Homens em terapia.

Photo by Ian Stauffer on Unsplash

Essa semana li uma matéria do site VIX abordando a importância da presença do pai na infância da filha, isso me reportou a minha relação com meu pai e o modo como tenho atuado na clínica. Meu público sempre foi quase que exclusivamente feminino. Esse ano, porém, tive uma surpresa bem positiva com alguns rapazes procurando atendimento. Tem sido um aprendizado significativo e uma experiência enriquecedora.

O universo masculino sempre me foi muito próximo, tive um pai muito presente e nos tornamos amigos ao longo do meu amadurecimento, nos admiramos mutuamente, assim também é com meus irmãos. Talvez meu pai tenha sido o primeiro homem feminista que conheci, mesmo sem saber exatamente o que era isso (ao contrário do que muitos pensam, feminismo é sobre igualdade de direitos e oportunidades). Ele nunca usou um tratamento diferenciado entre meus irmãos e eu, apesar de ser bem rígido em algumas instâncias. Dentro de sua simplicidade de homem do campo, mesmo exagerando no cuidado em alguns momentos, ele me permitia o mesmo aprendizado que meus irmãos, éramos companheiros de aventuras. Aprendi a pilotar moto aos 16 anos para levá-lo ao nosso sítio que era um pouco distante da cidade, às vezes, sugeria outro caminho, mais difícil e, quando completávamos o percurso olhava para mim e dizia com afeto e orgulho: “Minha neguinha é bem valente”… Eu ficava toda orgulhosa também, porque aquele homem já com seus quase 70 anos, subia na garupa da moto com confiança e se entregava para uma menina magra e pequena.

Quando eu ainda morava com eles, ou quando eu voltava pra casa de férias, pois já moro no Rio há muitos anos, nós tínhamos longas conversas, ele me falava dos problemas, do que sentia, às vezes eu dava conselhos, às vezes eu recebia os sábios conselhos do meu pai. Isso ainda acontece. Ele é uma das energias masculinas mais lindas que eu conheço, um homem que se permitiu moldar pela vida.

A partir da minha percepção, entendo que essa experiência particular me faz entrar no terreno da clínica com outro olhar. A energia masculina saudável é algo maravilhoso, mas posso ver como os homens também são capturados pela estrutura patriarcal e por isso mesmo se atrapalham em suas emoções, muitas vezes nem conseguindo identificá-las ou nem se permitindo senti-las, o que gera inúmeras consequências em menor ou maior escala. Não gosto muito de generalizações, mas de um modo geral nós mulheres somos educadas para o afeto, para o contato e costumamos estar mais próximas de nossas emoções. Com os homens não é bem assim, em uma construção social em que “homens não chora” e “homem tem que ser forte” são por vezes impedidos de sentir.

Fiquei bem tocada em uma sessão em que um dos meus pacientes disse que era uma concha fechada e que eu tinha conseguido abrir. Percebi a profundidade que essa fala possuía e disse que me sentia lisonjeada por ele me permitir ver suas pérolas (porque para mim, emoções são como pérolas). Inicialmente ele veio para um atendimento em casal, pois já havia passado por uma separação e o casamento atual também não ia bem. Toda sua atenção e cuidado eram voltados para a esposa, quando em um determinado momento, sinalizei o quanto ele parecia ferido e o quando o casamento anterior tinha sido violento para ele. Até aquele momento, nem tinha se dado conta do tamanho da sua ferida emocional para ele estava tudo bem sempre e justamente por isso repetia seus medos em ações, trazendo alguns prejuízos ao casamento atual. No momento em que abrimos espaço para que ele pudesse falar de sua dor e do quando foi difícil a separação anterior, pode então ressignificar muitas emoções e comportamentos, deixando-o mais confortável no atual relacionamento. Tem sido um atendimento muito bonito.

Não sei se os homens se interessaram por esse texto, mas tenho visto o quanto é fundamental que se permitam esse espaço de fala e elaboração de suas emoções. Aprendi com o meu pai a doçura e sensibilidade que um homem pode ter sem perder sua força e potência. Meu pai teve uma vida dura, mas se permitiu reinventar a partir do exercício de confiança no ouvir e no falar de maneira flexível, atenta e reflexiva. Vocês precisam e merecem esse cuidado.