GENÉTICA: DO PÓ AO PÓ — E A ALMA?

Vão ao diabo com a genética!
Meu corpo só herdou a atlética.
Ouça: minha alma é o que fiz de mim.
Não sou o que o passado pensa,
não herdei nenhuma tristeza sem fim.
Tenho eu mesma uma história imensa.
A depressão não vem no sangue.
Minha vida não é um mangue
onde a família guarda o que não presta
pro mar ser limpo e eu a aresta.
Eu sou a âncora lúcida
minha ideia é translúcida:
sirvo de apoio incontestável,
mas minha sanidade não é maleável.
Não ponho meu bem estar em jogo
porque minha alma arde como fogo.
A genética ao pó com a minha carne
e que vá com ela também o escarne,
porque a alma sempre renasce.
Ela não deixa que o momento passe:
no fogo ela lampeja e chamusca
apenas para iluminar minha busca
e então renasce rapidamente, brusca.
Dizendo que ainda está aqui dentro
e que a minha felicidade é o centro.
Que a alegria tem de ser a regra.
E com a herança ela se integra.
Do pó, fazendo lama.
Da lama, criando alguém que ama.
E o amor sendo o sentimento
que me invade o coração num rebento,
sei que o vazio não pode me alcançar
e nem em mil gerações vou cansar
desse poder estranho de amansar
o coração dela em brasa
fazendo do meu amor sua casa.
