Barcelona, 22 de janeiro de 2015

Eu fiz a barba.
Algumas pessoas associam esse ato com hombridade. Aquele momento especial na vida de um jovem garoto. A porta de entrada para a vida adulta. A limpeza do caráter para momentos de glória e beca. Retirei todos os fios antigos e desgastados do meu rosto e senti um pouco daquele vento frio e novo que encostou na minha pele. Me lembrei de um dia. Me lembrei de um lugar. Me lembrei de uma versão de mim mesmo que tinha orgulho e enchia os olhos. Eu jamais serei o mesmo, mas eu sempre serei eu.
Quando estive em Barcelona também era inverno e o vento frio batia no meu rosto limpo, de barba feita e sorriso aberto. Naquela manhã de janeiro, eu sentei na orla da praia e observei pessoas. Eu observei a mim mesmo. O prazer que eu sempre senti com a minha própria solidão me guiou num túnel do tempo direto ao passado. Me mostrou uma criança desastrada que vivia cheia de hematomas e galos por sempre insistir em cair da escada de quatro degraus. Eu vi a criança rabiscando livros, criando poesias, tentando entender o que era fé. Ele assistia brigas, amor, brincava de se esconder do pai para manter uma frágil ligação e deitava no colo da mãe para descansar e aprender a cultivar carinho.
Ele cresceu tanto e se mostrou tão pouco. Porém, nada é imutável. Suas adaptações o levaram para longe, o levaram para uma Barceloneta de pouco sol e muito sentimento. Eu soube, naquela exata hora, que eu havia chegado ao fim de um processo desgastante na minha vida, que eu estava pronto para voltar para casa e ser o meu alguém especial. O meu próprio “the one”. E mais do que isso, eu finalmente podia encher a boca e dizer em alto e bom som: “eu estou bem”.
Eu fracassei ao colocar meus pés aqui, e continuei fracassando na medida em que caminhei em direção ao meu futuro. Tentei, tropecei, parei para descansar porque sabia que o chão era infinito e, se eu havia pisado em tantos lugares descalço, por que eu não haveria de aguentar mais algumas farpas nos meus pés?
Quando o frio bateu novamente no meu rosto, eu lembrei da criança adulta pisando na areia da praia. Me senti terrivelmente enganado. Mas eu sempre soube que não havia perfeição nas minhas escolhas e andanças. Eu sabia que a força de vontade era insuficiente e que eu não era uma pessoa imune às relações que eu travo com o universo e com o que ocorre ao meu redor.
Eu nunca fui racional e me desagrada bastante a ideia de que a razão é a força do bem que sempre vence as lutas contra os otários que não a possuem. Eu sou um otário. Eu repito isso constantemente. Nada vai mudar e eu não me importo. Apenas sigo em frente. Ainda há muito para se fazer por mim.
Já dizia a minha tatuagem: eu sou um homem cego de amor. Mais uma vez meu coração se apegou. O tombo habitual. O azar onipresente. Hora, dia, mês, ano errado. Eu me esforço em tudo o que posso e sei que posso te fazer feliz, mas será que eu posso me fazer feliz? Não dá pra responder uma pergunta perversa como essa. Ninguém deve agredir a si mesmo, tão tristemente assim.
Nós conversamos, chegamos a um consenso. Eu consegui superar um dos meus maiores medos, o de me arrepender. Dei um passo à frente. Eu desisti de nós por acreditar em mim. Não importa o quanto eu me esforce, não importa o quanto eu entenda, se eu não sigo os meus próprios conselhos, quem mais nesse mundo irá um dia acreditar? Ninguém além de um espaço em branco.
Qualquer foto rasgada, qualquer aviso de siga em frente, qualquer sorriso e piscada me levarão pro abismo da minha própria culpa, mas eu não vou me livrar de nós. O carinho que minha mãe me ajudou a cultivar, eu compartilhei com as pessoas que passaram pela minha vida. Agora ele se foi mais uma vez. Levado por alguém que, mesmo que não saiba, precisa mais dele do que eu.
Eu vou tirar o rancor de mim. A frustração que mancha continuamente minhas palavras e dons. Quando eu deito ao lado de outro, meu corpo é real, mas a minha mente voa e paira em ilusão. Eu não quero que mais uma dor se expanda, então eu só imploro para ele: não me olhe assim. Vejo um misto de pena e amor. Uma admiração do meu sofrimento. Mas eu não posso dar a ele o que já não me pertence.
Para voltar para Barcelona, o caminho é tortuoso e incerto. Não sei quando a estrada se finda e a praia se almeja. Não há garantia do vento no meu rosto, não há garantia de pessoas similares deitadas na areia da praia, molhando os pés no mar, nos admirando mutuamente. Talvez eu jamais reveja Barcelona. Nada de passos dados pelas Las Ramblas, nada da fruta-cor encapsulada em frágeis copos de plástico da La Boqueria. Tão frágeis quanto eu. De forte, o que resta é a solidão, a virtude e o bem.
O tempo dirá os próximos destinos e retornos. Por enquanto, ele se encarrega de me entupir de banalidades, como remédio paliativo para um status de dormência. É um alívio. Eu sigo guardando os elogios, pedindo desculpas desnecessárias e sendo parcialmente infeliz, como sempre fui. No final do dia, o que me conforta é que abraços ainda são a coisa que eu mais amo no mundo. Ainda bem.