Cunha vs. Dilma: O paradigma hermenêutico da torcida de futebol

A polarização totalizante do debate impossibilita qualquer discurso crítico e, a rigor, político.

Já é lugar comum comparar a polarização dos debates brasileiros (e em especial os do facebook) às torcidas de futebol. Queria começar desenrolando um pouco o sentido da analogia.

Quando dois torcedores de times rivais começam a discutir qual dos dois times tem mais méritos, costuma acontecer um fenômeno interessante: cada um recorre, de imediato, a critérios segundo os quais seu time sai ganhando. Se o meu time tem o título X, o seu acumula mais títulos Y; se o meu time derrotou o seu mais vezes, o seu está invicto desde o ano tal. Moral da história: o critério da discussão é escolhido segundo a conveniência ao caso, sem considerações sobre o seu fundamento.

Em tempos de coxinhas vs. petralhas, o mecanismo é o mesmo. Cada postagem, cada crítica, cada argumento cai logo em descrédito face a um experimento simples de pensamento: e se fosse o outro lado? O exemplo mais claro é que, em 1999, após a reeleição de FHC, o PT não considerou antidemocrático protocolar um pedido de impeachment, e na época eram Aécio Neves e outros que se levantavam para “assegurar a democracia” e defender o presidente “democraticamente eleito” (vídeo). Hoje são os apoiadores de Dilma que valorizam a democracia acima de tudo, e não os tucanos e afins. Fica claro que ninguém tem um pensamento sobre a democracia, só interesse imediato.

É claro que, no Brasil, um processo de impeachment está longe de ser algo neutro, objetivo e estritamente jurídico (em oposição a político). No Brasil, a forma e o conteúdo andam sempre separados, e o desvio de função não é exceção, mas regra. O caso do impeachment não é diferente: o argumento de base (acusações de intervenção indevida em uma CPI, no caso de FHC; pedaladas fiscais, no caso de Dilma) serve de fachada para jogos de força políticos. O jurista carequinha Dalmo Dallari disse, sobre o impeachment, “não há fundamento, é um jogo político”. Outro carequinha, Foucault, disse o mesmo sobre as coisas em geral. No Brasil, então, mais ainda. Até o impeachment de Collor, que era Collor, teve fundamento político, já que ao final ele acabou inocentado das acusações que o impeacharam.

Vejam Milton Temer (PT-RJ) no vídeo: “Nós não vamos discutir aqui as irregularidades constatadas e denunciadas para a população com respeito à votação da emenda que permitiu a reeleição de Fernando Henrique Cardoso; nós não vamos discutir aqui o estelionato eleitoral de Fernando Henrique Cardoso […]; não vamos discutir a entrega da soberania nacional […]”. Todos os argumentos políticos que contribuem no jogo de forças e que seriam decisivos para um impeachment são trazidos através da negação da sua pertinência e validade jurídica, mas trazidos. O impeachment proposto pelo PT era político, como é o de Dilma.

O mesmo jogo de forças político que em 1999 era legítimo para o PT e antidemocrático para o PSDB, hoje é antidemocrático para o PT e legítimo para o PSDB. E não cabe justificar essa distinção segundo o fundamento do pedido, já que, em ambos os casos, o fundamento legal invocado era pouco substancial e uma parte menor do jogo de forças recém mencionado. No fim das contas, é claro que conta mais quem está bem ou mal cotado, como está a economia, etc. Não seria capaz de fazer uma comparação pertinente dos casos de 1999 e do atual, nem creio que seja preciso.

O ponto aqui é justamente que, pela complexidade das questões, acaba ficando fácil, para quem já tem um ponto de vista de antemão, encontrar ou forjar argumentos. Numa versão deturpada de pragmatismo epistemológico (deturpada porque não testa seus vocabulários diante da alteridade), sites como o Pragmatismo Político abusam da distorção e da retórica em nome de uma agenda bem determinada. O site em questão, pelo menos, merece os parabéns pela sinceridade na escolha do nome: ele não está lá para informar, mas para fornecer discursos que favoreçam a um lado preestabelecido. Em toda parte há discursos opostos, mas ambos os lados afirmam, no fundo, a mesma coisa: que só há dois lados possíveis, e que o importante, para qualquer um deles, é garantir-se.

Esse é o problema do dualismo totalizante que acaba sempre se formando no nosso debate político: ele fecha o espaço do discurso à possibilidade de qualquer invenção que exceda aos dois lados possíveis. Ele é totalitário nesse sentido, que é um sentido muito sério. Nesse dualismo, todo discurso é interpretado de forma a reproduzir um dos dois lados. Se você não é coxinha, é petralha; se questiona Dilma, apoia Cunha; se não se encaixa em nenhum dos lados, é visto por ambos como pertencente ao lado oposto, e todo aquilo que exceder a qualquer dos dois discursos torna-se ilegível, ininterpretável, nulo. A invenção de formas de falar (que é também a invenção de formas de vida e de formas de fazer política) é absolutamente cancelada.

O filósofo Slavoj Žižek, em seus termos hegelianos, chama a atenção para o fato de que, sempre que temos um aparente conflito, há uma violência de fundo que é mais fundamental e, por isso, invisível, a violência que estabelece esse conflito como a única realidade possível. Esse pano de fundo que define o espaço político pode ser chamado de ideologia. O nosso Žižek brasileiro, Vladimir Safatle, nos lembra como a tarefa política por excelência (e, em específico, a tarefa da esquerda) deveria ser justamente recolocar esse campo do possível, ou seja, criar novos discursos e novas formas de vida que sejam incomensuráveis com aquilo que é violentamente estabelecido como o campo dos discursos possíveis.

