Vazio
Percebi agora que to olhando pra tela faz uns dez minutos. É muito esquisito quando seus pensamentos resolvem viajar e não te convidam. Eles ficam conversando entre si e você fica num cantinho excluída sem se dar conta de que eles estão falando de você. Aí quando você chega eles param de cochichar e te olham nos olhos com uma feição assustada e surpresa ao mesmo tempo, como se você tivesse cometido o maior erro de etiqueta do mundo em um jantar com a rainha da Inglaterra. A melhor solução pra esses casos é sair de fininho e fechar a porta em meio aos seus olhares de reprovação. Continuem, por favor. Finjam que não estou.
É estranho estar consciente dos seus pensamentos, estar no controle, estar no presente. Você sente o gosto da sua saliva, a coceira no lado esquerdo do seu rosto, um ventinho gelado batendo na pele. Você ouve o barulho mecânico da sua geladeira, o tic tac do relógio na sala, cachorros latindo, o som das teclas. Mas mesmo sentindo esse ser gigante que chamamos de universo, você se sente desconectada de tudo, como se não fizesse parte de nada disso. Às vezes eu acho que não faria diferença se eu não estivesse aqui. Às vezes eu nem sei se quero fazer parte desse sistema. Às vezes eu não quero ser uma célula desse organismo.
Talvez a vida humana se resuma a isso, a busca do preenchimento desse vazio que a gente não sabe o que é. Então a gente se engana. Uns fingem que a solução é deus. Outros fingem que é a bebida. Alguns fingem que é o dinheiro. O ser humano é isso aí, um amontoado de fingimentos.