu preciso melhorar na minha forma de interagir com o mundo e comigo mesma. Nesse processo de auto-análise, eu sugiro que a reação e rejeição negativa e emocional à opinião alheia possa não ser a melhor alternativa imediata.

Os seres fora de mim, mesmo que sejam tão desorientados quanto eu, são, sem saber, grandes professores do viver.

Assim, ao invés de retornar para o ninho de tolerância de validação das condutas erráticas, vale a pena exercitar a tolerância e a humildade diante dos próprios erros e usar os criticadores como faróis de orientação para lapidar nossa personalidade.

Reconhecer que o outro como tão importante quanto você, e que, portanto, as opiniões dele são tão importantes quanto as suas, e a vivência pessoal do outro é tão complexa e densa quanto a sua, pode ser uma atitude para lidar com o constrangimento da crítica. É o que faz de uma crítica algo realmente construtivo. Independentemente da natureza do ponto a ser corrigido ou do nível de elegância da opinião alheia.

Conhecendo-nos a nós mesmos individualmente, nos permite mergulhar na verdade íntima e descobrir as intenções reais das nossas ações no mundo, sejam elas positivas ou nem tanto. As pessoas a nossa volta nesse caminho podem ser vistas como faróis nesse processo — hora mais fortes e lúcidos, hora mais fracos e fúteis. Porém, todos servem como substrato para o crescimento interior.

Janaína Correa (Culturaw)

Written by

Passionate about Intangible Heritage, human creations and Intellectual Property

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