Não aguentamos a verdade*

Uma vez, um amigo disse que aqueles que buscam a realização no amor talvez, lá no fundo, sabem que esse tipo de expectativa está fadada ao fracasso pelas carcomidas da realidade.

Mas eles seguem otimistas e acreditando na probabilidade de dar certo. Acreditam que o amor e por amor tudo suporta, tudo supera, tudo conserta.

Encontram em si ou nos moldes históricos motivação para levar a diante sua luta altruísta e misericordiosa. A entrega plena e servil correspondida, injustamente, pela metade. O medo covarde de quem prefere mentir para si mesmo.

Ciclos e ciclos com o mesmo ponto de quebra, e ainda assim, aguentam — repetem — tudo isso em nome de um ideal automatizado.

Contudo, o problema de nós, céticos, é justamente o contrário: a experiência e a história mostra que tal ideal não dá certo, e com essa mente entramos em um relacionamento. Mas morremos de medo que um dia funcione.

Por outro lado, também sabemos que não há motivos para seguir em algo quando não funciona mais. Não encontramos dentro ou fora de nós esse motivo restaurador porque sabemos o que nos faz mal, como faz mal e conhecemos o tamanho da nossa dor, e não sabemos curá— la alimentando ilusões despedaçadas ou com falsas esperanças.

Ainda assim, nos culpamos. “Porque não tentamos com mais vontade? Porque não ficamos mais um pouco? Porque não deixamos ele voltar? Porque não abrir a porta outra vez? Porque somos tão duros e intransigentes?”

Sabemos a verdade de porque fazemos o que fazemos, mas é difícil de aceitar nossa medida de justiça e amor próprio num mundo onde as dores mais cruéis são transformadas em romances.

Parece lindo que o Amor todo poderoso e omnipotente seja capaz de transformar o ser amado no companheiro dos sonhos e que a partir desse momento nenhum esforço mais seja necessário.

Mas isso é duplamente egoísta. Primeiro por achar que temos esse poder, é pretencioso demais achar que pode mudar alguém, e segundo, querer mudá-lo a seu molde.

Nosso cérebro animal é cheio de truques, nos empurra pro que é familiar. O novo traz insegurança, medo, ansiedade. É difícil resistir lá fora, onde nada que conhecemos funciona, onde temos que aprender a andar outra vez.

Mais fácil ficar aqui dentro e esperar, ter fé, vestir a capa do Super Homem mais uma vez, tentar salvar aquele que amamos. Sonho que se sonha junto… quem está sonhando o que? Questão de tempo! Quando se toma um analgésico, a dor passa mas a ferida continua lá.

*Referência à canção “El Aguante”, de Calle 13. Eu não possuo qualquer direito, artístico, autoral ou comercial, sobre esta canção.