Eros e Tânatos

Era quase menos que uma penetração. Entrou tão de leve, tão deslizante, que quase parecia um afago. Foi procurando lugar. Ali dentro se acomodando. Ela fechou os olhos, mas logo tornou a abri-los.

A televisão ligada no quarto fazia as paredes mudarem de cor a todo instante. Um cenário bonito para o momento. Mas quarto de motel barato, ou paisagem de Hollywood, não fazia mais diferença. A música também já não era importante. Sonata de Schumann, música do Radiohead, samba do Chico Buarque… tão pouco importa.

Ana sempre ouviu dizer que em momentos como esse o coração dispara, dá um frio na barriga, mil coisas passam pela cabeça. Mentira. Talvez verdade para os outros. Depois de tanta dor, já não é possível sentir mais nada.

Ana é dura, porém hesita…

Quando menina, Ana ganhou o DVD de um filme americano de high school. Olhou dez vezes na primeira semana. Na terceira vez já tinha enjoado da história. No entanto, colocava o disco de novo apenas para ter a oportunidade de ver a sequência em que o casal de protagonistas se beijava. Ana era esperta para saber que um momento como aquele estava destinado aos filmes. Mas também não pensou que a vida real fosse tão mais sem glamour. À noite, trabalhando num bar das 19 até a meia noite e recebendo cantadas de caras escrotos. De dia, fazendo revisões ortográficas de textos acadêmicos para conseguir algum dinheiro extra. Detestava o bar. Detestava as revisões. Detestava os rumos que a sua vida tomou. Estava destinada a não ter dinheiro e a conviver com animais.

Mas nesta noite, pela primeira vez em meses, ela sentia alguma expectativa ao voltar para casa com alguém. Estava voltando para casa com aquele cara. Aquele cara, sempre com muito gel no cabelo, sentado toda noite no balcão e ali bebendo até o lugar fecharTod noite se gabando para as meninas de que era engenheiro, que estava empreendendo, abrendo sua construtora. “Vai engolir as outras empresas da cidade”. Ele pedia a cerveja mais vagabunda, mas falava com ela com uma empáfia, como se fosse o patrão. Quando levou um fora de Ana pela primeira vez, disse:

-Ainda vou te fazer gozar. E tu nunca mais vai querer parar.

Ana não deu bola. Mas com o tempo foi ficando nervosa com a voz dele. A sua irritação era maior a cada noite. Não entendia como uma voz podia mexer tanto com ela. Ana chegou a pensar em pedir demissão, apenas para não ter que ouvir mais aquela voz. Olhar para aquele cabelo duro de gel. Mas eis que um dia cedeu:

-Ok. Me espera meia noite e quinze na frente do bar.

Ele perguntou se ela queria pegar mais bebidas para levar para o apartamento.

-Tanto faz- ela respondeu.

E assim foram os dois para o apartamento de Ana.

Agora ele estava ali, deitado na cama de Ana. Ela olhou mais uma vez aquele corpo e pensou com sorriso no rosto que, definitivamente, o momento não tinha nada a ver com a cena dos seus protagonistas. Sua história está mais para Eros e Tânatos, ela pensou e segurou a risada.

Sim, Ana é dura, mas não quer mais hesitar.

Coloca todo o objeto de volta na boca. Ele desliza mais uma vez. Agora o gesto é animal. Não é mais carinhoso. É mais que selvagem. Se irrita porque não cabe tudo. Até isso é diferente na vida real. Nos filmes entra tudo. Ana entende que não vai entrar tudo. Ela decide que é hora de acabar.

Por fim, Ana aperta o gatilho e o estampido é ouvido do primeiro andar. A bala sai pela nuca. Pedaços dos miolos dele sujam o travesseiro. A televisão continua projetando cores nas paredes. A música que toca parece ser um jazz. É a música romântica de um filme da sessão de Gala.