Janos Biro Marques Leite
Nov 7 · 8 min read

Em resposta ao terceiro comentário:

A questão não é só COMO utilizar aquilo que chamamos de tecnologia, mas também é POR QUE continuar usando ou continuar dependendo disso ao invés de buscar uma diminuição da dependência.

Mas dizer que eu utilizo “da ignorância e falta de experiências sociais” para dar um salto lógico sobre o quanto dá pra manter dessa estrutura é um péssimo argumento, tão ruim quanto se eu dissesse que você utiliza “da ignorância e falta de experiências sociais” de fracassos desse projeto pra dizer que dá pra manter boa parte sim. Meus argumentos não se reduzem a uma acusação de que “nunca deu certo, portanto nunca dará”. Se fosse assim, você poderia com razão dizer que as coisas poderiam ser diferentes. Mas ao tentar reduzir o que eu disse a um apelo à ignorância, você escapa novamente do ponto central.

Em nenhum momento meu argumento sequer se aproximou de afirmar a solução para a intensidade de extração do capitalismo é abolir qualquer tipo de tecnologia. O problema são as condições e pressupostos do sistema tecnológico em si, independente da intensidade da “extração os recursos”. Você pode criar um sistema tecnológico não capitalista e que não “extrai recursos de forma prejudicial”, ou seja, é “ecologicamente sustentável”, e ainda assim a tecnologia continuaria dependendo de uma estrutural social que é prejudicial ao ser humano e socialmente insustentável. Por favor, considere esse ponto.

A definição de tecnologia que estou apresentando é a definição aceita pelos principais teóricos da filosofia da tecnologia hoje. Se você quer propor um conceito mais completo, seria bom você se reportar às teses corretas, e não ficar reduzindo a caricaturas.

Do fato de que X não teve a oportunidade de ser efetivado na história, não se conclui que X deve ser um objetivo político. Pode ser, mas ainda falta a justificação. O questionamento exposto aqui não foi de que não tem como manter a estrutura tecnológica numa sociedade pós-capitalista. O questionamento foi: quais são as condições fundamentais para a estrutura tecnológica? Vale a pena manter essa estrutura? Você responde que podemos diminuir o impacto sobre o meio. Mas essa não foi a pergunta. O impacto de um único carro no mundo é irrelevante. Mas o que é preciso pra criar um carro que seja? Minha crítica se atém ao modo de pensar o mundo que é inerente à ideia de que houve “avanço tecnológico” no processo civilizador.

Não estou apontando que “não temos experiência prévia”, e sim que há uma contradição entre a ideia de “avanço tecnológico” e o conceito de tecnologia como algo que “sempre existiu” ou que “faz parte da vida humana”. Concordamos que a tecnologia não existe somente no capitalismo. Mas podemos dizer que ela avançou no capitalismo? Uma coisa é distinguir o “fenômeno da tecnologia” do “fenômeno do capitalismo”, outra é dizer que a tecnologia, embora mal usada, avançou, se desenvolveu, melhorou, quando criamos fábricas, carros, computadores, etc… A ideia de avanço nesse caso pressupõe uma neutralidade tecnológica. Se a tecnologia também avançou nas sociedades não capitalistas que existiram ao mesmo tempo em que as sociedades capitalistas, mas avançou apenas de modo diferente, então por que propor uma vida sem indústrias, por exemplo, seria uma negação do avanço? De que avanço? Se não houve avanço tecnológico UNIVERSAL na revolução industrial, então viver sem energia elétrica, por exemplo, não é rejeitar a tecnologia, nem tem a ver com não “gostar” de energia elétrica. É afirmar outra “tecnologia” somente. Para dizer que isso é MENOS tecnológico, seria preciso entender tecnologia não como técnicas e ferramentas em si, mas de um conjunto específico delas. E é esse o significado que resolvemos usar, porque é afinal o significado mais usado, já que o significado generalista é usado somente para justificar o conjunto específico de técnicas civilizadas como algo “natural”. Em todos os outros casos, o que as pessoas querem dizer com tecnologia implica na ideia de avanço.

