De Beauvoir no ENEM: Interpretação e Democracia

A direita com a qual estamos lidando não está só contra o feminismo ou a “teoria de gênero”. Ela está contra a democracia.

Não que essa galera não seja, de fato, radicalmente contra qualquer corrente de pensamento que desloque a mulher do seu lugar tradicional. É evidente que está. Mas quero argumentar que, nesse caso, o pior é que o buraco é mais embaixo. Há algo mais geral e prévio que o pessoal provavelmente não gostaria de admitir.

Acho que vamos concordar que um dos objetivos de uma questão de interpretação de texto é ver se o candidato é capaz de interpretar um texto. Isso envolve, é claro, a capacidade de relacionar um texto ao seu contexto e, portanto, de entender a que título o texto é apresentado.

No caso, a prova apresentava um texto de Simone de Beauvoir e pedia que o candidato o relacionasse ao contexto histórico em que estava inserido. Tudo o que era necessário era pescar que o texto tinha a ver com feminismo (era só conhecer Beauvoir de nome, ou atentar às palavras “mulher” e “gênero”). Nada demais.

Aí entra, porém, uma questão que precede a escolha entre as alternativas disponíveis. Você tem que entender que você está fazendo uma prova e que uma prova deve ser interpretada diferentemente, por exemplo, de uma bíblia. Se um texto de Beauvoir aparece em uma prova, a interpretação esperada não é “este texto traduz uma verdade absoluta: aceite-a”, e sim “aqui está um texto (de Beauvoir), interprete-o”.

Vou chamar isso de leitura de alteridade, um modo de interpretação que não pressupõe a identificação do leitor com o conteúdo do texto. Trata-se do modo de leitura por excelência da democracia e, como trata-se de formar cidadãos em uma democracia, também não é nada demais esperar que os candidatos tenham essa capacidade interpretativa mínima, certo?

Ainda assim, acabo de ler em um post da página “canal da direita” que “segundo o ENEM 2015 o homem não nasce homem tampouco a mulher nasce mulher”. Esse é o formato das críticas que esse pessoal está dirigindo à suposta “doutrinação” nas provas do ENEM. O argumento, antes de ser contra o feminismo e a “teoria de gênero”, é contra a mera veiculação de um texto, partindo do pressuposto de que essa mera veiculação só pode significar “este texto traduz uma verdade absoluta: aceite-a”.

Esse é o problema (ou um dos) da “direita” em questão. Ela aparentemente não consegue conceber nenhuma outra forma de interpretação, nenhuma outra forma de encarar um texto além do paradigma do texto sagrado. Ela parece, por princípio, avessa à coexistência de discursos diferentes e à possibilidade de negociação entre eles. Se todo texto só pode trazer a verdade, então só pode haver um texto, só um texto pode circular, do contrário haverá conflito e caos.

Essa, então, é a minha hipótese: quem quer que insista em ler uma questão interpretativa como “doutrinação” não está, apenas, contra o feminismo ou a esquerda, mas contra algo bem menos controverso: a democracia; a democracia como tentativa, mínima que seja, de negociar com a pluralidade; a democracia como sociedade de mais de um livro, em que diferentes discursos podem circular de boas.

Quem não consegue ler um texto como alteridade, quem só consegue ler no registro da doutrina sagrada, é claro que verá sempre “doutrinação”. Mas quem lê assim não se ajusta à sociedade democrática, e sim a uma sociedade “do livro”, de um só livro. Para essa galera, a mera difusão de um texto (a não ser seu próprio texto sagrado — seja a Bíblia, a Ayn Rand ou o Mises, e o mesmo valeria para Marx, se fosse o caso) já é um problema. Seria preciso que aprendessem o mínimo sobre como se interpreta em uma democracia, pra não ganhar um zero redondo.

Sendo assim, a mensagem ao amiguinho “liberal” que acha que faz parte de uma direita mais moderna, que não é religiosa ou antidemocrática, é que, se você tem esse tipo de reclamação contra a mera disseminação de um discurso, para ser lido e interpretado, se só sabe ler um texto como “doutrina”, então talvez você não seja tão diferente da direita carola e antidemocrática quanto pensa. Já quanto aos carolas: admitam que odeiam democracia.

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