Falta Brasil Nisso Aí

Com os olhos embaçados pela rotina, a maioria dos publicitários se faz na zona de seus próprios achismos. Eu sou um deles. Não foram poucos os projetos com os quais topei e pensei comigo mesmo: falta Brasil nisso aí.

A gente não entende nada de Brasil. Mas o fato de sermos, cada um a sua maneira, brasileiros, faz com que a gente acredite ser um especialista em brasilidade. Encharcados de soberba, cochichamos “o Brasil sou eu”. Não é uma mentira. Mas também não é uma verdade.

Sôfregos, com um olho na tela do smartphone e o outro em nossa vontade de estar em Dublin, Amsterdam, Paris ou Berlim, bambeamos quando, da porta para fora, nos deparamos com o fato de que o Brasil é muito mais do que as pesquisas sobre a classe C que lemos na pressa de um job qualquer.

Cegos, perguntamos: Brasil, que Brasil?

O Brasil que a Vila Olímpia não nos mostra é muito maior do que aponta o IBGE e muito mais dinâmico do que qualquer relatório que o cliente nos enviou. Embora caiba um Brasil inteiro em São Paulo, esse chão vai muito além do que vemos na Praça da Sé.

Por isso rimos ao descobrir que o futebol jogado em Salvador se chama baba; debochamos do anseio do acriano em ser respeitado como brasileiro ou do gaúcho, que prefere ser estrangeiro; disfarçamos não reconhecer a diferença entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul ou o fato de que Budapeste nos desperta mais curiosidade do que Belém do Pará.

Theatro da Paz. Budapeste ou Belém do Pará?

Precisamos ficar a par desse País imenso, do Brasil que prefere biscoito Miragina a Tostines, que bebe Dydyo e Baré ao invés de Coca-Cola, que não compra no Pão de Açúcar pois em matéria de supermercado o Zaffari ou o Araújo ou o Bom Preço são muito melhores.

Diante desses insights raramente nos despimos daquele estranhamento que diz que tudo que não é nosso não tem o mesmo valor daquilo é. Na busca pela formação de estofo priorizamos o importado, relegando ao que é local apenas o ufanismo pimpão de sempre.

Ao Brasil profundo, o ufanismo pimpão de sempre.

Isso precisa mudar. Nenhuma comunicação de marca será verdadeiramente 360º se não estiver focada em descobrir, entender, qualificar e, sim!, se apropriar dos costumes que estão fora do alcance das nossas telas de smartphone ou da nossa vontade de estar em Dublin, Amsterdam, Paris ou Berlim.

*A arte é de Eduardo Recife, esse monstro.

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