Por que Montreal está no pódium do (meu) ranking de cidades mais hospitaleiras do mundo?

Ouvi de um amigo brasileiro que se mudou recentemente para Montreal uma comparação interessante. Para ele, enquanto Nova York é uma puta que suga todas as suas energias, Montreal parece um cara gentil, que te faz o jantar e dorme de conchinha.
Escolhi a cidade em busca de um acampamento de verão para meu filho aperfeiçoar seu inglês e encontrei para mim um quarto dentro de um apartamento pelo AirBnb no bairro hipster, o Plateau Mont Royal. De longe, o Google Maps me mostrava ruas limpas e largas, empenas cegas com grafitti, muitas praças e ruas amigáveis a pedestres. Mas se a cidade é o espelho de seus cidadãos, só quando cheguei eu entendi porque Montreal oferece tudo o que eu gostaria de ver por São Paulo.
Andy, um cubano radicado aqui há 5 anos e colega na Singularity University, me levou a um bar local para falar de tecnologia e smart world. Ele participa do XPrize pelo time do Canadá na corrida pelo desenvolvimento do primeiro avatar capaz de transmitir sensações à distância. Do alto dos seus 32 anos e muito sotaque, já se sente cidadão quebecoi, muito bem pago como fellowna Universidade de Concordia. No dia seguinte, ele foi meu parceiro de dança num lugar parecido com a locação de musical hollywodiano. Percebi logo que aprender a dançar ritmos de outros países é um hábito frequente para eles, como metáfora da política da boa vizinhança, levada ao extremo.
Eu, que de vez em quando caio nas ruas da minha cidade, tive vontade de fotografar a calçada a toda hora. Tem jardim de chuva e esquinas largas para auxiliar a travessia dos pedestres. Tem amarelinha grafitada em muitas esquinas e crianças pulando, sempre que passam sobre elas. Tem água em fontes nos parques para evitar as ilhas de calor, muita árvore de sombra e bebedores públicos. Tem senhoras falando francês comigo como se eu as entendesse, e eu tentando me passar por local, dizendo “oui, je comprendre”. Ver a cidade pelos olhos de quem mora aqui é meu tipo ideal de turismo.
Aprendi a andar de Bixi em Montreal, o sistema de bike compartilhada daqui, e fiquei surpresa com o respeito pelo ciclista, até em avenidas sem ciclovia. Os motoristas deixam uma faixa vaga para você não precisar passar entre dois carros, mesmo na hora do rush. Ninguém faz fiufiu, nem quando o vento teima em bagunçar seus cabelos ou seu figurino para 30 graus. Respeito é tão básico, que deveria ser a norma, não é? Muitos moradores não possuem carro e recorrem ao sistema compartilhado Car2Go que oferece modelos Smart elétricos, carregados em estações espalhadas pela cidade.
Anastasia, minha super host francesa, virou amiga e me convidou para festas em terraços, festivais na prainha daqui e banhos de piscina. Através dela, entendi a diferença entre o francês e o quebecoi, além da rixa amigável que eles mantêm, como paulistas e cariocas. Ela trabalha para a Orquestra de Montreal e atualmente coordena um festival anual que acontecerá agora em agosto e conta com mais de 1400 artistas de música clássica, feito com 80% dos recursos do governo e 20% do patrocínio de marcas. A OSM também oferece concertos gratuitos nos parques daqui durante o verão e se prepara para duas apresentações na Sala São Paulo em outubro. Ana tem só 28 anos, mas me trata como igual e pede às amigas para falarem inglês quando estou junto. Minha anfitriã é amigável, inteligente e acolhedora como Montreal.
Fiz o cálculo agora pelo app do celular e andei cerca de 140km desde que cheguei, fora o que pedalei e percorri de metrô e ônibus. Você realmente não precisa de carro, nem de madrugada. Alguns pais estendem o banco traseiro das bikes para caber dois filhos. A cada esquina tem um bando de crianças de todos os tamanhos, excursionando pela cidade e atravessando as ruas com seus passinhos lentos. Os ônibus são limpos e acessíveis a cadeirantes e carrinhos de bebê gigantes. Todo banheiro público tem sabonete e papel. Parece mágica, mas chama infra-estrutura.
Martin, meu novo amigo quebecoi, me fez experimentar poutine, a comida típica daqui, meio melequenta e nada instagramável, com base de batatas fritas, muito molho, queijo e o que mais você achar que cabe. Foi ele quem me recomendou o Biosphere e me fez entender melhor como Montreal chegou à esse nível de civilidade. Há 50 anos, com a Expo 67, a cidade investiu em transporte, arquitetura e infra-estrutura inovadora para celebrar as principais conquistas do homem na época e atraiu um recorde de 50 milhões de visitantes em 6 meses de evento. Agora já pensam nos próximos 50 anos, convidando 14 escritórios de arquitetura a imaginar soluções urbanas no futuro. De novo deu vontade fotografar todas elas e levar o mesmo desafio aos arquitetos paulistas.
( https://www.youtube.com/watch?v=9Fwzcl1m2Vs&feature=youtu.be)
E bastou duas semanas na cidade para entender o que sinto aqui: pertencimento. Montreal sabe abraçar tão bem seus turistas pelo fato da maioria dos seus cidadãos também já terem sido estrangeiros um dia. Dá até vontade de morar um tempo na cidade, não fosse o inverno tão longo. Seja como for, a hospitalidade dos quebecoi é um exemplo de como construir bridging networkse conviver melhor nas grandes metrópoles. Em tempos duros e extremos, precisamos de cidades amigas, diversas e inclusivas como aqui. Se ainda contar com todo esse charme francês, c’est parfait!
Antes mesmo da viagem terminar, já consigo entender a comparação inicial do meu amigo brasileiro, ou seja, anda difícil me desvencilhar do abraço caloroso que a cidade te dá. Em pouco tempo perambulando sozinha, sinto Montreal como uma anfitriã perfeita e, mal saí daqui, já penso numa desculpa para voltar.
