Contatos imediatos de terceiro grau

Eu tenho pensado bastante sobre nossos últimos contatos, e enquanto escrevo ainda não tenho certeza sobre isso. Mas decidi que é melhor continuarmos afastados. Sei que você não tem me procurado ultimamente — e que é um pouco contraditório, a princípio, eu te procurar para pedir isso — mas se você estiver pensando em falar comigo, estou aqui para desencorajá-lo.

Eu mesma estive ponderando se seria melhor voltar a falar com você aos poucos — não vou negar que às vezes tenho curiosidade em saber como você está — mas a verdade é que no fim não acaba sendo saudável.

Porque depois de cada mensagem milimetricamente cordial e educada, sempre fica uma sombra especulatória, uma ansiedade corrosiva sobre qual vai ser a próxima coisa que você vai me contar.

Aquele símbolo verde traz uma conotação atribuída ainda no passado, evoca a nostalgia de um cotidiano, e de alguma maneira ainda alcança a me ferir: é o que ele representa mas não é.

E, como diria Cortázar, “não é possível que estejamos aqui para não poder ser”.

Contra essa impossibilidade, luta ainda um último e frágil fio de esperança tola, crença sem fé, mas que dói e corrói mais do que qualquer outra tristeza, porque sabe que é possível estarmos aqui para não poder ser.

Porque abraça a mediocridade do presente e não se lança heróica e inutilmente a combater seu passado, tampouco o venera ou persegue; mas congela e teme diante de seu futuro. Por isso, essa esperança, sabidamente inverossímil, precisa ser cortada, por isso ela precisa ser desfeita: não serve a nada, não busca a nada, não mantém nada além de melancolia, impossibilidades e grilhões.