O argumento pode ir muito mais longe. Mesmo este fenômeno muito mais antigo que o capitalismo, que chamamos de civilização, pode ser criticado em si mesmo, ou seja, pode ser considerado como uma estrutura insustentável, e podemos propor sua superação por meio de uma luta política. Se isso é verdade, então também podemos fazer uma distinção entre o “fenômeno da tecnologia” e o “fenômeno da civilização”, o que significa que o que avança na civilização não é a tecnologia humana, é a tecnologia civilizada. Nem sequer a escrita pode de fato ser considerado um “avanço” na tecnologia humana. Ela é um avanço relativo a determinados valores, contextos e estruturas sociais que não são historicamente determinadas, isso é, não são necessidades históricas. Exatamente como a lâmpada só é necessária numa sociedade com determinada estrutura, a escrita só é necessária numa sociedade que precisa quantificar e anotar quanto se acumulou, por exemplo. Se nada disso é um avanço HUMANO, nada disso precisa ser mantido, tudo pode ser desfeito. Então a pergunta permanece: Até quando vai valer a pena continuar com isso?

A civilização dependeu da exploração de “energia barata”. O problema não é que não temos experiência prévia com a criação de vacas voadoras, por exemplo. O problema é: por que criar vacas voadoras? Qual a possibilidade de manter uma sociedade massiva que não depende de energia barata, ou que encontre uma fonte alternativa abundante? É A questão “por que criar tecnologia?” é válida, embora pra maioria das pessoas nessa cultura a resposta possa parecer muito óbvia. É fácil dizer que a tecnologia é o resultado da necessidade humana de “superar dificuldades”, mas de onde vem essa ideia? A questão não é “por que usar ferramentas”, se nós sempre usamos ferramentas. E nem sequer “por que melhorar nossas ferramentas”, se nós sempre melhoramos nossas ferramentas. A questão é “por que manter as ferramentas criadas pela civilização?”. A resposta não pode ser: “porque elas são mais avançadas” ou “porque resolvem melhor nossos problemas”. Quais problemas? Achar que elas resolver melhor os problemas inerentemente humanos implica em acreditar que as ferramentas civilizadas são MELHORES PARA A HUMANIDADE do que as ferramentas não civilizadas, mas foram apenas mal usadas. Se você disser que são melhores somente em relação a esse modo de vida, então concordamos, mas então por que mantê-las, se podemos (e provavelmente deveríamos) abandonar esse modo de vida? Não precisaríamos tanto delas num ambiente menos domesticado. Não seria melhor gastar nosso tempo melhorando nossas relações humanas ao invés de nossos sistemas técnicos, por exemplo?

Mas se você está convencido que o problema não pode ser outra coisa além do estúpido sistema capitalista limitador desperdiçador que gera demanda artificial e não usa as tecnologias do melhor modo… Então não temos o que discutir, pois a questão não existe pra você.

Acontece que o “luxo de rico” varia com o tempo. O que era luxo há milênios atrás hoje é acessível pela classe baixa. O gasto de energia, por exemplo, não cresceu só para ricos, ele cresceu para boa parte da população. A dependência tecnológica afeta muito mais que ricos mimados. Você pode até suprir todas as “necessidades da classe trabalhadora” corrigindo os “erros econômicos”, os “erros de logística” e “de valor econômico simbólico”, mas ainda não está considerando a pergunta sobre quais “necessidades da classe trabalhadora” são necessidades humanas de fato. Somente as necessidades “dos ricos” foram criadas artificialmente? A civilização não criou nenhuma necessidade artificial para explorados? Do ponto de vista biocêntrico, a civilização não criou nenhum privilégio humano? Pense bem, 96% da biomassa de mamíferos terrestres no mundo hoje são de animais domesticados. Em relação ao planeta, civilizados continuam vivendo num LUXO EXCESSIVO, mesmo se você apagar os ricos da conta. Você está desconsiderando isso. Está pressupondo que bilhões de mamíferos grandes vivendo com uma estrutura tecnológica massiva e “ecologicamente sustentável” é algo normal, plausível, justificável. Eu nem estou entrando nos argumentos sobre a sustentabilidade ecológica disso. Mas mesmo considerando a transição para um modo sustentável, se os problemas resolvidos por um sistema tecnológico complexo, que provoca aumento da dependência tecnológica, são todos criados por uma estrutura social complexa, que de qualquer modo diminui nossa capacidade de convivência com a comunidade da vida, então qual a vantagem desse empreendimento? Perceba que saber conviver com a comunidade da vida não é o mesmo que não explorá-la demais, assim como saber conviver com um grupo não é viver sem irritá-los. É possível se isolar do grupo, e aí você não vai desgastar ninguém com sua chatice, porque não sai de casa. É possível manter uma relação sustentável e alienada ao mesmo tempo.