Se a política, em sentido estrito, tem a ver com a invenção de formas de vida e de interação excedentes ao já posto, e em especial ao já posto nas instituições, o dualismo totalizante em questão é a morte do debate político, a troca do debate político pelo partidário, jurídico, moral. Em específico, criar uma polarização entre Dilma e Cunha, discutindo qual dos dois é mais corrupto e imoral, despolitiza o debate. Interpretar a crise do modelo atual de desenvolvimento do país, da legitimidade dos seus atores centrais, etc., como se se reduzisse aos caprichos de um vilão, e fingir que para além disso está tudo normal, é falhar em perceber o momento político e posicionar-se criticamente diante dele. Há quem esteja dizendo que falhar em posicionar-se a favor ou contra o impeachment é eximir-se de responsabilidade política, mas é justamente o contrário. Nesse caso, eximir-se de um discurso político é aceitar essa polaridade como necessária.

E pensar que este discurso “faz o jogo do impeachment” é justamente parte do problema: afirma que ou você está de um lado, ou do outro; que qualquer discurso que falhe em defender o governo defende o impeachment (ou vice versa, se for o caso). A quem venha dizer que esse discurso será mal interpretado em detrimento do governo, só posso dizer que escrever é correr o risco de ser mal interpretado, e que quanto maior esse risco, mais política é a escrita. Se alguém está “fazendo o jogo” de alguma coisa, é uma esquerda que, ao imaginar que está usando de todos os recursos para combater o conservadorismo, está “fazendo o jogo” mais amplo do embate binário, em que a possibilidade de qualquer alternativa política pra valer é cancelada por um campo discursivo totalizante.

Não me importaria em ver isso vindo da direita. Não só porque não são o lado onde costumo me colocar (e que povoa minha timeline), mas porque é esperado dos conservadores que queiram conservar o espaço do discurso, que se contentem com um discurso do senso comum e da segurança. A esquerda, por outro lado, os progressistas, supostamente deveriam questionar os discursos hegemônicos, deveriam forçar a cada vez a reinvenção da política, e especialmente em momentos de crise. Ver minha timeline cheia das pessoas que considero mais esclarecidas e críticas reproduzindo discursos mal-ajambrados para defender uma situação meia-boca é deprimente ao ponto de me fazer mal (comecei esse texto porque seria ou isso ou não entrar mais no facebook).

Em inglês, usa-se a expressão to throw out the baby with the bath water. Não adianta você se dar o trabalho de dar banho na criança, e depois jogar o bebê fora junto com a água do banho. É o que parece estar acontecendo com a esquerda a que me refiro. Lembremos a frase de Deleuze segundo a qual não existiria governo de esquerda, ainda que não precisemos toma-la como verdade absoluta: não seria mais essencial, para a esquerda, se manter do lado de um pensamento radicalmente crítico, do que defender um governo decadente contra a crise? Afinal, não é à toa que as duas palavras — crítica e crise — são tão parecidas. Sua raiz é a mesma. E ainda tem aquela história de que, em chinês, crise e oportunidade seriam a mesma palavra. Poderia se dizer, no sentido de política em que se está falando aqui, que só há verdadeira política na crise.

A esquerda costumava nutrir uma desconfiança (às vezes temerária, mas, pelo menos em princípio, saudável) pelo estado atual das instituições democráticas, e ainda mais no Brasil. Agora, em 2015, ela resolve ter um apreço absurdo pelo funcionamento normal das instituições brasileiras, como se funcionassem muito bem, e pela democracia representativa, como se o nosso processo democrático estivesse pronto, acabado, irretocável? Posições incompatíveis com a história e com a teoria de uma ‘esquerda que não teme dizer seu nome” (para usar a expressão de Safatle), cuja característica deveria ser de ver uma verdadeira democracia como algo ainda a ser inventado e reinventado. Afinal, acho que concordamos que a coisa financeira maligna (capitalismo financeirizado ou seja o que for) é um problema excedente às disputas partidárias e que, neste momento histórico, não há alternativas claras a ele. Seria, então, o papel da esquerda (ou da política) inventar tais alternativas, o que por definição é o oposto de deter-se na negociação em torno do já posto, aceitar as regras do jogo e jogar pelo empate. Jogar fora o bebê com a água de banho é isso: trocar um discurso de radicalização da democracia por um discurso que defende o estado atual da democracia representativa, tudo para conservar uma situação presente.

O que estamos vendo, no facebook pelo menos (e caberia todo um outro post sobre a influência da forma facebook nisso), são as pessoas abrindo mão de uma postura crítica em nome de um modelo agonizante, de estender a agonia desse modelo por mais tempo, de conservar esse espaço de falta de esperanças, de negociações que já não têm objeto além da continuação das próprias negociações. Onde está, afinal, tudo o que dissemos desde 2013 sobre a crise da representação e a necessidade de reinventar a política? Se o atual modelo político — pense-se o que for sobre seus méritos até aqui — chegou ao fim do seu ciclo e, portanto, à sua crise, a tarefa política não deveria ser inventar novas formas para o que vem pela frente? O momento para isso, por excelência, é o momento de crise. Se a esquerda se contentar, nessa hora, em ser essa coisa deprimente que estamos vendo, será compreensível que a direita saia na dianteira, afinal, se a questão é conservar, essa é a praia deles. Agora menos que nunca se pode abrir mão de um discurso radicalmente crítico. Discurso crítico é discurso da crise e crise do discurso. Todo o resto é discurso de poder.