Precisamos arrumar a nossa casa.

Precisamos arrumar a nossa casa. Você deve estar pensando: De onde ela tirou isso, tanta coisa acontecendo e a psicoterapeuta pesando em arrumar a casa? Pois é, ando pensando nisso justamente por observar, experienciar, viver profundamente esses últimos acontecimentos. Fico com a sensação de está tudo uma bagunça e não sabemos onde está nada do que queremos ou precisamos. Falo do nosso país, mas também falo de nossos mundos internos; pois somos um microcosmo desse macro que observamos.

Costumo fazer uma analogia do processo psicoterapêutico como uma grande reorganização e faxina de nossa casa. Penso cada pessoa como a sua própria casa, onde às vezes, apenas passamos sem a sensação de habitamos nela. Quando alguém chega no consultório é como se me convidasse para entrar em suas casas, considero essas casas como espaços sagrados, de memórias, emoções, segredos, angustias, medos, dores. Então, é preciso entrar com muito cuidado, tocar cada coisa com delicadeza e respeito. Alguns me deixam um tempo na porta, outros já me levam para conhecer seus lugares mais íntimos e está tudo bem, cada coisa a seu tempo. E juntos caminhamos por essa construção subjetiva de espaços, observamos e pensamos como cada um deseja que a sua casa seja e como podemos nos aproximar desse desejo, mas antes é preciso se aperceber de seu estado real. Não sei quem de vocês já passou pela experiência de fazer uma faxina, é um trabalho pesado, demorado, uma faxina profunda e bem feita exige abrir aquelas gavetas que a gente nunca abre, mexer naqueles baús que acessam memórias das quais queremos esquecer, ir até nossos porões. Isso exige esforço e muita coragem.

Então penso se o que eu acabei de mencionar não se aplica ao nosso país, à nossa casa pátria. Parece haver tantos sentimentos engasgados, tantas dores acumuladas, tanta raiva e opressão, tanto lixo nos porões, que por mais que outro se proponha, parece muito difícil remover todo lixo acumulado na história, limpar o sangue que escorreu e ainda escorre pelas frestas das paredes, dar conta da vontade de contratar uma diarista e responsabilizá-la quando o trabalho não ficar como o desejado enquanto ficamos no quarto ou saímos para trabalhar (onde não precisamos ver o serviço sujo sendo feito). A faxineira não vai dar conta de remover o nosso lixo, de reorganizar a nossa casa, pois esse é um trabalho que exige implicação. Para uma grande transformação, é preciso que cada um se comprometa com a limpeza de sua própria casa, esteja presente e de braços e mentes prontos para remover nossos lixos, rever nossos valores, nos responsabilizar pelos nossos erros, se livrar do que for preciso, ocupar novos espaços internos. Cada ser é um universo inteiro e esses universos produzem a realidade. Pensando em seus espaços internos, você está ocupando sua casa ou deixando com que ela vire um acúmulo de coisas?

    Corpo Casa por Edjane Rocha

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    Pedagoga, Psicóloga, mestre em Psicologia e especialista em Terapia através do movimento. Acredita podermos habitar nossos corpos de maneira mais confortável.

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