Então, minha narrativa não nega que “cada ser humano consumindo dois celulares na vida” tem menos impacto que “trocando de celular todo ano”. Você ainda não está considerando meu argumento. O que é preciso para criar celulares, em qualquer número que seja? Pense melhor nisso. É preciso apenas matéria-prima? As condições para criar um celular não são as mesmas que para criar um colar, por exemplo, ou uma lança. Parece que você não está considerando tudo que é preciso para que celulares tenham alguma utilidade, algum sentido. Se você está partindo do pressuposto que eles resolvem algum problema humano que permanecerá existindo mesmo depois da superação da sociedade de classes, então está aí nossa discordância. Em termos HUMANOS, ninguém jamais obteve nenhuma vantagem com tecnologia alguma, nem os ricos. Não pode ser uma vantagem, se ela só alivia os efeitos de uma desvantagem que foi criada pelo próprio processo de conseguir essa vantagem.

Quais são, realmente, as necessidades humanas? Os Sentineleses são humanos? Quais necessidades supridas na civilização são realmente humanas, e quais foram criadas pela própria civilização? Quais necessidades humanas não podem ser supridas fora da civilização? Quais necessidades a civilização supre melhor do que outras formas de vida?

A civilização não cria demandas artificiais? Se toda demanda criada artificialmente é ruim, onde vamos traçar a linha?

Você continua argumentando em resposta ao que eu não disse. Você está certo, não precisaríamos de tanto petróleo se não fosse o capitalismo. Se aplicar o mesmo raciocínio a outros recursos, e outros modos de exploração do trabalho, onde isso para? Não precisaríamos de tanto carvão… Não precisaríamos de tanta madeira… Não precisaríamos de tração animal… Não precisaríamos arar o solo… Por fim, do que realmente nós precisaríamos se não fosse pela civilização?

Do mesmo modo que você pode dizer que jogar fumaça no ar é irracional, outras culturas diriam que criar computadores é irracional. Forjar metal é irracional. Escrever é irracional. Viver em prédios é irracional. Usar roupas de tecido num clima quente é irracional.

De onde você tira que há alguma racionalidade em vivermos na atual estrutura tecnológica?

A teoria crítica da tecnologia não estuda um objeto “que nós não temos”. Não é uma crítica a um modo particular de organizar a tecnologia. Inclui a crítica à visão de mundo necessária para criar uma roda, por exemplo. Os pressupostos, as condições, o que faz a tecnologia ser o que ela é, essas coisas não vão mudar. São questões inerentes a qualquer sistema tecnológico.

“A nossa divergência não tem relação alguma com o que é possível ou não, tem a ver com querer”. EXATO. Só que você conclui equivocadamente que eu “simplesmente não gosto de tecnologia elétrica” apenas porque eu afirmo que não basta fazer um uso “ecológico”. Você quer essa tecnologia, e pressupõe que todo mundo também vai continuar querendo. Mas a teoria crítica tem mostrado razões para não normalizar a tecnologia. Por que afinal deveríamos querer energia elétrica? Você pode dar uma boa razão que não inclua uma demanda criada pela civilização?

Em nenhum momento eu disse que sua proposta é inviável porque não houve experiência empírica ou prática semelhante, e de modo algum estou ignorando os efeitos do capitalismo. Mas coloque tudo isso na conta: ela ainda não fecha. A questão sobre a viabilidade econômica só faz sentido depois que a decisão política foi tomada. Quem tomou a decisão de reproduzir uma estrutura social complexa, como aquela exigida pela estrutura tecnológica civilizada? Quem decidiu que precisaremos de energia elétrica, ou mineração, ou estradas, numa sociedade sem classes?

Concordo totalmente que precisamos compreender o capitalismo. Mas quais danos ambientais as técnicas e ferramentas civilizadas podem reduzir? Do que depende o desenvolvimento dessas técnicas e ferramentas? Se continuarmos dependendo de um sistema tecnológico massivo, que é tão passível de ser controlado “por todos” quanto um governo, que tipo de autodeterminação será possível? Existe autogestão possível para a internet, por exemplo?

    Janos Biro Marques Leite

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    Estudando filosofia, sociologia, educação, jogos e civilização.