
Conto da construção das crônicas
A história que vou lhes contar aconteceu num tempo não muito distante. Foi há uns 200 anos, naquela época em que as fadas ensinavam as abelhas a polinizar as flores e os espíritos malignos espreitavam com os morcegos na escuridão. Nesses dias, cada bebê que nascia vinha com uma etiqueta e uma certeza: qual seria sua missão e lugar no planeta. Alguns nasciam com grandes feitos já escritos em suas histórias de vida — carregavam desde pequenos o peso do ouro e por vezes ficavam cegos ainda jovens graças ao brilho dos diamantes. Uns outros tinham não mais que uma vida pacata e acostumavam-se desde cedo com cores cinzentas e arroz feijão sem mistura.
Um dia aconteceu, porém, de nascer um bebê amaldiçoado com uma etiqueta vazia. Diziam que a mãe era meretriz e o pai era casmurro, e que a cafetina que lhes arranjara o encontro era na verdade uma bruxa. Nascida dos piores pecados e das maldades mais pegajosas, diziam, era um alívio que não tivesse história para viver. Mas não era como se não se assombrassem com o fato.
Ao saber da trágica história da Não-Rotulada, Sofia, uma fada sensível e honesta, comoveu-se. Não via pecado na ação dos pais, nem da bruxa (já que suas ações estavam decretadas desde o nascimento, não poderiam ter culpa). E se sensibilizava com a menina, tão discriminada por ser diferente. As fadas, como sabem, não têm etiqueta — têm dom. Por que haveria a Não-Rotulada de ser diferente? Com o seu dom (a sabedoria), a fada Sofia logo percebeu a injustiça que estava acontecendo: sem história pronta, a Não-Rotulada escreveria sua própria — e esse era um grande dom, não uma maldição.
Assim, Sofia abençoou a menina com o presente da lucidez, para que não fosse cegada pelo medo, nem amarrada pela discriminação dos ignorantes-rotulados. E a criança cresceu dona de si, construindo a própria vida, e aterrorizando todos aqueles que estavam confortáveis demais com seus próprios rótulos para entenderem sua liberdade.
Por não ter história, a Não-Rotulada passou a acompanhar a história daqueles ao seu redor (era incrível a sensação de começo, meio e fim, mesmo que ela não abrisse mão, por nada, da incerteza de sua própria vida). Registrava tudo em um caderninho e se deliciava, como se fosse uma colecionadora de almas.
Quando não haviam mais histórias a serem escritas, passou a inventá-las (o que fez Sofia ainda mais orgulhosa). E, assim, nasceram as crônicas: inventário da alma humana.
Quanto aos humanos e suas etiquetas, não se sabe ao certo quando deixaram de vir com elas — ou se isso realmente aconteceu um dia. Sabe-se apenas que alguns nascem para a liberdade, como a Não-Rotulada, e outros nem tanto.
Clique aqui para ler a Crônica da construção dos sonhos.
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